Há pessoas que nasceram com um ou mais dons. Kurt Vile é uma dessas pessoas: nasceu com um gene da descontracção e com outro do talento para escrever grandes canções. E, após oito anos de ausência do território nacional e doze anos sem meter os pés em Coura, está de regresso, com todas as suas idiossincrasias de campeão dos campeões.
Vile é um gajo com historial distinto em Coura. Na estreia em 2011 trazia Smoke Ring for My Halo, fenomenal álbum que fez dele uma revelação em matéria de cantautores norte-americanos deste século (ah, que grande fecho de concerto com Freak Train) e em 2014 já era um dos maiores desta vida. Neste seu regresso a Coura, vem mostrar Philadelphia’s Been Good To Me, disco de regresso à boa forma editado este ano.
Fazendo-se acompanhar dos “seus” Violators, na formação mantêm-se os veteranos Jesse Trbovich (que brilhantemente dialogou com Vile nas guitarras) e Kyle Spence. Indicativo da qualidade da colaboração que Vile tem tido ao longo da carreira, lembrete de que outrora pontificaram na banda Adam Granduciel, Steve Gunn e o saudoso Rob Laakso, naquilo a que se pode chamar a Escola de Guitarras de Filadélfia (®).
Com efeito, Philadelphia… é um mais um tiro certeiro de Kurt Vile. Não que (watch my moves) (2022) ou Back To Moon Beach (2023; um LP que na definição de Vile é um EP) sejam inteiramente inferiores, mas não nos despertaram aquele sentimento de lançar foguetes porque o grande mestre está de volta como sucedeu nos seus álbuns anteriores, só mesmo certo entusiasmo pelo lançamento de canções novas de sua autoria.
Os primeiros acordes de Red Room Dub confirmam que é indubitavelmente uma malha de Kurt Vile e que não nos enganámos no palco. A progressão de acordes e o tempo não podiam ser de mais ninguém e, desta vez, nem são precisos versos, só uma saudação ao anfiteatro natural em forma de berro com um decidido “HEY!”.
Na mesma traça melódica e rítmica, Zoom 97 (uma das melhores composições do novo disco) é uma ternurenta homenagem de Vile à descendência. Num fluxo de consciência Vileano, que proclama que não há cá ácidos para ninguém e que a droga mais pura é a do amor verdadeiro: “ain’t on no trips though, no LSD, true love is the pure drug for me”. Até agora, disco novo e concerto aprovados por uma plateia que ia reconhecendo a grandeza do veterano.
É essa veterania que se reflecte numa canção como Bassackwards. Vile faz a vénia aos que o antecederam (basta dar uma volta pelas suas redes sociais) e o material reflecte a devoção que tem por gente como Bert Jansch ou John Fahey ou, no caso das letras, John Prine; toda uma metafísica provinda da criação do descontraído-mor.
Desengane-se, porém, quem achar que esta descontracção é sinónimo de chonice ou de falta de brio. Kurt Vile é um estudioso tremendo e, como muitos dos maiores artistas, tem as suas fases. A título de exemplo, a sua fase do banjo, por volta de B’lieve I’m Goin Down… (2015), foi extremamente proveitosa, estabelecendo-o definitivamente como sonicamente inconfundível, com correspondente aumento de tamanho dos palcos e das vendas. Para além dos aludidos Jansch, Fahey e Prine, constrói a paisagem rock contemporânea actualizando, com uns pós slacker, o cancioneiro de Neil Young, Bruce Springsteen e Tom Petty (RIP), congemina solos como um J Mascis, não tem medo de trocadilhos nem do absurdo quando escreve letras e também não teme ser confundido com um metaleiro quando lhe dá na telha fazer cornos à metal, durante e entre canções. Quando lhe chamamos campeão dos campeões é por tudo isto.
No caso do disco que nos vem mostrar, é por todos os afectos e homenagens que contém, numa cidade que é a capital do seu mundo. Afinal de contas, Filadélfia é a urbe em que usar uma t-shirt a dizer “If you don’t like my attitude dial 1-800-eat-shit” pode muito bem ser um uniforme e em que atirar pilhas e bolas de neve a um Pai Natal bêbado durante um jogo de futebol americano é um autêntico costume no sentido jurídico do termo. E, ainda assim, há quem lhe dedique álbuns, como é o caso de Kurt Vile – e, atentos os alinhamentos, praticamente todos os concertos de uma digressão -, que consegue ver beleza e humor nos comportamentos mais anti-sociais.
Se para os presentes nunca mais era Agosto, Vile canta em Rock o’ Stone que o fim de Setembro nunca mais cá chega, como quem desfia um diário de digressão. Aqui se vê a evolução das suas letras ao longo dos anos: do tumulto emocional devastador de Runner Ups (magistral canção) até à enternecida homenagem a Rob Laakso de 99 BPM, há um crescendo na descontracção sem perder a seriedade nem o humor, marca de um tipo bem resolvido pessoal e artisticamente. E profundamente idiossincrático.
Mais pesadona do que em disco, Chance to Bleed é, para nós, uma singela homenagem a todos os que fizeram e fazem a rockalhada em Filadélfia. Para bom entendedor, meia palavra basta e, como tal, para além do seu clássico introdutório “It’s all right”, dois simples versos, “now you got a chance to bleed now, with that old time, lo-fi, DIY, rock ’n’ roll nights”, bastam para nos recordarmos dos Dead Milkmen e dos Pure Hell e da actual ínclita geração dos Japanese Breakfast, Mannequin Pussy, Spirit of the Beehive e They Are Gutting a Body of Water, entre outros.
Para a despedida, duas cartadas clássicas: uma Pretty Pimpin perfeitamente reconhecível, mesmo perante o tema complicado do transtorno de despersonalização, e dez minutos geniais de Wakin on a Pretty Day. Em plena fase Gretsch, o descontraído-mor da flanela e da guedelha vai desfiando magistralmente o porquê de ser um dos melhores guitarristas que para aí anda (e da sua longevidade).
Se Cesária Évora era a diva dos pés descalços, Kurt Vile é o catedrático das cordas gastas. Para além de progressões de acordes que continuam a soar fenomenais, distribui solos que fazem tremer a plateia e letras em que telefones são antropomorfizados numa comédia do absurdo à sua maneira. É por tudo isto que o seu nome era um dos mais aguardados desta edição.
Uma selfie de língua de fora como recordação de um excelente serão minhoto e uma ovação à altura do concerto bastaram para selar mais um grande capítulo de Vile por cá. Depois de tanto encómio, o que faltou, então, a um concerto que foi já de si dos melhores desta edição? Mais material antigo, basicamente; o catálogo de Vile já é extenso e este reencontro precisava de mais idas ao baú, demasiadas para aqui elencar.
Todavia, adoptamos a mentalidade Kurt Vile e não nos queixamos. Coura’s been good to us.