Por vezes, o caminho mais próximo da loucura do que da disciplina sacramental é aquele que deixa os crentes mais próximos do divino, conforme estabeleceu, mais coisa, menos coisa, Erasmo de Roterdão há coisa de uns séculos. Por loucura entenda-se aqui uma experimentação artística de tal maneira contundente e transgressiva que abala preconceitos e estruturas criativas e cujo corolário é algo que nos transcende. Os Sunn O))), que ora regressam a Lisboa após dezasseis anos de ausência (e novamente com a chancela da Galeria Zé dos Bois), personificam essa mesma travessia de fronteiras através de caminhos nada ortodoxos.
Dupla (na maior parte das vezes) oriunda de Seattle e composta por Greg Anderson e Stephen O’Malley (ou SOMA), foram já companheiros de banda em Teeth of Lions Rule the Divine e em Thorr’s Hammer, cumprindo a boa tradição dos maiores de evolução conjunta; seja em Serralves (como na véspera) ou numa sala típica do underground, os seus cruzamentos artísticos são para quem tem um ouvido curioso (e bravo). Através da Southern Lord, editora fundada por Anderson em 1998, vêm dando voz ao próprio histórico criativo e ao dos pares de variada proveniência – sejam eles históricos ou novatos.
Da nossa parte, esta é a segunda vez que vimos a dupla de Seattle, tendo, ainda, estado presentes num concerto a solo de O’Malley num Amplifest (e perdido o duo noutra edição do festival). A primeira, em 2010 e também numa organização da ZDB fora de portas, foi um dos grandes concertos desta vida, aí contando com Attila Csihar naquilo a que se pode chamar mantras do negrume e Steve Moore numa multitude de instrumentos (a começar pelo trombone). Entre a epifania e a consolidação de ideias sobre o que é isto de juntar sons para, no fundo, comunicar com os outros, nesta relação mente-ouvidos muita coisa não voltou a ser como dantes: graças (também) aos Sunn O))) até um ventilador de garagem a arrancar subitamente às onze da noite no fim de um dia de trabalho e aulas passou a soar a algo interessante.
Por falar em divindades e estando-se já nas redondezas da sala, de uma igreja pentecostal da vizinhança provinha música de ponte entre a Fé das pessoas e o divino. Como a Fé das pessoas por vezes se sobrepõe ao desconhecido, eis que uma senhora crente, de ligadura na cabeça, dá as boas tardes a todos os eventuais espectadores que aguardam entrada na República da Música e insta a que nos juntemos a Deus – resta saber a qual.
No palco, a habitual parede de amplificadores dá-nos as boas-vindas (?). Composta por material Sunn O))) (obviamente) e Ampeg e com uns quantos adereços, não deixa margem para dúvidas: são mesmo eles que estarão aqui in loco, não tarda nada. Preparemos os tampões, pois.
Por seu turno, no PA passa, na íntegra, Sorcerer de Miles Davis, disco que antecedeu em poucos anos mais uma revolução na sua carreira: de uma modalidade do bop para o jazz de fusão. Tal faz todo o sentido, visto que, tal como Davis, Anderson e O’Malley também têm passado a carreira a desafiar os limites do(s) seu(s) habitats sónicos, quando não a destrui-los.
Diga-se, em jeito de nota prévia, que um concerto de Sunn O))) é um encadeamento de rituais ou, se se preferir, uma sucessão de apogeus. As afinações e as luzes dos amplificadores sinalizam que a impiedosa audiência de julgamento sonoro vem aí. Nem uma das testemunhas está sentada e aguarda-se pela entrada dos magistradO)))s.
Após o apagar da luzes de sala, a previsão meteorológica para Alvalade seria de nevoeiro cerrado. Neste, teve o público a companhia de converseta de palco de Cronos, vocalista e baixista dos Venom (e tipo que veste cuecas de cabedal), outra banda que construiu os alicerces do som dos outros. De odes à Newcastle Brown Ale em 1986 para nevoeiro em Alvalade em 2026 é um pulo de quatro décadas, assente em inúmeras voltas criativas de cento e oitenta graus.
Quando finalmente irrompem pelo palco, O’Malley e Anderson mantêm a capa e o capelo de sempre como se fossem primos norte-americanos das açorianas de traje idêntico. Alçando as respectivas Les Paul e Travis Bean, deram início ao ritual da Santíssima Trindade dos drones, do ruído e da jarda, quais sacerdotes transmissores de uma Fé inabalável para quem esgotava a sala.
Do novíssimo álbum homónimo, que assinala a transferência para a Sub Pop, saiu Everett Moses. Para além de ser uma mostra do invejável assunto de uma banda que vai para três décadas de existência, é também uma excelsa introdução ao grupo: diante de nós estão as variações de acordes que se espraiem éter fora e que definem a monumentalidade do grupo. Até podem ter obras de Mark Rothko na capa, mas o snobismo de muito cata-vento da “cultura” não os consegue capturar, até porque muito provavelmente não os consegue compreender.
