E pronto, cá estamos novamente embrenhados em mais uma edição do Vodafone Paredes de Coura, isto é, em mais uma campanha courense. Uma semana (para alguns que se adiantaram no campismo, duas ou três) para reencontrar amigos, ver concertos, beber copos, jiboiar no rio ou, se se preferir, andar na putaria.

O aquecimento dos dias anteriores na vila trouxe actuações de monta de Colinas e de Hetta do Montijo, sem esquecer DJ sets, no Xapas, de Rufia Terno e GPSS e, como sempre, episódios rocambolescos para recordar em noites de tormenta por alturas do Inverno quando se estiver já em contagem decrescente para a próxima edição. No entanto, o que nos traz a Coura uma vez mais são as propostas musicais a passar em revista ao longo de quatro dias.

No caso deste primeiro dia “a doer” de festival, o que se testemunhou foi uma jornada courense de juventude munida de guitarras, com uma eficiência difícil de igualar, tendo ainda havido uma aprovação com distinção e louvor.

Westside Cowboy – palco Vodafone

Para dar o pontapé de saída nesta edição do festival, nada como começar em grande com os Westside Cowboy. Sim, em grande porque, apesar de tocarem às cinco e tal da tarde, os putos de Manchester já têm contrato com uma editora como a Island e a saída do seu LP de estreia, It Goes On, tem data marcada para dia 21 de Agosto, com hype estratosférico.

Mal decorre o primeiro minuto de uma canção como Can’t See percebe-se o alarido. Herdeiros na linha recta de uma longa linha que começa nos Magazine e, até ver, acaba mesmo aqui, não se deixem enganar pelas carinhas de meninos, que a competência é alta, tal como a ambição.

O desfile de malhas continuou com outro destaque da sua parca mas já relevante discografia: as vozes entrelaçadas e as variações rítmicas de Don’t Throw Rocks. Regressando a linhagens, uma versão arrebatadora de The Wahs não só faz deles uns Teenage Fanclub pós-contemporânos, mas demonstra-nos in loco que, não obstante a juventude, já estão a um nível de maturidade ao vivo digno de veteranos. 

Para terminar, um a cappella a quatro vozes na beira do palco em In The Morning. O género de momento que não só fecha um óptimo concerto, mas que também mostra o carisma do grupo (a que o público deu boa réplica) e deixa antever futuras presenças por cá.

Parece premonitório, mas, se assim continuam, os putos de Manchester vão crescer e não é só na idade. Cá estaremos para ver, com todas as ganas.

Greg Freeman – palco Coura Sem Paredes

A abertura do palco secundário desta edição marcou a actuação do primeiro dos Freeman do cartaz e, também, a renovação da aposta certeira em cantautores – neste caso, dos emergentes. Greg Freeman, vivido entre Maryland e o Vermont, chega-nos com três álbuns em quatro anos de carreira, incluindo All Set the Bone, a sair em Outubro deste ano, e muita bagagem sonora.

Mal começado o concerto, Freeman saca uma grande interpretação daquela que é, para este escriba, a sua melhor canção, Indu. Aqui mais vigorosa no que sai do PA em direcção à plateia, contém, na letra, uns versos que, retirados do contexto da faixa e aplicados à dinâmica de uma semana em Coura, são um truísmo: “These days come so quick, these nights go so quick now”.

Aqui mais perto de um Ty Segall do que do rótulo alt-country que lhe tem sido atribuído, não são só os riffs de Freeman que galvanizam. A voz é uma mescla da de Neil Young e, mais ainda, da de Jason Molina (RIP). Noutra grande transfiguração sónica da tarde, uma Come and Change My Body a duas guitarras demonstrou que Freeman não só sabe escrever canções (e tocar harmónica), como também sabe deixá-las evoluir e que, bem, é o mais próximo que temos de uma reencarnação da voz de Molina ao vivo – aproveite-se cada palavra.

