Vodafone Paredes de Coura 2026: Contas Finais

por José V. Raposo
Vodafone Paredes de Coura 2026: Contas Finais
© Elena Aldana

Fechada a edição de 2026 do Vodafone Paredes de Coura, para além de já baterem as saudades, é tempo de fazer o espólio destes dias. A relva terá agora quase um ano para crescer, a pedra do palco secundário descansará e o rio terá agora menos intrusos de duas pernas. O que fica são quatro jornadas em que os nomes de letras pequenas no cartaz carregaram (muitíssimo bem) a edição às costas.

Neste sentido, têm-se revelado acertadas as apostas da organização em nomes emergentes do que passa por rock alternativo nos dias que correm, sem esquecer os veteranos que continuam com assunto. Com efeito, juntar nos mesmos dias a veterania de Kurt Vile ou Cate Le Bon e ter Westside Cowboy, Hudson Freeman, Prostitute e terraplana a despontar resulta em cheio. Por outro lado, no que tange a nomes grandes, ter tido Underworld no anfiteatro natural constitui um capítulo lendário da história de Coura.

Como bem se sabe mas nunca é demais dizê-lo, uma campanha courense é sempre um ponto alto do nosso ano e ajuda a revigorar a sanidade mental. Algo tão prosaico quanto subir a Conselheiro Miguel Dantas ao longo dos anos é um exercício que tanto deixaria curioso Proust quanto faria Fellini filmar uma sequela de Amarcord. É certo que não há cá pão para malucos, mas em Coura não se passa fome, seja na Albergaria ou na pizzaria cujo logotipo tem um leitão.

Como vem sendo tradição (salvo no medonho interregno de 2020/2021) desde há treze anos e sempre no Xapas (só que desta vez em noite de vila), o glorioso colectivo GPSS passeou clássicos a várias BPM, curadoria vídeo de alto nível para todos os nostálgicos e farmou muita aura no grande campeonato nacional da modalidade, tal como Rufia Terno engendrou, na véspera, um desfile de vinil.

Um primeiro dia de movimento de juventude deu-nos revelações como Westside Cowboy, Greg Freeman e Getdown Services, sem esquecer a confirmação de que CMAT e Wet Leg conseguem ser distintos e eficazes inquilinos de um palco principal. Já o quadro de honra do dia tem um nome cimeiro chamado University, que vieram pela praxe e saíram doutorados pela renomada e exigente academia de Coura.

No segundo dia entraram em cena os cantautores veteranos e mais uma revelação chamada Friko que suou as estopinhas para, mais cedo do que tarde, dar o salto para o palco principal. Daqueles, Aldous Harding fez um bom fim de tarde e o descontraído-mor Kurt Vile fez um brilhante tricampeonato em Coura. Ainda em virtuosos das guitarras, os Hermanos Gutiérrez venderam viagens para o trajecto deserto-espaço sideral e os Show Me The Body transformaram o palco secundário num buraco negro sito no Lower East Side em Nova Iorque. E, como já foi sobredito, os Underworld estrearam-se no anfiteatro natural e deram um dos melhores concertos de música electrónica do historial do festival.

Já entrados na terceira jornada desta edição, vimos a consagração de uns vizinhos chamados Carolina Durante que trouxeram consigo um escritório com cafés, violinos, sopros, hambúrgueres e monstros e uma homenagem com direito a assessores, amigos e um Presidente da República a um maioral que há mais de cinquenta anos que nos dá música e que só precisou de “SÉRGIO” no cimo do palco para todos saberem imediatamente de quem se tratava. Também Benjamin Clementine fez o que costuma e que é dar grandes concertos, dane-se o facto de este poder ter sido um de despedida. Se há artistas que estão em estado de graça, outros continuam em estado de excepcionalidade, como foi o caso dos Maruja.

Ainda neste fenomenal terceiro dia, os terraplana atravessaram o Atlântico para serem apadrinhados por uma multidão no templo do shoegaze que é Coura e Ryan Davis & The Roadhouse Band distribuíram fabulosas trovas pós-contemporâneas alt-country com um substrato evocativo de maiores de outrora e de agora.

Já na quarta jornada, começámos pela folk poderosamente crua de Hudson Freeman para logo depois levarmos com o veludo de Cate Le Bon, a fanfarra da batidona Meute, o virtuosismo de seis cordas de Thundercat, a explosão do martírio de Prostitute e fechámos a edição com a contundência sónica de Dame Area.