Tal como em 2010, tremem-nos os dentes, a caixa craniana, a caixa torácica e mais alguns ossos; é possível que, para além de voar e das demais actividades da sociedade de risco, o corpo humano não tenha sido feito para o assalto dos drones sonoros. Mas isso agora não interessa nada, que se sofre por prazer pela arte (dos outros, neste caso).
Reduzir os Sunn O))) a algo apenas e só excepcionalmente pesado (sobretudo se contiver “metal” na designação) é intelectualmente preguiçoso. Para o seu funil criativo entra gente verdadeiramente revolucionária como Alice Coltrane, Bernard Herrmann, Ellen Fullman, Glenn Branca, John Cage, Merzbow, Pauline Oliveros, Stravinsky, Rhys Chatham e, claro, Black Sabbath, Earth, Sleep e Saint Vitus. A partir desse input e da conjugação com a sua própria criatividade (sob o lema “Maximum Volume Yields Maximum Results”) saem colaborações com Daniel O’Sullivan, Dylan Carlson, Scott Walker (entre muitos outros) e variações por vezes subtis (sim, tal palavra existe no vocabulário da banda) no seu material. Tudo isto é muito mais do que mera trepidação.
Estamos perante o que se pode chamar de “anti-música”: não há aqui ritmo nem melodia, nem uma palavra que seja (já que Attila Csihar não tem feito parte da formação), só a meditação provocada pela crua simplicidade dos drones. O adamastor sónico de Sunn O))) é uma verdadeira antítese de 4’33” de John Cage.
Sem darem tréguas, Anderson e O’Malley prosseguem nos rituais, encostando guitarras aos amplificadores, indo buscar distorção aos pedais ou mostrando que até com cabos se pode dar novos mundos ao noise, como na maratona dentro da maratona que é Novae, de Life Metal (Southern Lord, 2019). Os gestos graciosos destes tribunos do noise, qual liturgia iommiana, contrastam com a vigorosa violência sónica que se lhes segue: por vezes a mão em forma de garra mais parece um agradecimento aos lá de cima pelo que vamos ouvir a seguir. Para os conhecedores, o ritualismo da dupla é já parte do cânone da música popular ocidental: a par da perna esquerda de Joe Strummer a acompanhar o ritmo, os passos de dança de James Brown, as vocalizações de Keith Jarrett ao piano ou o microfone ao alto na hipertrofia física e emocional de Henry Rollins, entre tantos outros.
Assim que se atravessa a repelência (ou a resistência natural do organismo a barulho agreste) do Rubicão (ou Cabo Bojador) do ruído, instalam-se a curiosidade e estímulo auditivos, saindo do PA um poderio divino que nos embala. Mais do que ouvir, o noise dos Sunn O))) sente-se; é um envolvimento sónico imersivo, uma experiência superior a qualquer spa pago a peso de ouro.
A meditação (que nem sequer é sobre os erros que se cometeu na vida!) provocada pelos drones (fechar os olhos em certos segmentos é obrigatório) é prazerosa. Estamos de mente e ouvidos abertos e muito, muito longe de qualquer convenção enfadonha da música popular: as estruturas rítmicas e melódicas não existem neste espaço sónico brutalmente zen à sua maneira e o único pseudo-haiku que nos passa pela cabeça é algo como “muitos preconceitos e poucos tampões nos ouvidos são morte certa pelo serão”. Dir-se-á mais: entre os decibéis do aeroporto ali ao lado e os que saem do PA seria uma competição renhida, que entre uma descolagem em full throttle na pista 02-20 e o monólito do noise venha o duro de ouvido e escolha.
No término de uma maratona de duas horas de dureza, uma data de punhos no ar, aplausos e gritos de agradecimento mútuos, inteiramente merecidos. Mais do que uma actuação (e a par de uma sequência de rituais), trata-se de uma vitória colectiva numa grande prova de resistência.
Num século desgraçado e destruidor de expectativas como este, os Sunn O))) (ainda que fundados em 1998) são uma das grandes realizações do período. Estar diante do desafio de perceber a sua arte e poder testemunhar um concerto seu constituem, sem qualquer fanatismo, um honra, um privilégio e uma sorte. Sem desprimor para as demais actuações mais exigentes do ponto de vista da compreensão do seu significado, um concerto destes era uma necessidade.
Com eles muito evoluíram o nosso ouvido e a percepção de determinada experimentação sonora, numa volta intelectual de 180 graus. Não é fácil voltar imediatamente ao mundo das pessoas ditas normais depois de um concerto destes, que a aterragem depois da loucura da levitação é brusca. Mesmo que tudo isto fosse um trollanço, seria um gozo e tanto. Maior do que a muralha sónica é o agradecimento de quem a presenciou.
Os caminhos nada ortodoxos dos rituais dos drones deixaram-nos mais perto de algo que nos transcende. Neste caso, do divinO))).