Em Coura, quase todos os géneros e sub-géneros musicais assentam que nem uma luva, mas outros parecem mesmo feitos de encomenda para aquele recinto. Um desses casos é o do shoegaze, que nos últimos anos tem vindo a construir uma tradição gravadas a letras douradas no historial do festival, como foi o caso dos Slowdive em 2024 e dos DIIV no ano passado e de ambos em 2018. E, em 2026, é a vez de os brasileiros terraplana juntarem a sua obra à história de Coura.
Declare-se, desde já e com força obrigatória geral, que o shoegaze atravessa a sua segunda idade de ouro. Do Brasil à Coreia do Sul, passando pela Argentina, pelos Estados Unidos e por Portugal, não faltam exemplos de bandas que são cultoras da distorção e das vozes etéreas: respectivamente Say Sue Me, Knifeplay, Fin Del Mundo, Memorial State (luso-brasileiros, ainda por cima) e agora os terraplana, entre tantos outros.
Formados em Curitiba, são constituídos por Stephani Heuczuk (voz e baixo), Vinícius Lourenço (voz e guitarra), Cassiano Kruchelski (voz e guitarra) e Wendeu Silverio (bateria). Depois de um mui promissor álbum de estreia, olhar pra trás (2023, estoiraram definitivamente com Natural, disco magnífico editado no ano passado. Olham para trás nas influências, para o chão em busca do pedal da distorção e para a frente nas ideias.
Perante esta panorâmica, Coura e Portugal têm a sorte de apadrinhar os seus primeiros concertos fora do Brasil. O fundo cor-de-rosa choque com o logotipo da banda ao fundo nas projecções não deixa margem para dúvidas: estamos perante devotos e, como tal, discípulos de Kevin Shields e companhia.
Logo em desaparecendo (de Natural, demonstrando toda a evolução de um trabalho para o outro), a banda mostra a versatilidade: o poderio das guitarras de braço dado com vozes que exprimem o desespero de quem narra o desabar de um vínculo que se transformou em mãos fantasma e em sombras que fogem. E, contrariamente a uma das personagens do que acabou de ser primorosamente executado, não só ninguém desaparece, como há cada vez mais gente a aparecer e a engrossar a plateia.
Por sua vez, a banda não se deixa intimidar pela crescente multidão que veio testemunhar a sua actuação e eleva, com magnífico efeito, o eterno confronto do shoegaze entre o etéreo e a distorção. O braço trémulo das Jazzmasters de Lourenço e Kruchelski e o cruzamento de vozes de Heuczuk, Kruchelski e Lourenço são quem mais ordena, e a beleza nasce. A uma hora em que muito boa gente neste fuso horário e nos próximos já está navegando no seu sono, os terraplana mostram-nos que o sonho é uma constante do shoegaze sem fazerem dormir ninguém.
Se em desaparecendo tudo foi ao ar, um recuo até ao álbum de estreia e a umas conversas. Suavemente, que nem Neil Halstead ou Rachel Goswell (ou Catherine Cooper ou Miki Berenyi), Heuczuk e Lourenço declaram num uníssono dream pop o arrependimento vindouro, tornado em doce triste fado por uma instrumentação que tem todas a ideias no sítio no estúdio e aqui respira fulgurantemente, deixando, pelo que se vêm em nosso redor, muita gente a levitar. Mas também se dão bem com a abrasão: uma fenomenal S.N.C. põe em evidência a sua versatilidade emocional e instrumental.
Tal como o post-punk e derivados, quem se aventura pelo shoegaze arrisca-se a ficar preso em fórmulas e a não encontrar os acordes certos, a abusar dos pedais ou a não querer arriscar um som pesado e ficar-se por um produto final sem sal. O quarteto não é acometido por nada disto e, pelo contrário, consegue expandir magistralmente o seu som de estúdio; aliás, o que se sente é o envolvimento sónico de um abraço. Close my eyes, feel me now.
Quando estamos diante de uma canção como morro azul, nós é que somos terraplanados (decerto que a banda já ouviu este trocadilho muitas vezes). Uma das melhores canções de shoegaze dos últimos sabe-se lá quantos anos, é um estandarte sonoro da banda, o auge da dança de guitarras de Lourenço e Kruchelski e a voz e a secção de ritmo hipertrofiada pelas linhas de baixo e a voz de Heuczuk e a bateria de Silverio numa união monstruosa que se revela de repente numa ponta final excepcional.
Num festival que tem tido (e ainda bem) um apetite pantagruélico por shoegaze, ficámos saciados por mais um ano com a estreia internacional de uma banda que vai a caminho de ser bandão como os Terraplana. O quarteto sabe o que quer, sabe executar, sabe levar uma plateia a outra dimensão e torna-se bem distinto por isso. Não há como não nos sentirmos os mais esmerados e sortudos padrinhos deste mundo. Tá tudo ligado nessa banda foda, que o concerto foi massa.
Três vivas com distorção a fundo e um abraço transatlântico no meio do sonho.