Ryan Davis é um homem da renascença daquilo a que se tem chamado alt-country ou country alternativa. Antigo vocalista e guitarrista de uma banda e tanto chamada State Champion (e de outra chamada Tropical Trash), co-fundador de um festival chamado Cropped Out e fundador de uma editora denominada Sophomore Lounge, não há ofício musical que lhe escape. Entretanto, formou os Ryan Davis & the Roadhouse Band (de certa maneira um supergrupo por contar com membros de Styrofoam Winos) e visita Coura com a aura de ter editado um dos melhores álbuns de 2025, New Threats from the Soul.

Pontapé de saída com Simple Joy, retirada do seu mais recente álbum. Quando os primeiros versos que saem PA fora são “I can barely tell the cattle roads from the chemtrails of our past lives” sabemos que está ali gente vivida e, também, que estamos perante várias reflexões existenciais contrapostas: se se é mais feliz na ignorância ou que a infelicidade vem daquela; a primeira é de Thomas Gray, a segunda de Dostoyevsky e agora é a vez de Ryan Davis se debruçar sobre a questão.

À polarização a que se assiste nos Estados Unidos da América contrapõe-se a divisão íntima, da vida e da alma, retratada por Davis. As suas canções são para degustar longamente, à semelhança de uma boa refeição (no caso do concerto, também com boa companhia). As letras e os arranjos requerem atenção e algum trabalho de casa, não por elitismo, mas porque ricamente ilustradas. É um contador de histórias, como Porter Wagoner, Waylon Jennings e, sobretudo, Tom T. Hall ou, já numa costela de rock independente, Craig Finn e David Berman (RIP).

À volta de um carro (um Chevrolet Monte Carlo, carro de macho), nascem contos de amores sem limites (Monte Carlo / No Limits), nos sentimentos e nas despesas e nos acidentes, ainda que, numa quebra magnífica, o Monte Carlo acidentado poderá muito bem ser o coração do narrador. Sem termos tempo de absorver toda esta carga emocional, serve-nos Flashes of Orange, mais um conto existencial, saído de Dancing on the Edge (2023), disco de estreia de Davis.

Aqui, o contador de histórias torna-se no trovador de Louisville (agora com quartel-general em Jeffersonville, no Indiana) e serve-nos, com o fundo de pedal steel guitar de Trevor Nikrant e o acompanhamento na voz e baixo de Lou Turner, uma contraposição da condição humana como Hannah Arendt a viu. Num exercício de vita contemplativa sob o jugo da depressão (“there’s a blackened space between the back of my head and the back of my face”), narra uma vita activa de amores falhados, bullies mortos que limpam corredores da escola e pássaros que soam a jungle, concluindo com uma esperança profunda de que as coisas – na mente e no coração – irão um dia melhorar.

É gente como Ryan Davis e sua banda que representam uma parte significativa do que passa por rock alternativo com interesse nestes dias que correm. Para além de Kurt Vile nesta (e noutras) edições e, enquanto um dos campeões da edição passada, MJ “Mário Jorge” Lenderman, a rockalhada com country no ADN já faz parte de uma das melhores fases do historial de Coura. Se o que se ouve das letras não tivesse já um piadão, Davis ainda se interroga, entre canções, sobre se M.I.A. tem de afinar instrumentos antes de cada canção e confessa-nos a sua persistência ao afirmar que o concerto podia ser melhor se a American Airlines não lhe tivesse perdido a mala com os pedais (AMERICAN AIRLINES: DEVOLVAM A MALA, PARA ONTEM).

E não é apenas Ryan o centro das erupção, que também Dan Davis (sem relação), homem das teclas e da percussão, é um gajo que sente o que está a fazer; abana a cabeça como se concentrasse em si todos os sonhos alt-country do mundo e é um espectáculo dentro do espectáculo.

Para terminar, a actual magnum opus (porque outras muito provavelmente virão) deste supergrupo com um líder da trova, New Threats From The Soul. Dez minutos de uma malhona numa voz que parece uma reencarnação da de George Jones, na qual tudo cabe: piscares de olhos aos A Tribe Called Quest (RIP Phife Dawg) em versos sobre carteiras esquecidas em El Segundo, ser o novo xerife num Oeste Selvagem do coração, procurar Cristo em certos sítios e passar de ser candidato a campeão universitário para ser uma vítima da solidão (ah, a montanha-russa do amor). Fluidez na execução que resulta num bombardeio de palavras e acordes de que somos ávidos destinatários.

Ao contrário de um matrimónio de certa canção de Porter Wagoner e de para aí um terço do cancioneiro do género, Country e Coura fazem um feliz casamento. A região que foi um dos cantos do berço das trovas galaico-portuguesas recebeu a visita de um trovador cujas cantigas, tal como as dos antigos, são de amigo, de amor e de maldizer.

A única ameaça para a alma aqui é a de ausência de mais canções como as que Ryan Davis nos tem oferecido.

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Fotos por Elena Aldana
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