Chegados ao último dia desta edição do Vodafone Paredes de Coura, a tradicional depressão pós-festival começa lentamente a instalar-se. Tempo de últimos finos, últimos petiscos, últimas conversas, de primeiras arrumações de tralhas no carro e de primeiras retrospectivas.

Numa jornada em teoria mais calma do que as duas anteriores, na prática o caldo servido teve por ingredientes folk da mais crua, um resplandecente veludo sonoro, uma fanfarra infernal, virtuosismo suave, porrada psicológica, punk com mullets e um fim de feira industrial. Calmaria? Não nos parece.

Hudson Freeman – palco Coura Sem Paredes

No palco principal, Patrick Watson acabava uma actuação a solo triunfal ao piano que pode ser descrita como de uma simplicidade brutal. Por seu turno e não lhe querendo ficar atrás em simplicidade, Hudson Freeman (sem relação com Greg Freeman) trouxe uma guitarra clássica e mais um amigo também (Sean Saville, na guitarra eléctrica e no acompanhamento de voz) e, com a maior naturalidade, foi desfilando a sua folk de crueza inolvidável.

Autor prolífico, logo para começar (e para trocar voltas) tratou de mostrar uma canção nova, Fell Ass Backwards. O entrelaçar de guitarras de Freeman com Saville não precisou nem de mais volume, nem de pedais, é avassalador por si e é o principal factor para que a intensidade do concerto se mantenha elevada.

Depois de uma novíssima canção, outra já com uns anos: uma admirável versão de Wild Horses dos Rolling Stones. E porquê? Por isto: i) por não precisar de bateria como na versão de estúdio (já de si boa) para brilhar; ii) porque em toda a sua simplicidade chegou para arrebatar a plateia; iii) porque é melhor do que tudo aquilo que os Stones gravaram nos últimos quarenta e cinco anos – desde Tattoo You, portanto.

Se bem que o gostaríamos de ter visto em formato banda, o material de Freeman tem a distinta força de não perder qualidade com a ausência de outros instrumentos. O único elemento que não varia é a sua voz, trémula como quem toma as dores do fundo emocional das suas canções.

Com Texas in Flaming Tongues, outra canção nova (com parte da progressão de acordes a fazer lembrar Rose Gives A Lilly dos saudosos Yuck), e sobretudo If You Know Me continuaram Freeman e Saville (houvesse um prémio para melhor nuance instrumental do festival e este seria o premiado) a projectar um poderio sónico subtil, não precisando de mais nada para além de cordas vocais e de guitarra.

Por vezes não é preciso volume, só mesmo alma.

Cate Le Bon – palco Vodafone

[Nota: por limitações impostas pela artista não foi possível fotografar o concerto]

Na antevisão desta edição, dissemos de Cate Le Bon o seguinte: “sempre camaleónica e quase sempre interessante, Cate Le Bon vem a Coura num momento fulgurante da carreira, no seguimento do lançamento de Michelangelo Dying, disco essencial do ano transacto”. Não foi preciso sequer estar vivalma em palco para o concerto se tornar interessante, que no PA passava a versão de Jim O’ Rourke (da original de Ivor Cutler) de Women of the World.

Enquanto a banda entra e vai abrindo Jerome como quem abre um vinho que precisa de respirar, Cate Le Bon apresenta-se teatralmente, de leque, calças de montar e botas altas, de voz sublime e, temos o prazer de anunciar, com a elegância dos arranjos de guitarra e sintetizador do material de Michelangelo Dying a manter-se incólume no anfiteatro natural de Coura.

O aludido veludo da sua voz mantém-se, num proveitoso regresso a um disco de topo da sua carreira que é Reward (2019) e ao lamento da perda superiormente relatado em Daylight Matters. Numa edição de Coura que (ou)viu a sua quota-parte de extensões de versões de estúdio ou de simplificações, Le Bon envereda pela interpretação fiel ao originais, contando com uma banda extremamente capaz, na qual constam Euan Hinshelwood na guitarra e no saxofone, Stephen Black na guitarra e Toko Yasuda no baixo.

Num salto cronológico para o disco seguinte, Pompeii (2022), não é possível ficar indiferente à elegância de Moderation. Le Bon emula o melhor dos Roxy Music e dos Talking Heads (agigantaria ainda mais ambas se para lá fosse) e, regressando a Michelangelo Dying através de Mothers of Riches, saca da melhor marialvice (mão à cintura incluída) e a um crescendo psicadélico para alcançar um dos apogeus do concerto – sim, plural.

Não obstante serem oriundas de discos e fases diferentes da carreira de Cate Le Bon, Heaven Is No Feeling e Home to You e seus arranjos impecavelmente à Ryuchi Sakamoto/Yellow Magic Orchestra ou à Godley & Creme soaram a canções gémeas. Cronologicamente, ritmicamente e melodicamente estão longe uma da outra mas, no seu brilhantismo (em particular no da interpretação instrumental), mais pareceram um díptico sonoro e constituíram os outros dois momentos (muito) altos da actuação.

Cate Le Bon e respectiva banda cumpriram com toda a distinção e conquistaram um lugar nos campeões da edição. Quem disse que no Verão não se usa veludo estava redondamente enganado.

À exuberância de Cate Le Bon seguiram-se, também no palco principal, os alemães Meute, uma fanfarra com batidonas que já durante a tarde tinha dado um ar da sua (pesada) graça no rio.

À hora estipulada formava no palco e preparava-se para suar e fazer suar a plateia. São o género de proposta que até pode não despertar o interesse (por vezes desperta é a ira) dos puristas de Coura mas, avaliando pela multidão, muito boa gente não se importou de se mexer ao som de algo que, durante cerca de uma hora, mais parecia uma banda sonora do intervalo de um jogo de futebol dos nossos dias (e que melhor ficaria num after).

