Reportagem


Super Bock Super Rock

Mochada na arena e paleio no pavilhão

Parque das Nações

15/07/2017


Ao terceiro e último dia do Super Bock Super Rock, de costas e pernas destroçadas pelo cansaço, guardámos o último fôlego para aquele concerto onde sabíamos que iria ser preciso dar tudo e ainda um pouco mais. E desta vez as expectativas não nos atraiçoaram, os Deftones deram o concerto mais demolidor que o festival viu. Os californianos mostraram que continuam em grande forma e conseguiram, dentro da curta janela de tempo que o festival lhes reservou, dar um concerto onde só nos ocorrem palavrões para o descrever. Dezasseis músicas ao todo – só de White Pony foram cinco e de Around the Fur outras três – dois dos trabalhos maiores da banda, que o tempo só tem feito envelhecer cada vez melhor. Muito moshpit e crowdsurfing à moda antiga, muita patada que as nódoas negras não escondem, muita gritaria daquela capaz de nos fazer rebentar a carótida. Quando é que os Deftones regressam outra vez? É a única coisa que queremos saber.

Ainda esmagados, mas completamente embevecidos pelo concerto de Deftones, estucámos o passo para ir ver Seu Jorge e o seu violão, no palco EDP. Aconteceu o que temíamos e pior ainda. Encontrámos um público que não leu no cartaz as pequenas letras que diziam: The Life Aquatic tributo a David Bowie. O resultado? Um mar de gente que quando percebeu que nesta noite não iria haver samba no pé, entabulou um paleio tal que, mesmo depois de furarmos até bem perto do palco, o ruído da “converseta” ainda nos impedia de ouvir com clareza as muitas e bonitas histórias que Seu Jorge tinha para nos contar, sobre Bowie e sobre as filmagens de Steve Zissou. Só nos apeteceu ir chamar Chino Moreno, que ainda deveria estar pelo recinto, para vir ali a palco afugentar toda esta gente com um dos seus berros.

A irritação que em nós crescia por tamanha desconsideração, pelo músico e pelo que aquele tributo representava, só foi colmatada por aquela inocência doce, por vezes até cómica, que a tradução literal para português com sotaque brasileiro confere às músicas de Bowie. Ficaram-nos também as histórias sumarentas de como o improviso levou Seu Jorge a fazer uma bossa nova de “Rebel Rebel” ou de como “Lady Stardust” foi adaptada com Cate Blanchett no pensamento. Emocionámos-nos quando nos contou como, três dias depois da morte do Bowie, esta lhe levou também o pai, dedicando aos dois “Life on Mars”, onde sabe que ambos agora estão.

Stone Dead no Super Bock Super Rock

Stone Dead

Onde não houve espaço para conversa nem tretas foi no concerto de Stone Dead. Os quatro rapazes de Alcobaça hastearam bem alto a bandeira rock do festival, que nos últimos anos tem vivido, aquilo que alguns consideram, uma crise de identidade. A descarga eléctrica foi tal que, dias depois, ainda sentimos espasmos pelo corpo.

Ainda no rock, mas num registo bem diferente, o psicadelismo stoner dos Black Bombaim também pareceu absorver muita gente, sobretudo com aquele saxofone nervoso. Apreciar a sonoridade transcendente dos rapazes de Barcelos é um verdadeiro exercício de atenção, no meio da agitação do Super Bock Super Rock. Como se de uma estranha instalação de arte se tratassem, entre as pessoas que iam passando ali pelo palco LG, houve quem não reagisse e seguisse caminho, assim como houve quem ficasse aprisionado.

Não queríamos, mas diz-nos o dever, que também temos de falar de Fatboy Slim. Na última vez que prestámos atenção ao britânico, pareceu-nos que até gostávamos do seu trabalho. Achámos sinceramente que, ali naquela noite, iríamos atravessar a MEO Arena com passos de dança cheios de estilo, capazes de deixar Christopher Walken orgulhoso de nós. E afinal o que vimos foi um set fastfood desprovido de qualquer imaginação (“The Eye of the Tiger” a sério?), com muitas luzes e lasers pelo meio a cegar-nos. No entanto, o povo que encheu a MEO Arena pareceu-nos divertido e a festa fez-se.

E não podemos encerrar este resumo diário sem mais uma vez tecermos os nossos melhores elogios a Bruno Pernadas, que por mais que nos esmeremos parece que nunca conseguimos traduzir em palavras o efeito que a sua música tem sobre nós. Sonhos tropicais, viagens para lá da estratosfera. A música de Pernadas seria daquela capaz de intrigar e deixar civilizações futuras maravilhadas, se alguma calamidade nos erradicasse neste momento e a sua música fosse a única prova da nossa existência.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Vera Brito

Partilha com os teus amigos