Vinte anos até podem parecer coisa pouca quando se mede a História em séculos e milénios, mas na fita do tempo da música popular e sua dinâmica, tal período é para lá de uma eternidade, sobretudo nos domínios do punk e do hardcore, cuja velocidade criativa esteve directamente correlacionada com os tempos das composições. Os norte-americanos Pennywise, ausentes dos palcos nacionais precisamente desde 2006, voltaram para rectificar essa falha e, que nem o saudoso Tony de Matos, fizeram o tempo voltar para trás.

Formados em 1988 em Hermosa Beach, cidade-satélite de Los Angeles com longa tradição nos três acordes do punk, ali tendo nascido uma cena na qual pontificaram os pioneiros Black Flag, Redd Kross e Descendents, os Pennywise já muito viveram. Da tragédia da morte do baixista e compositor da banda Jason Thirsk (RIP) em 1996 até ao tumulto de 2007-2012 que levou à saída temporária do vocalista Jim Lindberg (rendido por Zoltán Téglás de Ignite) da banda, são autênticos sobreviventes e ora senadores de toda uma cena.

Na formação actual, que de certa maneira é a clássica, visto contar com três membros originais, contam com Lindberg, Fletcher Dragge (guitarra e comentariado de palco), Randy Bradbury (baixo) e Byron McMackin (bateria). Como os demais confrades do skate punk, são pouco dados a experimentalismos e servem a receita que muito sucesso trouxe àquela cena pelo efeito novidade nos noventas e hoje em dia pelo efeito da nostalgia.

No nosso caso, a banda de Hermosa Beach, não tendo sido propriamente banda formativa, foi uma banda que permitiu fazer pontes com outros melómanos dos tempos de adolescência; se a contraparte não gostasse dos Clash ou dos Black Flag, havia sempre a conexão sonora do Sul da Califórnia. Passadas mais de duas décadas, também nós respondemos ao desafio de aferir se os Pennywise ainda valem a pena.

Num Coliseu a caminhar para cheio, pelo corredor circundante de acesso ouve-se muita gente a cantar a melodia de Bro Hymn como se fosse um clássico das curvas no futebol. O reencontro de velhos amigos (com selfies e tudo), veteranos de t-shirts coçadas e tatuagens desbotadas, prova que estes old punks não desapareceram e nesta noite não iriam ficar no fundo da sala, mas sim na primeiríssima linha, o que equivale a dizer bem no meio do pit.

Manda a tradição de uma grande noite do ‘core (como esta) que uma banda “da casa” dê início às hostilidades. Coube essa missão aos Soulcrusher, banda nacional recente mas cujos membros são veteranos cá do burgo.

Com Ricardo “Congas” Dias (For The Glory) e Mike Ghost (Men Eater) no elenco, foram cerca de vinte minutos de competente aquecimento. Diante de canções como Set Me Free a veterania está à vista e, pelo que se vê nas redondezas, há ouvidos informados que seguem a trama de fio a pavio.

Com material já editado, nomeadamente o EP Keep On Pushing, os Soulcrusher foram eficientes até dizer chega, precisando apenas de cerca de vinte minutos para passarem a sua mensagem (e para agradecerem a quem chegou mais cedo). Nada mau para uma banda que minutos antes dizia que não sabia bem se existia.

A dose de punk e de hardcore a administrar só podia ser cavalar, que entre actuações o PA distribuía, em barda, canções do quadro de honra de várias vagas do punk do Sul da Califórnia (e não só): Bad Religion, NOFX e Social Distortion (alguém que os traga cá, quanto antes), mas também Dead Kennedys, Effigies (RIP John Kezdy) e Fugazi (uma Waiting Room cantarolada por vários espectadores). E o público, esse, ia crescendo em número e ímpeto.

De uma escola hardcore de Baltimore que se vem formando há anos vieram os End It. Depois da bronca do Bananagate (e das recomendáveis pazes), o quarteto da cidade à beira do Patapsco começou por dizer-se surpreendido mas não intimidado com o tamanho do Coliseu. A jarda do grupo foi, isso sim, digna do Coliseu de Roma, que foi toda uma plateia atirada às feras numa xdamnatio ad bestiasx.

