Se a primeira jornada do Vodafone Paredes de Coura até que foi de intensidade fácil de encaixar (salvo a jarda dos University), a segunda, pelo seu assunto, seria da pesada. Mais cantautores (desta feita veteranos), batidas para se atingir o auge e, para fechar as hostilidades, uma amálgama digna de registo com sotaque cerrado de Nova Iorque.
Aldous Harding – palco Vodafone
Para começar a ronda de cantautores veteranos temos, ao vivo e a cores (e vicissitudes), Aldous Harding para abrir o segundo dia do festival. Comece-se com uma confissão do escriba: consideramos que a carreira de Harding é demasiado desigual, oscilando entre discos com pouco assunto e demasiado hype (caso de Warm Chris) e discos de alto gabarito, como sucede com Train on the Island, o seu mais recente e, francamente, melhor trabalho.
Compenetrada na sua entrada em palco, como quem tentava perceber as vibrações da zona, a sua expressão nos primeiros momentos do concerto deixou alguns apreensivos (para mais tendo tido problemas com a guitarra clássica). Contudo, as distracções pararam mal se desenrolou a canção homónima do seu novo trabalho (com refrão hipnoticamente semelhante ao de Teardrop, dos Massive Attack) e a luxuriante voz de Harding começou a ditar o passo da parada, devidamente acompanhada por uma banda competente.
Resolvidos os problemas com a guitarra, Harding presenteou-nos, enquanto dedilhava suavemente as cordas da guitarra e cuja voz deu o seguimento necessário, uma imaculada Treasure. Entretanto, dirige-se ao público, que nunca deixou de a apoiar nos bons (Venus In The Zinnia) e nos maus (os já referidos problemas técnicos), declarando simplesmente que “não estou muito faladora, mas estou aqui”. E não perdeu a cabeça, nem em Coura nem em São Francisco, conforme cantou em San Francisco.
Na calmaria de uma tarde courense, o mel das canções de Aldous Harding não podia ter sabido melhor.
Friko – palco Coura Sem Paredes
Parte integrante daquilo a que apodámos de movimento de juventude da edição deste ano, os Friko, banda do estado norte-americano do Illinois e liderada por Niko Kapetan e Bailey Minzenberger (contando ainda com Korgan Robb e David Fuller), traziam consigo dois discos de indie rock, o bom – a saber: Where We’ve Been, Where We Go from Here (2024) and Something Worth Waiting For (2026) – para mostrar e nós trazíamos as expectativas.
Desde o arranque com Guess até canções como Chemical ou Seven Degrees, o que se viu foi uma banda que constituiu o equivalente musical de se andar com o coração nas mãos, de rock sem merdas e com ganas de conquista. Todos os ingredientes de uma revelação do festival estão à vista: intérpretes exímios, tiveram o público na mão e souberam dosear as melodias e os tempos, alternando, sem ponta de complexos, entre melodias e sensibilidades pop (Still Around é uma grande evocação dos Big Star ou dos Let’s Active) e a agressividade apunkalhada da velocidade, com laivos de distorção – Korgan Robb mais parecia um domador de guitarras e ruído do que um músico.
À nossa frente, lia-se numa t-shirt que “no guru holds me”. Também os Friko parecem alinhar por esse diapasão, não se intimidando perante trocas de instrumentos ou oscilações melódicas que acabam por ser parte da sua atractividade. Término com uma versão de Ceremony dos New Order, porque mesmo sem grilhetas criativas fica bem homenagear os maiorais (que há uns anos ali estiveram) e, juntamente com a amostra de talento a que tivemos direito no concerto, para carimbar a sua presença no nosso radar nos próximos anos. Só têm é de dar a volta ao chumbo a Geografia, o primeiro desta edição: caros amigos, estamos em Paredes de Coura e não no Porto.
Tal como os Westside Cowboy no dia anterior, os Friko apuseram aqui um meio-carimbo para um regresso algures no futuro, que a combinação discografia e concerto memorável deixaram aqui something worth waiting for.