Ainda que tenha sido uma edição bastante recheada de público, pouco se tornou insuportável, como é apanágio de Coura. E há coisas que nunca mudam e outras que se aparecem e, esperemos, se instalam. A terra do recinto que sucede à relva após as sucessivas sessões de saltos e encontrões e que se infiltra em sapatos e chapéus. A sarrafana (sarrabulho com molho de bifana) que tem servido para fechar o festival. As noites de vila em que se formam amizades, esquemas e patuscadas. Enfim, toda a envolvente que faz querer voltar ano após ano.

Todos os anos, enquanto escrevemos a catrefada de linhas que compõem o relato da edição, fazemo-lo com um misto de nostalgia por esta e pelas que já lá vão e com expectativa pelas que aí virão. E, claro, não há como não rir de alguns episódios narrados naquelas linhas. Por fim, mesmo com mais calor do que em edições passadas, foi bom não ter caído um dilúvio.

Coura tem este duplo condão de nos pôr a escrever coisas simultaneamente semelhantes e diferentes de um ano para o outro; se por um lado é um autêntico santuário que espera por nós durante o ano, por outro há sempre a incógnita do que aí vem e não há cartaz de festival grande nacional que não gere maior expectativa nas nossas hostes.

Gostamos de Paredes de Coura e do seu festival como Dean Martin gostava de Las Vegas. E Coura continua sem ser um amor de Verão, mas sim de todo o ano e quiçá de toda a vida.

Seguem as contas finais desta edição.

i) CAMPEÕES PAREDES DE COURA 2026: University; terraplana; Prostitute; Kurt Vile & The Violators; Ryan Davis & The Roadhouse Band; Dame Area; Underworld; Friko; Getdown Services; Sérgio & Os Assessores Com Amigos; Wet Leg; Carolina Durante; Cate Le Bon; Maruja; Benjamin Clementine; Show Me The Body; Greg Freeman; Hudson Freeman; Hetta do Montijo (Sobe à Vila);

ii) Menções honrosas: Amyl and the Sniffers; CMAT; Horsegirl; Joy Orbison; Meute; Hermanos Gutiérrez; Aldous Harding;

iii) ̶T̶i̶v̶e̶m̶o̶s̶ ̶p̶e̶n̶a̶ ̶d̶e̶ ̶t̶e̶r̶ ̶p̶e̶r̶d̶i̶d̶o̶/gostaríamos de ter visto mais: Colinas (Sobe à Vila); Wu Lyf;

iv) Podem ficar em 2026: pessoas (ébrias ou não) que furam fora de tempo e, pior do que isso, voltam para trás; pessoas que não se calam durante os concertos;

v) Palavras e expressões do festival: “farmar aura”; “aura loss”; “cortisol spike”; “FORNO”; “MOGGED”; “six seven”;

vi) Queremos ver/rever no Couraíso*: The Armed; LCD Soundsystem; Kevin Morby; Porcelain; Boucabaca; Action Bronson; This Is Lorelei; Fin Del Mundo; Horse Jumper of Love; Hammok; Chat Pile; L’Rain; Internazionale; The Mountain Goats; Heavy Lungs; Zoh Amba; Pile; Mangualde; Comic Sans; Ratboys; Slow Pulp; Chemical Brothers; Brown Spirits; The Bug; Cashier; Dinosaur Jr.; Chanel Beads; Cola; Julia Jacklin; Courtney Marie Andrews; Agriculture; Rhododendron; Damien Jurado; Danny L Harle; Tramhaus; Deary; La Dispute; dälek; Personal Trainer; Ducks Ltd.; Éme; Plankton Wat; Geese; The Nude Party; Fiddlehead; Garrett T. Capps; Trauma Ray; Força Maior; Knifeplay; Touché Amoré; Nick Cave and the Bad Seeds; Stereolab; Guided By Voices; Guttersnipe; HEALTH; Hiss Golden Messenger; Hey Colossus; Horse Lords; Makthaverskan; Mandy, Indiana; Mary In The Junkyard; Mclusky; Melvins; The Messthetics; Minyo Crusaders; Styrofoam Winos; Nation of Language; Robber Robber; Self Defense Family; Station Model Violence; Yard Act; The Tubs; They Are Gutting a Body of Water; Driftwood.

Já falta menos de um ano para os dias 18 a 21 de Agosto de 2027. Até para o ano.

* – De notar que da nossa lista do ano passado vieram este ano a Coura nada mais, nada menos do que quatro (!) nomes (meia batota com Maruja, vá): terraplana, Kurt Vile, Maruja e Hetta do Montijo. Agora só nos falta acertar no Euromilhões (mas para isso era preciso jogarmos naquilo).

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