Completada a primeira metade desta edição do Vodafone Paredes de Coura, entrava-se agora no terceiro dia, cheio de assunto e do qual retivemos vários episódios, perdão, concertos que passaram a fazer parte da memória do festival. Fosse com uma homenagem a um nome incontornável da música portuguesa, um concerto de espanhóis de refrães orelhudos ou uma furiosa intempérie de post-punk a puxar para o jazz, tratou-se de um dia para lá de historicamente prazeroso.
Carolina Durante – palco Vodafone
A banda madrilena transformou, uma vez mais, um palco num escritório, e, numa plateia já composta, picou o ponto, sendo hora de prosseguir com a jornada de trabalho. Após uma rábula nas projecções com o genérico da versão norte-americana de The Office, instalam-se no posto de trabalho e abrem o serviço com Joderse la vida, canção orelhuda (como 95% do repertório da banda) e inteiramente certeira para quem atura chefias de trazer por casa ou simplesmente estará daí a três dias a regressar ao trabalho.
A aviar cartucho desde o primeiro segundo, os espanhóis mostram o seu estatuto de nome maior do rock dito alternativo do país vizinho; herdeiros de bandas como os Los Punsetes, andam nisto há quase uma década e nos últimos anos têm andado imparáveis. Sublinhe-se, ainda, que o rock desta estirpe aqui do lado passa por um momento formidável: de Comic Sans aos Serpent, passando por Bernal, são casos de bom vento vindo daquelas bandas.
Como um bocadillo de solomillo e umas quantas tapas, as canções de encher o ouvido sucediam-se, várias delas sátiras à vida contemporânea e com refrães inesquecíveis. Uma delas, Tomé Café, é da mesma escola de adoração da cafeína dos Descendents e, como bem proclama a letra, teve a banda literalmente de chávena na mão em palco. Já outra, a ramonesiana Monstruo, teve um invasor de palco assaz simbólico: um monstro de post-its que é o melhor argumento para se continuar a recorrer ao trabalho remoto (deve ser um chato que passa a vida a impingir trabalho e a cravar coisas).
Para além de um monstro, a banda trouxe convidados de cordas e sopros que não só ampliaram o seu som, como transformaram o concerto num manifesto de maturidade sónica; tempo houve para agradecimentos a quem aguentou o sol e de Diego Ibáñez aos amigos que lhe recomendaram o festival por cá terem parado enquanto espectadores. No entanto, com tanto convidado faltaram canções fundamentais como Cayetano, não só por ser uma canção e pêras, como porque cai sempre bem uma rábula contra os cayetanos de cá, os betos, em tanta coisa iguais aos do lado de lá: votantes em partidos-farsa, trabalhando (?) nas mesmas multinacionais e vivendo das mesmas aparências e comparações. Enfim, uns gastos de oxigénio.
E como não precisamos de gente-lixo na vida, a despedida com uma senhora Hamburguesas. Hino sobre dar a volta por cima no pós-desilusão com pessoas, o seu refrão é, provavelmente, o melhor da sua discografia: “porque fuera hay cosas preciosas, hamburguesas, el fútbol, mi madre, mis amigos suman más que mis demonios”.
Não foi preciso mais para fechar uma grande abertura de jornada, que foi rock do bom e bastou. Adiós e voltem sempre, carajo.

Sérgio Godinho & Os Assessores com Amigos – palco Vodafone
A tarde era de gala-homenagem. As letras gordas no cimo do palco com o nome do protagonista não deixavam enganar ninguém e até o Presidente da República veio a Coura agraciar com a sua presença o concerto de Sérgio Godinho, só não sabemos se também trouxe os seus assessores ou não. Mais importante: nunca vimos enchente tão grande de assessores do couraíso num concerto diurno quanto aquela que se registou no palco principal.
Sérgio Godinho, para além de nome fundamental da música popular nacional do último meio século, é, passe o chavão, um sobrevivente. A maioria dos seus companheiros de notas e acordes do tempo da canção de intervenção já cá não está; ainda há dois anos perdemos Fausto Bordalo Dias, pelo que, do alto dos seus oitenta e um anos, Godinho é um porta-estandarte e depositário de muita memória musical colectiva e, desde já se estabeleça, continua cheio de vitalidade. Podemos discordar (e discordamos) politicamente em vários assuntos e concordar noutros (como concordamos), mas reconhecemos a grandeza e longevidade da sua obra.
No exame à sua própria memória, começou por atirar-se, com toda a propriedade e fidelidade à versão de estúdio, a Grão da Mesma Mó. Do recente para o clássico, uma Maré Alta em dueto rockeiro com o primeiro convidado da tarde, Samuel Úria, provocou uma onda de felicidade inolvidável no mar de gente que sorvia com satisfação o concerto. A liberdade passava mesmo por ali.