A caminho do palco principal, estava-se a minutos do regresso de Kurt Vile a Coura, doze anos após a última aparição por estas bandas. O mestre da descontracção não desiludiu, bem pelo contrário. Como tal, a sua actuação tem relato em texto próprio.
Hermanos Gutiérrez – palco Vodafone
Duas guitarras em duelo parecem feitas de encomenda para um palco principal como o de Coura; em tempos, comentámos que a dupla mexicana Rodrigo Y Gabriela teria ali poiso fértil para um concerto e recorde-se, por exemplo, o espectáculo dos Dead Combo na edição de 2018, que lançou definitivamente a banda para os anais da história do festival e, infelizmente, serviu de despedida de Pedro Gonçalves (RIP). Fosse pelo cancelamento do concerto marcado para a edição do ano passado ou simplesmente pelo seu cancioneiro, era grande a expectativa (e, como tal, a moldura humana) para ver os irmãos suíços com ascendência equatoriana, Alejandro e Estevan Gutiérrez de seu nome artístico, mostrarem o que valem.
Com a noite caída há muito, dois tipos sozinhos munidos de guitarras iam criando atmosferas que iam do desértico ao cósmico. Aliás, chegam mesmo a confessar que estão a levar os ouvintes em viagens espaço sideral fora, descolando, lá está, do deserto para sabe-se lá onde.
Dito isto, não é de todo fácil transpor a contemplação de estúdio de canções como Low Sun (faltando, nas demais, a presença de banda), mas o duo cumpre e com certa distinção. E refere-se explicitamente aos Dead Combo como inspiração, para adoçar ainda mais a boca e o coração da multidão.
Cativando o público com o imaginário paisagístico que iam construindo, a que poderemos chamar, dada a localidade, de “Western Sarrabulho” (®), saem-se com maravilhas como Los Ojos Del Cóndor. De interpretação esmerada, não são apenas bilhetes para uma viagem para levitar dali para fora, mas também cartas de amor dirigidas a muita gente (todo o plantel dos filmes de coboiada, basicamente) e a muito sítio.
Bem assim, Canto Andino é apresentada como uma carta de amor à América do Sul. Não nos fiquemos pela imagem de um pássaro voando pelos Andes e pelo Lago Titicaca, que os acordes dos manos Gutiérrez tanto fazem sentido nas Pampas como na Amazónia ou algures por Essequibo ou onde o Orinoco desagua no Atlântico. E assim foram percorrendo as suas “paisagens favoritas” (outro conceito que fizeram questão de explicar), num concerto bem conseguido até final.
Porém, há que juntar a nossa voz a um reparo sobre o horário do concerto da dupla. Percorrendo-se o seu cancioneiro alinhamento fora e sendo este reminiscente de uma paisagem solarenga, o ideal teria sido uma actuação agendada para um típico fim de tarde de Paredes de Coura, descontraído e envolvente, e não para as onze da noite, hora em que se começa a chegar ao auge sónico de uma jornada de festival.
A voltar? Seguramente, mas a uma hora que permita que o pôr do sol se junte à banda para uma actuação conjunta.
Wu Lyf – palco Coura Sem Paredes
Há precisamente década e meia, uma banda inglesa chamada Wu Lyf (diz-se “Woo Life”; acrónimo de “World Unite Lucifer Youth Foundation”) editou um álbum tremendo intitulado Go Tell Fire to the Mountain. Pegando num salutar corpo instrumental inteiramente do lado da barricada do indie rock e com um vocalista que parecia um clone de Tom Waits, a originalidade e o arrojo do disco (ou não fossem eles de Manchester) arrebataram muito boa gente (incluindo este escriba) e até chegaram a passar por cá, actuando em Algés.
Mal passou um ano desta ascensão fulgurante e, após uma série de episódios mirabolantes nas redes sociais, essa mesma banda chegou abruptamente ao fim. Em 2025, voltou repentinamente ao activo e em 2026 regressou a Portugal.
