Muitos dos maiorais que nos precederam no tempo propuseram, nas suas reflexões, a dor – física e espiritual – como elemento fundamental para a evolução pessoal; da aceitação da dor no estoicismo de Marco Aurélio até à dor como desafio a ser superado no entender de Nietzsche, dominar a dor leva a algum tipo de poder. Quando falamos de um concerto dos Maruja, quarteto de Manchester, a dor seria perdê-lo e o poder seria todo o som saído do PA do Lisboa Ao Vivo.

Após dois adiamentos (Coura e este mesmo concerto) em 2025, a banda inglesa está finalmente de volta. Composta por Harry Wilkinson (voz, guitarra eléctrica), Joe Carroll (saxofone e voz), Matt Buonaccorsi (baixo) e Jacob Hayes (bateria), falamos de um grupo com um acervo já apreciável: andam nisto há coisa de doze anos, contam com seis EPs e finalmente deram ao éter um longa-duração, Pain to Power (Music for Nations), editado no ano passado, aqui à mercê de ser apresentado. Um repertório de monta, pronto para ser mostrado in loco em todo o seu poderio. Spoiler: é um dos concertos do ano.

A abertura da noite ficou a cargo dos portugueses Bad Tomato. A banda de Lisboa, composta por Manuel Casanova, Miguel Albino e Jantonio Silva, não tardou em começar a aquecer os motores. Com vários piscares de olhos sónicos, que iam desde Madchester ao math rock (óptima Can’t Complain), foram justificando os créditos que muito boa gente – por cá e lá fora – lhes tem dado desde No Fun, single de estreia que também aqui brilhou. Uma belíssima Bodybag que extravasou a versão de estúdio fechou com toda a propriedade pouco mais de meia hora de frutífero calor.

Se a tomatada que vem no prato é uma das melhores entradas da gastronomia portuguesa, a tomatada sónica dos Bad Tomato foi um começo de noite da mesma laia, que o apetite era pantagruélico.

Bad Tomato atuam no LAV - Lisboa ao Vivo

toasting de Killa P no PA servia de contagem decrescente para o que aí viria. Como antes de um concerto de qualquer bandão, a expectativa gerada pelos Maruja (mesmo para os repetentes) dava para cortar o ar à faca; o calor que se fazia sentir lá fora seria coisa de meninos comparado com o rebentamento de termómetros pelo qual esperávamos.

Em cumprimento quase estrito da pontualidade britânica, pelas dez da noite embarcávamos todos no navio dos Maruja, com mar bravo pela frente. E porque o sangue dos ingleses ferve a bom ferver, nada como Bloodsport para levar a coisa quase ao pé da letra, que nem meio segundo passou até os amontoados de carbono em forma de pessoas começarem a levantar um pit, impelidas pelo duelo a três à moda de Sergio Leone do saxofone-bateria-baixo e pela avalanche de versos de faca nos dentes que Harry Wilkinson atira furiosamente.

Se há canção que espelha o título do longa duração da banda , essa composição é Trenches. Wilkinson desvela uma sucessão de versos proféticos contra umas elites que vão servindo inimigos comuns aos de baixo de modo a que nunca sejam alvo da ira destes; não sendo propriamente uma ideia original, é a combinação instrumental que faz da canção uma senhora malha. Retenha-se, contudo: o dia em que os demais acordarem, então a sua dor alimentará o seu poder e encontrar-nos-emos todos nas trincheiras.

Não havendo trincheiras propriamente ditas, havia um pit que não desarmava e ao qual Wilkinson deu literalmente um salto; note-se que quem mais ordena, isto é, quem faz o pit centrifugar, é o saxofone e não apenas os tempos ditados pela bateria. O fogo já alastrava e queimaria pelo menos dois clichés da música popular, qual deles o mais gasto: os da catarse e da comunhão. Uma banda cujos membros vêm até nós e cujos acordes fazem levitar a alma não é de plástico e leva a mensagem a sério, mesmo que se discorde da forma e até do conteúdo.

Como já se disse, a actuação dos Maruja constitui já um dos grandes concertos do ano. Sendo difícil destacar um só momento, faça-se um destaque salomónico: o díptico de Thunder Born to Die, que é uma montra da evolução da banda. A primeira, retirada de Knocknarea (EP de 2023) é, quiçá, a melhor canção da banda: uma tormenta da Biscaia em forma de manilha de jazz, psicadelismo, punk, post e math rock que ora se abate sobre os marujos da plateia como um vagalhão, ora embala numa terna quebra. Por sua vez, a segunda (de Pain to Power) arde lentamente, como uma vela de jazz de fusão com prog rock (tanto faz se King Crimson de oitentas, se At The Drive-In ou The Mars Volta), numa dúzia de minutos em que os últimos quatro ou cinco revelam que o pavio da dita vela é, na verdade, um rastilho para uma tonelada de dinamite.