De avós aos netos (e cartazes com os dizeres “paz, pão, habitação e Sérgio Godinho no coração”) e dos que seguiam o concerto com um sorriso ou a chorar de alegria, a comunhão de gerações era admirável. E vai daí para nova ronda de amizades: primeiro Manuela Azevedo dos Clã para um dueto em Espectáculo e depois Ana Lua Caiano para uma ronda de evocação, com instrumentação tradicional, do Conjunto António Mafra (e a luta pela semana inglesa, isto é, do direito a descansar ao sábado à tarde) em Ora Vejam Lá e de Alexandre O’Neill, neste mês que seria o do seu centenário.
Facto que muito nos agradou foi a incursão por Na Vida Real, o nosso disco de eleição do vulto, por demonstrativo da sua versatilidade. Uma solene e lúgubre O Fugitivo (bem distante da versão de disco) que não só não soube a pouco, como deixou muitos com um brilhozinho nos olhos (canção homónima que também não podia faltar).
Cantando-se para o fim, mais uma evocação com uma versão muito sua de Os Vampiros de José Afonso e, como se se estivesse em plena sessão solene no auditório de certa instituição de formação de profissionais de administração da Justiça em nome do povo, uma enternecedora O Primeiro Dia.
Artista revigorado, público rendido, tarde ganha e história feita. A liberdade é muito isto.
De um cantautor para outro, fez-se a piscina para o palco Coura Sem Paredes, onde daí a momentos começaria um dos mais aguardados concertos da edição, o de Ryan Davis & The Roadside Band. O norte-americano confirmou tudo o que já se suspeitava dele, conquistando um texto próprio.

Benjamin Clementine – palco Vodafone
Benjamin Clementine, britânico recordista em visitas aos palcos nacionais (recorde-se esta e esta), dispensa apresentações Já o dissemos e repetimos: não é fácil classificar Benjamin Clementine enquanto artista; reduzi-lo a músico é injusto e chamar-lhe “artista multifacetado” soa a equiparação a um carro cheio de extras. Assim, fiquemo-nos simplesmente por “artista”, que estamos diante de alguém que cria em estúdio e interpreta em palco e no cinema.
Para além da música, na qual Clementine dá sempre o litro, há capítulos das suas passagens por cá que justificam o seu “visto gold”. Há quase uma década, Clementine passou por Coura e, não só ainda hoje recorda esse concerto como pelos vistos alguém tratou de o tornar numa recordação permanente, que entretanto nasceu uma criança que foi baptizada com o seu nome e que estava ali mesmo nas grades.
No demais, continua tudo no sítio. Num alinhamento de êxitos como Phantom of Aleppoville ou London (o seu vozeirão na plenitude), não faltaram os coros monumentais colina acima, como já é costume nos seus concertos, como em I Won’t Complain (“I dream, I smile, I walk, I cry” ouvido até na Galiza) e em Condolence. Se esta foi a aparente despedida de Clementine dos palcos para uma mudança definitiva de carreira para o cinema, então ficou um grande arquivo para contar por gerações.
Daí a algumas dezenas de minutos, seria a vez da estreia nacional (e internacional, naquela que é a sua primeira digressão fora do Brasil) dos brasileiros terraplana no palco Coura Sem Paredes. Temos o prazer de anunciar que o concerto é merecedor de crónica à parte, pelo que para a mesma se remete.
Com a noite sensivelmente a meio, um buraco enorme no horário, coincidente com os concertos dos Bloc Party e de M.I.A., ambos no palco Vodafone, pela falta de relevância de ambos.
Há precisamente vinte anos, quando os ingleses Bloc Party estavam no seu auge, mercê de um fabuloso disco de estreia chamado Silent Alarm (2005), só conseguimos apanhar aquele que foi um grande concerto em Coura através da televisão. Entretanto, passaram vinte anos, a banda ainda lançou mais um álbum decente, A Weekend in the City, e até chegámos a vê-los recentemente, mas sem malta como Simon Tong a coisa já não é o que era.
O nosso parecer sobre Bloc Party em 2026 é este: com todo o respeito, a banda está gasta e não tem nada de relevante para dizer. Suscitam algum entusiasmo porque, lá está, Kele Okereke tem carisma e porque o material de Silent Alarm é imortal mas, ao contrário de um gigante como Sérgio Godinho ou dos nomes menos mediáticos do cartaz deste dia, como Carolina Durante, Ryan Davis & The Roadhouse Band e terraplana, a presença dos Bloc Party não acrescentou grande coisa.
Contudo, se os ingleses são uma sombra do que foram (tal como os The Horrors no primeiro dia, que ali deixaram bom registo em 2009), o que dizer de Mathangi “Maya” Arulpragasam, mais conhecida como M.I.A., nome seguinte no palco principal. Tal como aqueles, tem ou, melhor dizendo, tinha um historial muito positivo em Coura, após um concerto em 2007 que a confirmou como artista de vanguarda daquele tempo (e do belíssimo concerto dela que vimos no Sudoeste em 2010).
