Reportagem


Samuel Úria

O melhor concerto do NOS Primavera Sound até aquele momento

NOS Primavera Sound

08/06/2017


O NOS Primavera Sound começa em drop C.  Depois de umas curtas palmas, ouve-se “eu tinha a corda na garganta afinada em dó”. O público ainda ia chegando enquanto Samuel Úria – Uría para os pais dos presentes – atacava “Dou-me Corda”.

“Amigos primaveris”, dirigia-se ao público pela primeira com boa disposição na voz e urgência no discurso. A alternância entre palcos assim o obriga. Ainda assim não faltaram piadas. Algumas como “Qual foi o melhor concerto até agora?” para toda a gente, mas nomear o Paulo André Cecílio e o Wandson Lisboa serviu para divertir apenas aqueles gatos pingados que se contabilizam na casa das dezenas. Como uma amiga, e uma ex-colega, resumiu: “Foi um concerto para a Internet.”

Ao quarto tema, já depois de perguntar se estava “tudo bem, até agora” pela segunda vez, ouve-se “Não Arrastes o Meu Caixão”, tema que serviu para muitos, no longínquo ano de 2010, com introdução à discografia do músico. E não é curioso que estejamos a falar, outra vez, numa “Nova Vaga da Música Portuguesa ®” e que o Samuel Úria faça parte das duas? Se por acaso estiveram a pensar no que é feito dos Pontos Negros, saibam que Silas – que agora toca castanholas – e Jónatas Pires militam na banda que acompanha Úria.

Depois da promessa não cumprida de se ouvir a música mais nortenha do set, eis que chega – agora sim – Lenço Enxuto, dedicada ao pessoal de Tondela. Todos os três que lá estavam. É um bom momento do concerto, à música mais confessional, e de tom frágil, nem os problemas tiram o encanto.

“Nós temos que despachar isto” avisa, e anuncia a cover de Molly’s Lips, original dos The Vaselines, popularizada pelos Nirvana, que se metamorfoseia em “Beijar os Lábios da Amália”. É uma música cheia de genica, já o sabemos, mas em português tem outra graça. Para piada extra, substitua-se a diva do fado pela antiga lontra mascote do Oceanário de Lisboa.

“É Preciso Que Eu Diminua” suscita o convite, “quem tem ancas abana-as agora” e o NOS Primavera Sound transforma-se pela primeira vez numa tímida pista de dança. Ainda há muita luz.

No entanto, o sentido de urgência que permeia este primeiro concerto não concorda com a luminosidade e “Teimoso” anuncia o princípio do fim do melhor concerto do NOS Primavera Sound até ao momento. Piada que se manteria verdade indisputada, pelo menos até Run The Jewels.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Jorge De Almeida

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