Os Prostitute, banda oriunda de Dearborn, no estado do Michigan, são um exemplo de como por vezes fazer tudo ao contrário acaba por ser a solução correcta. A cidade, antigo bastião da cintura industrial de Detroit, é um poço de tensões sociais, económicas e raciais; Moe Kazra, vocalista e teclista do grupo de ascendência libanesa, sofreu na pele a ignorância e ódio de outrem logo desde os tempos de puto na escola aquando dos atentados de 11 de Setembro. Por sua vez, os seus companheiros de banda também testemunharam cenas semelhantes e, porque é no Michigan que (também) nasceu o punk, através dos MC5 e dos Stooges, não admira a atitude da banda perante o mundo.
Para além de Kazra, o grupo conta ainda com os voluntários (chamemos-lhes assim) Andrew Kaster na bateria, Ross Babinski na guitarra, no baixo Dylan Zaranski e, como conselheiro nas sombras, um conterrâneo chamado Ali. Em jeito de conclusão da apresentação, diga-se apenas que só têm um álbum editado, Attempted Martyr (2024), que foi o suficiente para fazer alastrar um fogo de curiosidade e hype por quem tenha ouvidos funcionais.
Kazra e o resto da banda tomam posições no palco e não dirigem qualquer saudação ou palavra ao público; só podemos imaginar o choro de pseudo-puristas que acham que qualquer artista visitante tem de dizer que adorou pastéis de nata e o nosso país, deve ser essa a tal de “essência de Coura”. Dito isto, deixai toda a esperança, todos vós que entrais nesta plateia.
Uma inacreditável M. Dada é a montra da banda. Kazra, que nem um Alan Vega da era pós-verdade nas teclas (acaba a carregar o teclado como Atlas carrega o Mundo), retrata a neurose do excesso de informação que nos corre pelos ecrãs, para de seguida rir que nem o Joker e berrar sobre Mohammed Al-Bukhari (teólogo fundamental nas interpretações sunitas) e, enquanto isso, a banda manifesta o ADN sonoro da banda: o musicar (por assim dizer) de um mundo em confronto, do choque cultural entre o noise e o punk da música popular ocidental e a base rítmica dabke árabe e a melodia takamba africana.
Mais do que vocalista e teclista ocasional da banda, Kazra é a primeira linha do ataque da banda contra, bem, tudo e todos. Desde o início do concerto que nos fita com ar provocador e nada mais disse fora da gritaria das letras que não fosse “estamos aqui para dançar”. Dono de umas cordas vocais portentosas para o berreiro, serpentou, gritou, cuspiu bílis e carregou contra as teclas como se elas fossem responsáveis pelos seus males.
Encarnando um tresloucado, atira versos em repetição em Judge (baseada em personagens de Blood Meridian, do saudoso Cormac McCarthy) como quem atira pedras: “I don’t sleep, I don’t eat”. A vertigem da guitarra só reforça que estamos perante um amok em cima de um palco e a secção de ritmo impele ao crowd surf (palavra de honra que poucas vezes se viu o IC-Coura-2 tão congestionado) e à rodilha de pessoas no pit.
Os Prostitute não são uma banda niilista. São, outrossim, uma reflexão em forma de sátira demolidora e desconstrutiva da ópera bufa que é muito do mundo actual. E assim levam a água ao moinho da sua política; Kazra continua a olhar para o público com ar de quem não está para aturar tretas figurativas e sinalizações de virtude e quando vai ao teclado não é para invocar belezas sónicas.
A começar pelo nome (a pender mais para o verbo), impróprio para beatos, arautos de novilínguas patéticas ou de esbirros de países onde um nome de banda destes lhes daria, no mínimo, cadeia e uma multa por apostasia ou coisa que o valha, os Prostitute não são uma banda que esteja ali para massajar egos e para agradar. O noise é veículo para todo todo o género de desvarios e bizarrias, consubstanciados em grandes, grandes canções como Joumana Kayrouz.
A retratada é uma advogada de responsabilidade civil delitual de origem árabe que exerce no estado do Michigan. E o que nos é arremessado é uma ode em forma de jarda obsessiva num tandem avassalador de lascívia literal e sónica (como nos Black Flag de Slip It In ou Loose Nut), como se toda a canção fosse um clímax. Veredicto: caso julgado.
À volta do conceito de Attempted Martyr, do zelota que acaba por ser um hipócrita e um falhado, assiste-se a uma banda que em vez de se meter com lamúrias com letras e acordes, bate de frente contra os estereótipos impostos por quem não percebe a gente de Kazra ou por quem pratica atentados em nome de uma fé, arrastando consigo comunidades inteiras, incluindo quem não tem nada a ver com o assunto. No meio da carnificina sónica, tão distante do estúdio que até parecem outras canções, afigura-se que, em matéria de retrato de barbáries, o cunho emocional da banda descende de todas as tragédias que caíram sobre o Médio Oriente nos últimos cinquenta anos, como se ali corresse, para além de sangue, o “leite negro da madrugada” de Paul Celan.
All Hail é exactamente o corolário dessa refrega contra estereótipos. Estruturas rítmicas do post-hardcore e estruturas melódicas árabes acompanham versos em que o narrador proclama, numa contundência punk e noise que deixaria o Padre Albini (RIP) orgulhoso, que “I’m the motherfucker that took down the towers” só para, minuto e tal depois, o mesmo narrador perder toda a fé segundos antes de se mandar pelos ares como um otário.
E, subitamente, enquanto no PA se diz que Alá é grande, a banda desaparece. Um aceno de um Moe Kazra que leva ao ombro o sintetizador e uma banda que retira para as sombras. Não resta pedra sobre pedra.
Se a rir se criticavam os costumes, com os Prostitute é com ruído que se criticam os estereótipos.
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