Dito isto, desculpa lá, Benito Antonio, que também gostaríamos muito de ter estado no teu concerto, mas o que tens aí em volume e espectáculo na Segunda Circular temos nós em alma e coração aqui na zona Oriental. Fugazi com saxofones? Talvez, mas, sobretudo, quando a coisa começa a ter grande peso, temos uns Zu ilhéus, de coração generoso. Como os próprios a dada altura dizem, não são banais nem mundanos – e a jurisprudência da sala concorda.

Maruja no palco do LAV - Lisboa ao Vivo

Perante o calor humano, a banda desfaz-se em agradecimentos ao público nacional (“a vossa presença honra-nos, é um privilégio estar aqui!”), mas não só. No dia em que nos despedimos do mestre Sonny Rollins, os braços ao céu de Wilkinson e Carroll (este também por ser saxofonista, provavelmente) no início, meio e fim de várias canções mais parecem agradecimentos às divindades pelo seu talento, como a metafísica de John Coltrane em A Love Supreme.

De facto, quando se está diante de uma canção-confissão como Saiorse (lê-se “Súrcha”, já agora), não há como não se estar agradecido por se estar aqui mesmo. Todas as emoções à flor da pele (o público entoando a letra com muita alma), enquanto somos levados pela melodia do saxofone de Wilkinson e pela proclamação de que a diferença é beleza, numa versão que expande a magnificência de estúdio. Vai daí para uma gigantesca The Invisible Man, monumental retrato sobre os constantes reveses, a falta de esperança e o isolamento de quem vive com falta de saúde mental.

Ao minuto de silêncio no desporto que antecede as partidas corresponde o minuto de silêncio e punho no ar pela união e pela solidariedade promovido pelos Maruja. De caminho, tinham já pedido aos presentes, antes de The Invisible Man, que dessem um abraço à pessoa ao seu lado, numa quase liturgia que se assume ser parte da sua missão enquanto banda – se a música é agressiva, de mão sonora pesada, a atitude é de mão amiga, na maior das honestidades.

Nestes tempos em que se anuncia que a valorização de activos de Elon Musk fará o primeiro trilionário da História, nada como Look Down On Us para nos relembrar que tudo aquilo não passa de um episódio de vida numa bolha de prepotência e sociopatia e de um gozo na cara de milhões e milhões mundo fora que vêem a inflação e o Estado comer-lhes os rendimentos. Uma invectiva épica de indignação com a força de um tufão do Pacífico, dedicada a todos aqueles cuja comunidade foi destruída pela ganância mais rapace (por vezes chamam outsourcing e “liberdade de circulação de capitais” à concretização dessa ganância) e que têm agora por companheiras a medicação para a cabeça e/ou a miséria. Depois admiram-se que as pessoas se fartem dos estados de coisas.

Se, como é consabido, há imagens que valem por mil palavras, há também canções que não precisam nem de meio verso para valerem por mil fotografias, para mais que servem de fecho de concerto. Foi esse o caso de Resisting Resistance, aqui edificada como momento apoteótico (sem precisar de grandes megalomanias) de muitos posts – post-rock, post-punk e, se se quiser, do post-jazz – e como encerramento solene (e suado) de uma actuação magnífica.

Enquanto rodava no PA o clássico de Junior Murvin, Police and Thieves, começava o mar dos Maruja a tornar-se mar chão depois da bruta tempestade comunitária que levou à devoção de quem a viveu. A banda sabe que tudo isto é de coração e que o público nacional quando gosta, gosta mesmo. Uns quantos problemas de som no microfone do saxofone? Nada beliscam. Algumas malhonas da banda de fora do alinhamento? Aquilo com que fomos brindados chegou e sobrou para perfazer uma grande noite. Uma mensagem a raiar por vezes um ingénuo mundo cor-de-rosa? É a deles, felizmente que somos livres para concordar ou discordar, de preferência unidos pela música.

Se um certo jurista alemão de há cem anos chamado Carl Schmitt falava em estado de excepção (e abria caminho para a atrocidade), o estado dos Maruja é o estado de excepcionalidade. 

E da excepcionalidade parte-se para a liberdade e, depois, para a felicidade.

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Fotos por Hugo Rodrigues
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