Dando a crer que estes quinze anos foram na véspera, avançaram os ingleses para a canção inaugural do aludido disco, L Y F. Com menos rouquidão e mais melodia na voz de Ellery James Roberts e menos intensidade instrumental, ainda assim soube bem recordar um pedaço daquele que continua a ser um grande disco.
A baixa na intensidade prevaleceu em Cave Song, sem no entanto atingir níveis preocupantes, tendo em conta de que este concerto também servia de celebração da ressurreição de uma banda outrora promissora. No meio disto tudo, faltou revelar que a banda lançou já este ano A Wave That Will Never Break, tendo daí retirado Love Your Fate, canção simultaneamente retrospectiva e profética, quase como um acto de contrição, na qual Roberts e companhia tentam expiar todos os seus eventuais pecados.
Num concerto que ia correndo bem, chegou-se a Spitting Blood. Para nós “a” canção do grupo, na sua interpretação voltou a verificar-se a indesejável baixa na intensidade. Percebe-se o eventual cansaço da banda numa digressão, mas não se entende a opção de retirar alguma da garra a uma composição maior.
Quando deixámos os Wu Lyf para fazer a piscina a caminho do palco principal, estavam a terminar uma muito decente The Fool, mais uma canção retirada do mais recente trabalho e que deixa a reflexão de que mais vale voltarmos a ter uns Wu Lyf irregulares do que não os termos de todo.
O objectivo da piscina acima mencionada foi o de registar o concerto dos Underworld que, pela sua magnificência, tem direito a texto próprio.
Show Me The Body – palco Coura Sem Paredes
Um banjo eléctrico, um baixo e uma bateria. Três instrumentos que, tal como (por exemplo) as armas de fogo, só semeiam o caos se houver alguém que os toque. E esse alguém foram os Show Me The Body, trio nova-iorquino (com sotaque condizente) composto por Julian Cashwan Pratt (banjo eléctrico, voz), Harlan Steed (baixo, efeitos) e Nijol Benjamin (bateria), que deveria ilustrar o significado da palavra “contundência” num dicionário.
Trazem consigo a agressividade dos Biohazard e dos Cro-Mags (a dada altura, tem-se a sensação de que vão aviar uma versão de Punishment ou de Malfunction) e são uma versão de sangue quente dos DNA ou dos maiores extremos de Naked City (só faltando o saxofone). Naquilo que bem poderia ser a banda sonora de uma distopia, levam tudo a eito desde o primeiro segundo, num monólito de brutalidade sonora.
Quando se está diante de malhas como Alone Together (aquela tradição de canções de NYHC sobre confronto, aqui em modo post-hardcore) ou No God, na qual sobressaem todo o pessimismo que lhes vai na alma após o vazio provocado pela ausência de Deus, a única solução é a ruptura com tudo ou, menos drasticamente e pelo que se vê, descarregar a fúria num pit. Nem numa canção que podia ser uma descrição da atitude da banda enquanto esteve em palco como Good Time há uma réstia de boas vibrações – essas ficam para a reacção do público perante o poder abrasivo da instrumentação e do combate que se desenrolou entre o banjo eléctrico e o baixo, com a bateria a servir de juiz da partida.
Sob a égide dos três caixões das projecções prosseguiu o retrato da completa anomia do indivíduo como vítima da enxurrada de condicionantes sociais, culturais e sociais continuou com Do What’s Right (Happy). No entanto, o negrume do estúdio foi deixado de lado quando, em USA Lullaby, Pratt veio “conviver” com o estimado público já em cima do final de um estrondoso concerto.
Tendo todos os presentes sobrevivido à descarga, não havia cadáveres humanos para mostrar. Já se o cadáver era o do optimismo e do afecto, esse foi artisticamente desvendado.
Para quem ainda estivesse disposto a disso e mesmo após o cancelamento à última da hora de Bassvictim, AlFaer, DJ e produtor do Porto, assegurou o after madrugada fora.
E assim se concluiu a primeira metade desta edição de Coura.