Problema: não só estagnou artisticamente como passou de activista em prol dos direitos e dignidade do seu povo Tamil (incluindo após 2009) para virulenta debitadora de imbecilidades anti-vacinas e anti-5G, com uma pseudo-evangelização pelo meio. Sim, tornou-se numa chalupa; pior do que isso, numa chalupa que monetizou a ignorância numa linha de roupa que diz “bloquear” tudo o que seja radiação.
Quem nunca ouviu falar da personagem diria logo que é um sketch cómico. Quem ouviu e tem zero paciência para o proselitismo político de artistas (sobretudo se estes não tiverem assunto artístico nenhum) já prepara o revirar de olhos, quando não as invectivas.
O público de Coura, num assomo de humor, não se fez rogado e, farmando muita aura, deu novo uso ao papel de alumínio lá de casa, avistando-se muitos chapéus de alumínio, cujo efeito foi o de bloquear a histeria de uma artista que, nos dias que correm, provoca mais vergonha alheia do que aplausos. Bem assim, antes do concerto figuravam lá, atrás na projecção, os dizeres “A PRÓXIMA ARTISTA É CONSIDERADA EXTREMAMENTE OFENSIVA! VEJA POR SUA CONTA E RISCO!”, como se fosse um aviso prévio a um vídeo de propaganda anti-vacinas dos tempos da pandemia de COVID-19 ou do pânico moral do tempo da PMRC no anos oitenta. Esperamos que tenha visto o concerto dos Carolina Durante, que mostram como se pode ser mordaz sem se ser uma nulidade.
Do que vimos e tirando umas corridas de M.I.A. com uma tocha pelo palco, o concerto pouco valeu, para mais com um chumbo a Geografia pelo meio, que estamos em Paredes de Coura e não no Porto. Não, a História não a absolverá (se nem o autor daquela frase absolveu, quanto mais) e muito menos um relato positivo da amorfa pantomina de totós (a dança não chegou sequer à categoria de má imitação de algo do mestre Merce Cunningham) que foi a “actuação” o fará.
Para quem, como é o nosso caso, percebe as complexidades de conceber e executar uma empreitada como esta, nomeadamente na dificuldade de contratar artistas à conta de datas (de tal maneira, que o festival no próximo ano decorrerá uma semana mais tarde, de modo a alinhar com congéneres europeus) e de tentar que o que se traz rentabilize a coisa, as contratações de Bloc Party e M.I.A. (sobretudo os primeiros) fazem sentido. O problema é que o corolário fica muito abaixo das expectativas, dado que nenhuma das actuações fez história – no segundo caso, só se fez por maus motivos.

Maruja – palco Coura Sem Paredes
Os Maruja vivem, presentemente, num estado de excepcionalidade. Depois da falta marcada no próprio dia da actuação na edição do ano passado e em nome próprio ainda em 2025, andam a pagar, com juros, as dívidas que têm para com o público nacional, que há uns meses deram, em Lisboa, um dos concertos do ano. E chegam a Coura na senda de uma carreira que apesar de só contar com um LP, o excelente Pain to Power (2025), tem um acervo de seis EP da mesma estirpe e, sobretudo, toda uma reputação de serem uma banda a não perder ao vivo.
Também em Coura estavam reunidas as condições para uma jarda descomunal: uma plateia a abarrotar, uma banda cuja entrada em palco indica que a adrenalina está a explodir e, bom, um PA operacional. Assim sendo, nada como Bloodsport para abrir o pit, que mexe e remexe e abre quando a banda, à moda de Moisés ajudado por Deus, roga que se abra.
Sendo um concerto de Maruja um jogo de gestão da tensão, Break the Tension (ou a frustração de lidar com a tensão) e seus arpejos de saxofone retratam Do mar revolto do início passou-se para a tempestade sónica de uma das melhores canções do grupo (mas têm alguma que não seja no mínimo boa?) que é Thunder e seu refrão berrado por todos os envolvidos.
Nem tudo é violência sónica e trovoada, contudo. Saoirse continua um manifesto humanista e da melhor melodia que o grupo compõe, seja pela incrível instrumentação ou pela voz de Harry Wilkinson, que aqui demonstra o seu espectro vocal.
Numa banda cujos concertos se vêm estabelecendo como ritualísticos, são vários os apelos solenes em jeito de mini-interlúdio: à paz, à saúde mental e ao abraço ao próximo, numa liturgia com saxofones e um baixo bem gordo. A devida continuidade foi dada, já a fechar, com Look Down On Us, vincada canção de protesto contra a impotência de se ver a vida dirigida por meia-dúzia de tipos cuja falta de noção e de humanidade é proporcional à sua ganância e sede de poder. O punho erguido ainda faz muita falta.
Concertaço terminado e dívida saldada. Os nossos aplausos são, nos termos do artigo 787.º/1 do Código Civil, a nossa quitação.
Como trunfo para o after, Joy Orbison (nome artístico do produtor inglês Peter O’Grady) dava início à pedalada, mantendo-se a multidão no pulsar do palco Coura Sem Paredes. O último dia de Coura estava à espreita.