Numa edição em que os nomes pequenos do cartaz têm mais assunto e, como tal, se agigantam perante os maiores, muito pelo seu cansaço e falta daquele, os University tomaram precisamente essa dianteira no que toca a expectativas, conquistando o caneco do destaque nesta primeira jornada de Coura. Com a lição da necessidade de bem traduzir a qualidade de estúdio para o palco e de deixar uma marca muitíssimo bem estudada, submeteram-se à praxe e às duras provas académicas (achavam mesmo que iam escapar de piadolas académicas?) do júri de Coura e, spoile-se já, ascenderam ao quadro de honra da edição.

Trio inglês oriundo de Crewe composto por Zak Bowker (guitarra, berreiro), Ewan Barton (baixo, teclas) e Joel Smith (bateria), apresenta-se no Alto Minho com um álbum de estreia magnífico, McCartney It’ll Be OK, editado no ano passado pela Transgressive e já na decorrência de várias edições que deixavam antever um estoiro dos grandes, como o single de estreia, Can’t Breathe. Sonicamente, mostram já serem discípulos dos (saudosos, até ver) black MIDI e de uns Unwound, Cap’n Jazz ou Braid. E nem precisaram de uma consola de jogos em palco, que estiveram demasiado ocupados a apresentar uma fundamentação sonora cabal.

Perante nós, estão três tipos que parecem saídos de outra dimensão e que se preparam para dar um concerto que foi uma defesa de tese magistral. E qual foi o tema da tese? Poder-se-á dizer que foi sujeita a exame a sua interligação entre o post-hardcore, o emo e o noise.

Como mise-en-scène, passou Begotten nas projecções; o que aí virá bem poderia ser uma banda sonora alternativa do filme. Adiante-se, ainda, que a veia emo do trio inglês é completamente dionisíaca, de gajos tresloucados que não querem saber de fofices e de corações partidos (os American Football e o Alejandro Sanz tratam melhor da coisa), só mesmo de exprimir a enxurrada que lhes vai na alma ou, no caso do referido filme, de um Deus desesperado que toma medidas drásticas contra si próprio.

Passando ao que interessa, Snitchin’ é aqui interpretada como uma cábula da qual o trio se chiba para nós. Frenética e a raiar o psicadelismo, bem corporiza o lema do grupo de ser a última banda ao cimo da Terra. O frenesim dadaísta das palavras de Zak Bowker coincide com o da instrumentação, em rajadas melódicas que se colocam em duelo com o tempo e o ritmo.

Um pit diverso do de Getdown Services tratou de bem receber e apreciar o trio: fãs de emo e gente de ouvidos curiosos serviu de júri nestas provas, dando a sua concordância a cada canção. Com brio e bastante mais respeito pelo próximo do que quem no concerto anterior queria levantar um pit nas alas da plateia, encaixaram o movimento corporal com aquilo a que se pode chamar a argumentação da secção de ritmo de Ewan Barton e Joel Smith.

Uma palavra de apreço para este último. Baterista que merece a cátedra de autêntica casa das máquinas da banda, construiu, com muito movimento e suor, o suporte rítmico perfeito para a envolvente sónica do concerto, sendo incansável a estender brutalmente o estúdio e a atirar o concerto para os anais da História do festival, seja com mudanças bruscas de tempo que deixariam um Chuck Biscuits orgulhoso deste pupilo, seja pelas idas aos pratos para dar textura a uma prelecção do que é a bateria na música de guitarras destes últimos anos. Brilhante.

A continuada comunhão de esforços (e de ruído) continuou em refutações de quaisquer dúvidas que houvesse sobre a magnificência daquilo que nos foi apresentado: eis a dupla de Curwen Massive Twenty One Pilots Tattoo. Para além de ter passado metade do concerto a dizer que a “próxima é a última”, Bowker naquelas duas descargas debita acordes e versos e percorre o palco como quem tem uma faca nos dentes e o peito a rebentar, qual homem que trata cada performance como se fosse a última não da sua própria vida, mas de toda a gente que ali está.

Como apreciação do concerto, o maior elogio que lhe podemos fazer é não sacar dos habituais adjectivos tipo “incrível”, “excelente” ou “magnífico” e, ao invés, declarar logo que estamos perante uma das melhores bandas recentes que para aí anda. Passe a bizarria, é reconfortante que uma lição de barulho e de inversões de tempo e ritmo destas represente um presente (e talvez o futuro próximo) sónico pleno de assunto.

Uma aula que valeu a pena. Praxados, avaliados e aprovados com louvor e distinção. A nota já nem interessa.

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Fotos por Elena Aldana
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