Humilde, crê que nunca tínhamos ouvido falar dele e agradece-nos a presença. Perguntou se alguém conhecia “um tipo especial de cachorro quente no Porto” e como estamos a nível de situação de leitão. Com efeito, a sua música e o concerto são o equivalente a uma leitãozada decente: amiúde lá voltamos e fazemos dela comida de conforto. O tronco nu é opcional (não para um grupo de australianos numa das laterais da plateia).

Se Greg Freeman assim continua, vamos mesmo continuar a ouvir falar muito dele.

Na pausa para hidrata-, eclipse, o anfiteatro natural recebia as actuações do duo Sol e Lua, num duelo pelo protagonismo que, como diria o Nelo da Idália sobre a obra de Manoel de Oliveira, deixou a envolvente do recinto com uns verdes muito verdes e um batalhão de mirones que não foram os únicos a olhar o céu, que também os First Breath After Coma e Salvador Sobral miraram como puderam um dos fenómenos deste dia de certame.

Horsegirl – palco Coura Sem Paredes

Há ano e pouco e perante a expectativa que tínhamos para ver o trio de Chicago no Primavera Sound Porto após o lançamento de dois mui interessantes álbuns, manifestámos que o ideal, após um concerto morno, era voltarem cá ao burgo numa sala mais consentânea. Tal não aconteceu e eis que as Horsegirl tinham aqui uma prova de fogo: superar a percepção de que não conseguiriam transpor a qualidade de estúdio para o palco. Desde já se refira que a nuance que se perdeu foi compensada com uma máquina de palco já mais experiente e oleada – e um público que lhe reconheceu as qualidades.

 Num vigoroso trote (por assim dizer), conseguem trazer à memória as Electrelane (ou as DA) e certo lo-fi de há década e meia, através de interpretações bem válidas de canções como Rock City ou Again, Again (aqui com direito a troca de instrumentos). Hipnóticas numas vezes e vivazes noutras, manifestam que “tocar em Portugal é do melhor que há”.

Mais conseguido do que o concerto no Primavera Sound do ano passado, este verdadeiro acto de redenção das Horsegirl foi mais um contributo para uma nota positiva desta jornada inaugural. Assim, sim.

Após várias actuações e um eclipse, decorria a bom ritmo este primeiro dia de festival. A irlandesa CMAT (diz-se “Simá”), já nossa conhecida de Algés no ano transacto, tratou de espalhar simpatia e, desta vez, country apopalhada para uma imensa plateia que muito bem a recebeu.

Confessou que o primeiro disco foi escrito por cá e mandou abaixo uma cerveja de penalty, para gáudio e irmanação com o público, que se encontrava bem composto de compatriotas seus. Constituindo outro fenómeno desta edição, os irlandeses que marcaram presença devem ter sido impelidos a tal tendo em conta a presença de concidadãos no cartaz e porque uma estadia em Coura deve ser mais barata do que bilhetes para um concerto de CMAT na terra natal em 2026. Quem proclama perante milhares que gosta de ser famosa só pode ter um corolário destes.

Wet Leg – palco Vodafone

Depois do festão de CMAT (que não seria o último desta edição), chegou a vez dos ingleses Wet Leg. Quiçá um dos grandes fenómenos de guitarras indie dos últimos anos, à banda da Ilha de Wight coube o estatuto de espécie de cabeça-de-cartaz desta primeira jornada de Coura. Não perderam tempo a mostrar o porquê desse estatuto, através do soco sónico de catch these fists, bem acima do estúdio e com fumo a dar certa aura da banda como uns vultos que vieram estraçalhar isto tudo.

Rhian Teasdale, que tem os pelouros das voz e da guitarra, assegura também o do carisma da banda. Faz do palco o seu quintal e, no meio do referido fumo que envolveu o palco durante todo o concerto, encarna Kim Gordon, Kathleen Hanna e Davina McCall, apresentadora da MTV europeia nos idos de noventas, que tem direito a uma canção homónima.

