1990. Karl Hyde, Rick Smith e companheiros concluem, após um caso sério de disforia criativa e musical, que a primeira encarnação da sua banda, denominada Underworld (a fase “Mark 1”), já deu o que tinha a dar, dissolvendo-se numa torrente de dúvidas e de dívidas.
1994. Hyde e Smith, acompanhados de Darren Emerson e compenetrados na cultura da acid house e afins que vinha constituindo parte relevante do underground britânico, concretizam o renascimento dos Underworld (a fase “Mark 2)”) ao darem à estampa Dubnobasswithmyheadman, álbum fenomenal e, qua tale, seminal, definindo um tempo em que parecia que o Reino Unido era o centro da música electrónica.
Uma e trinta da manhã de 14 de Agosto de 2026. Tempo de os Underworld mostrarem que o tempo pouco passa por eles e que continuam no topo da pirâmide de projectos de electrónica (em sentido amplo) para ver ao vivo. Quanto ao público que preenchia a plateia do palco principal, era tempo de colocar os óculos escuros para farmar aura (e não só, como se verá) e ir pelo rio das 130 batidas por minuto acima, um passo de dança por segundo.
Desde há vários anos em formação de dois elementos, os Underworld são compostos pela dupla clássica de Karl Hyde e Rick Smith, agora sexagenários e sem perderem um pingo de genica (deve ser isto o tal de “envelhecimento activo”). No caso de Hyde, o talento já corre nas descendência, que ainda no ano passado a filha, Tyler, passou por Coura com os Black Country, New Road. Quem sai aos seus não degenera, mais guitarra, menos sequenciador.
Avançando para a actuação e ainda em tema de frequências, não se trata de qualquer fanatismo da nossa parte, mas sim de fixar os factos: a noite estava ganha logo na primeira meia hora, com um arranque que deixou qualquer um boquiaberto (mas não parado). Na pole position, a versão original de Born Slippy, seguida de um recauchutanço deste ano de Pearl’s Girl e vai daí para Dark & Long (Dark Train), Kittens e Two Months Off. Cinco jóias da coroa da discografia do grupo, cada uma representando uma fase criativa cujo elemento unificador é, obviamente, a batida, essa fonte de vida e de Fé para os devotos da rave e da pista de dança, que assim ascenderam ao reino da electrónica.
Nas duas primeiras, o crescendo rumo ao arpejo delirante. Na terceira, o comboio de pulsações que explode em euforia na quebra que antecede a cavalgada final, a que se seguiu, na quarta, a marcialidade da batida que comanda a (des)ordem unida vigente no anfiteatro natural. Não se trata de uma agressividade à moda de Planetary Assault Systems, mas sim de um embalo contundente rumo à entrega da dança.
Não foi apenas para efeitos de farmar aura que muita gente utilizou óculos escuros no concerto. A repetição de versos quase como um mantra desse grande clássico que fechou uma vertiginosa sequência inicial que é Two Months Off (“[…] you bring light in [….]” x dezoito), conjugada com o jogo de projecções e luzes foi um belo teste aos sentidos para o qual o único remédio era mexer com vigor os ossos e proteger os olhos e, nalguns casos à nossa volta, de “turbinar” a máquina. De qualquer maneira, quem é que precisa de ter todos os sentidos operacionais quando Hyde declara, a plenos pulmões, que nos está a sentir?
Sem desprimor para o passado glorioso dos Underworld e de serem nome de topo da electrónica de noventas (ao nível de Chemical Brothers e de Orbital), também do seu presente viveu o concerto, que uma valente jarda nas ventas foi Arp12, single deste ano composto a meias com a produtora KI/KI. Todo o pedal que se quer numa noite para soltar muito bicho que nos mastiga ao longo do ano ou, como sucedeu ao nosso, quem foi afogar mágoas de uma rejeição amorosa com um chat bot (ao que isto chegou).
Mesmo que, parafraseando um antigo Presidente da República de Portugal, haja mais vida para além de Born Slippy .NUXX, certo é que, como é tradição mais ou menos assente com a dupla britânica, para o fim fica mesmo “esse” momento, aqui dedicado por Hyde à plateia. Numa monumental ovação que deve ter sido ouvida em Romford, as primeiras notas do sample são acompanhadas dos lendários primeiros versos, que em Trainspotting eram um convite à escolha de uma data de coisas: “drive boy dive boy, dirty numb angel boy.”
Das cordas vocais de Hyde e da maquinaria de Smith saem palavras e batidas que definiram parte significativa do Zeitgeist da cultura popular ocidental dos anos noventa. Trata-se de um retrato conciso do optimismo artificial (ou ampliado, pelo menos) providenciado pelo ecstasy e todos os excessos das raves e, no caso da canção, do alcoolismo que se traduzia em afogar todos os problemas da vida numa pista de dança até ser de manhã – e tantas vezes para lá disso.
Derradeiro momento triunfal num concerto que foi um triunfo por si próprio, deixou o anfiteatro natural rendido após uma transformação do Couraíso numa enorme rave, não sem antes de aquele berrar, a plenos pulmões, “LAGER! LAGER! LAGER! LAGER! LAGER! LAGER!”. Considerando a história de actuações de música electrónica nas edições dos últimos dez ou quinze anos, como Simian Mobile Disco em 2013 ou Bicep em 2023, os Underworld superaram todos esses nomes. Um concerto que foi um caso de ir, dançar e vencer.
2026. Karl Hyde e Rick Smith mostram que por vezes falhar e mudar de rumo é mesmo o melhor remédio, até porque acabam de levar consigo cerca de vinte mil pessoas em mais uma viagem pela sua visão da batida, de Romford para Coura.