Num pendor sónico que passa pelos Bad Brains e pelos Dirty Rotten Imbeciles, para além dos originais Pale Horse e Cloutbusting, houve também uma grande versão de Could You Love Me? de Maximum Penalty (ou não fosse o hardcore uma grande sucessão de homenagens), fixando-se na factualidade provada da noite que a banda de Baltimore ajudou a carburar a máquina para a muito esperada sessão de possessa nostalgia que aí viria.

Com um quarto de hora (mais coisa, menos coisa) de atraso no começo da contenda, foi mesmo caso para dizer About Time mal soou Peaceful Day. E, bom, desde o primeiro segundo que não se arredou pé, com todo o basqueiral habitual num concerto de punk e de hardcore: a fúria do pit, os coros nas letras e no refrães e a devoção de quem sabe ao que veio – sejam a banda ou o público. 

Não havendo disco novo para apresentar (o último, Never Gonna Die, data de 2018), o alinhamento seria preenchido com material de dois discos  maiores da banda: About Time e Straight Ahead. E por aquele se continuou, com Same Old Story. Admirável interpretação, acompanhada de imaculada simbiose entre banda e público: os primeiros contribuindo com voz e instrumentos e os segundos com berreiro e pancadaria.  

A banda está à vontade: Lindberg pegou numa máquina fotográfica de um repórter e fez o gosto à foto e Dragge passou o concerto em agradecimentos, sarcasmos e a puxar pelo público. Este, na simplicidade e agressividade dos seus riffs, é um guitarrista de topo da sua cena, com o eixo rítmico Bradbury-McMackin a assegurar o sinal verde no (enorme) pit. E assim foram cumprindo, com a devida distinção.

Chegados a meio do concerto, somos relembrados do porquê de esta cena/reinvenção (chamemos-lhe assim) do punk e do hardcore ter tido o sucesso que teve nos idos de noventas e inícios de zeros. Melodias orelhudas a rodos, refrães da mesma laia, dois tempos a puxar ao movimento e crítica social e política que, não obstante a falta de profundidade e o maniqueísmo simplista, é suficientemente eficaz para levar os fãs a pensar em certos assuntos ou a retratar o que se passa à sua volta e dar-lhe uma voz.

Fuck Authority, canção maior da banda, é representativa dessa atractividade. Um mar de gente na plateia do Coliseu que não pára quieto e o “trânsito marítimo” não desarma, indo os surfistas de multidões dar à costa das grades, quando não ao chão. 

Em jeito de celebração de toda essa cena, lembraram-se os Pennywise de fazer uma dupla viagem-interlúdio: uma pelas bandas que mais inspiraram Lindberg e Dragge (um atira um nome e o outro toca uns acordes), dos Clash aos Black Flag, passando pelos Ramones e pelos Descendents; e outra em forma de medley pelos “colegas” NOFX (“os NOFX vão voltar quando o Fat Mike ficar sem dinheiro para a cocaína!”, atirou Dragge), mediante uma rajada de Bob/Kill All the White Man/The Brews e, por fim, uma versão de Do What You Want dos mentores Bad Religion. Saíram bem e caíram bem.

Num concerto que já era uma sequência de erupções (ah, Society e Living For Today), a maior ficou para o fim, em Bro Hymn. Numa cantoria geral que envergonhou 90% dos jogos do presente Mundial de futebol, com abraços e murros no ar, um palco recheado de amigos e culminando numa cavalgada a dois tempos para que não esqueçamos o ritmo da noite, não há melhor adjectivo do que “triunfal” para descrever o término da actuação. Uma vitória geral.

Posto isto, este escriba confessa-se: depois de ter sido ouvinte regular do grupo ainda o milénio e o século era uns bebés e, tirando o trabalho de casa para o concerto, não ouvia uma canção de Pennywise há uns bons anos. A bruta exposição dos históricos de Hermosa Beach leva a que se conclua que em boa hora se deu o reencontro com o público nacional. Como sucede com a maioria das visitas de qualquer banda já de longo historial, claro que faltou muita coisa no alinhamento: Waste of Time, Badge of Pride e Alien (entre outras) bem que poderiam ter figurado na set list. Todavia, o que nos calhou em sorte bastou para que a noite valesse bem a pena.

Quem encheu o Coliseu foi para casa de alma a abarrotar. Os que voltaram a ver Pennywise fizeram uma viagem no tempo e os que os viram pela primeira vez e andam nisto há menos tempo ficaram a perceber a devoção aos clássicos.

About Time, Pennywise? E de que maneira.

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Fotos por Hugo Rodrigues
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