Por sua vez, o resto da banda não se faz rogada e carrega os sussurros e provocações de Teasdale em notáveis execuções de Being in Love e mangetout. Não sendo um portento de originalidade, a obra de Wet Leg chegou e sobrou para provocar um trio de luzes, fumo e ovação – a nada mais estavam obrigados.

Por seu turno, o público corresponde, sabendo as letras de cor e levantando os pés e do chão e pó, muito pó. Não era caso para menos, que as melodias e os refrães orelhudos saem ainda mais musculados do PA. Homenagem espontânea à saudosa Jennifer Finch e às L7? De qualquer maneira, a eficácia da banda britânica é demolidora e o concerto vai-se tornando num ponto alto da noite. E nem depois da saída de palco deixam de hipertrofiar o seu estatuto de banda grande destes tempos, que uma Careless Whisper que soava docemente pelo recinto tratou de fechar efectivamente o concerto com chave de ouro.

Banda mais eficaz do Mundo destes últimos anos? Sem dúvida.

Getdown Services – palco Coura Sem Paredes

Ainda que estejamos em ano de Mundial de futebol, não se pode dizer que tenha havido grandes distúrbios de hooliganismo; na sua ausência, houve ladismo pelo Alto Minho. Intitulando-se como a melhor banda da Grã-Bretanha, dois lads em modo away days (Ben Sadler e Josh Law, decorem-lhes os nomes) vieram a Coura sob o nome de “Getdown Services” averiguar se ainda haveria paciência para uns quantos pés de dança ao fim da noite.

Antes sequer de o concerto começar já desafiavam o público uma quantidade de vezes, como quem desafia outrem para um mano-a-mano. Apresentam-se quase como se fossem irmãos mais novos dos Sleaford Mods, mas com t-shirts de Mayhem, uma guitarra eléctrica e umas batidas e samples que cumprem muitíssimo bem a função de servir de base ao palavreado com que alternadamente nos brindavam.

Logo ao arranque, com Head Down For The Conversation, mostram ao que vêm: rimas em fluxo de consciência, palavrões como textura e uma melodia agradável na guitarra. Retirando do cinzentismo britânico contemporâneo (como tantos compatriotas ali nos últimos anos, dos Shame aos Idles) o seu cancioneiro, não deixam de o celebrar (só faltam o tablóide e o pacote de batatas fritas debaixo do braço) e de chamar a si uma moldura humana que encheu o palco secundário de Coura.

Por falar nessa multidão, atiram-lhes com camisolas do FC Porto e eles vestem-nas, mesmo que fique uma entremeadazita à mostra (tamanhos à Messi100 ou simplesmente manigâncias dos actuais desenhos de camisolas?). Fazem crowd surf e a dupla britânica aplaude (e ainda diz que é pouco), em toda uma troca de galhardetes saudáveis, com Law em tronco nu a puxar por uma Gibson SG armado em Angus Young do Taboão enquanto Sadler proclama, em I Got Views, que “I’m more shit than the average nothing”.

Veredicto: os Getdown Services venceram por desgaste. Não por serem uns chatos, mas pelo desgaste de passar cerca de uma hora de divertimento sem peias; são o género de banda que se quer num after como o de Coura, isto é, a de levantar toda a gente do chão (incluindo um inaudito mosh pit) e de colocar o público a falar profusamente deles quando já vai a caminho do saco-cama, nem que seja pela (falsa) saída de palco em câmara lenta ao som de One More Time dos Daft Punk. Bons prestadores de serviços que nos passaram a devida factura.

Para encerrar este primeiro dia do Vodafone Paredes de Coura, os caloiros University formaram-se com distinção e louvor na academia de Coura e, por isso mesmo, merecem um tomo próprio.

O segundo dia estava a meio dia de distância.

Galeria
Fotos por Elena Aldana
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