Para além da aprovação popular, ficaram também aprovados em Geografia (não tanto a Português), dirigindo-se energicamente, entre quebras e retomas, a “Párrrêdes de Côrrra”. Apesar de a sua coordenação teutónica não nos ter caído propriamente no goto, preencheram com competência a quota de “projecto dançável bastante popular” outrora preenchida por L’Impératrice, Jungle ou Parcels.

Das batidas partiu-se para o baixo de Thundercat (no passaporte, Stephen Lee Bruner), cuja obra e colaborações mesclam tantos géneros quantas cordas tem o seu baixo (seis), que por sua vez tem mais cordas do que músicos tem o norte-americano a acompanhá-lo (dois e nem precisa de mais). Virtuoso até dizer chega, nem sempre o seu material é acessível para quem procura algo dançável mas nem por isso deixa de exprimir o que lhe vai no âmago, num registo incidindo mais sobre o R&B do que os demais elementos da sua paleta sónica.

Destaques? Em jeito de confissão e de palavra amiga, profere que “está na hora de tocar uma canção sobre ser neurodivergente” e pega em A.D.D. Through the Roof, numa voz que acalmaria até quem precisasse de pelo menos três exorcismos seguidos e com uma execução instrumental que é uma massagem ao cérebro.

A penúltima piscina desta noite e da edição rumo ao palco secundário levar-nos-ia ao concerto dos norte-americanos Prostitute. Pelo que se testemunhou, são merecedores de umas linhas à parte.

No fecho do palco principal, o outro extremo sonoro, por obséquio de Amyl and the Sniffers ou, melhor dizendo, a banda de punks-piratas do mullet e dos riffalhaços. Banda que também tem visto gold por cá (de entre várias, recorde-se a sua ida a Algés há um ano), continua com tudo no sítio, para além dos riffs: solos dilacerantes, línguas de fora, berreiro, sotaque australiano cerrado, mullets e todo um conjunto que é uma evocação dos AC/DC do tempo de Bon Scott (RIP), dos Saints (RIP Chris Bailey) e dos Rose Tattoo.

Desde aturar porteiros chatos (Security) até à visão da banda sobre o que é uma canção de amor (Balaclava Lover Boogie), passando pelo problema existencial de Chewing Gum, a máquina de de Amy Taylor e companhia continua na mesma, mais pirete, menos pirete.

Conforme deixam claro desde o primeiro disco e dada a maneira como acabaram o concerto, o açaime não é mesmo para certos cães.

Após o encerramento do festival no que diz respeito ao palco principal, o habitual ritual de passar em revista estes quatro dias através de um vídeo e de All My Friends dos LCD Soundsystem (quando é que cá voltam?). Porém, este ano os nova-iorquinos cederam parte do protagonismo a uma espécie de medley no qual figuraram Sérgio Godinho, Underworld e Vincent Belorgey, mais conhecido como Kavinsky e recentemente falecido, que por ali passou na edição de 2012.

Dame Area – palco Coura Sem Paredes

Numa contagem decrescente para o fim do festival que teve uma intensidade crescente, o pináculo desta não foi com as guitarras de Amyl and the Sniffers, mas sim com os seus antípodas sónicos (e de tamanho de palco), o duo de Barcelona Dame Area. Composto por Silvia Konstance e Viktor Lux Crux, que se revezam na percussão e na maquinaria, provocou uma onda de movimento que ajudou a amaciar a pedra do chão do palco secundário.

Seja com a batida vigorosa e hipnótica (que muito nos lembra HEALTH) de Tú Me Hiciste Creer ou com as distopias à Cabaret Voltaire de Ister inan, ister inanma, a panóplia sónica da dupla ítalo-catalã é uma morteirada criativa contra o aborrecimento e um convit-, uma ordem ao abanar de ossos. Konstance larga a percussão e torna-se numa domadora de corpos dançantes e, diga-se com toda a propriedade e justiça, é infinitamente superior nesse cargo do que M.I.A. na noite anterior, tal como Lux Crux o é na produção de composições que são um funil de ideias sobre o ritmo na música electrónica e sobre a revitalização de géneros como a música de dança industrial ou a EBM – casos de Devoción La Danza Del Ferro.

Nem o mais elementar synth-pop escapa à fúria de Konstance. Num paulatino culminar em Nueva Era torna-se profeta (nem que seja por uns minutos) e repete, qual mantra, que “ahora es el momento, no hay futuro”. Destes dias e noites fantásticos e estranhos de Coura é que já não haveria muito para dizer, pelo que o já tradicional fecho de concerto, Dias Extraños, anunciou que, pelo menos para nós, esta edição estava musicalmente (muito bem) encerrada.

Dame Area

E pronto, findo o concerto de Dame Area, para a Brigada da Madrugada havia algumas opções: continuar no palco secundário para cerca de duas horas e tal de um DJ set de Marie Davidson ou ir comer e beber. Escolhemos a segunda e fomos dar continuidade à mais recente e recomendável tradição de terminar a edição com um mashup de papas de sarrabulho com molho de bifana, a chamada sarrafana (®), devidamente acompanhados de amigos e companheiros de imprensa (ambos confundem-se) para começar a passar em revista esta campanha courense, fazer a retrospectiva dos anos que já levamos de Coura e começar a pensar a próxima edição.

Mais um ano, mais uma edição e mais um saco cheio de bons concertos e de recordações.

Até para o ano, Paredes de Coura.

Galeria
Fotos por Elena Aldana
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