O terceiro e último dia do NOS Alive voltou a entrar com lotação esgotada, mas com uma energia diferente da véspera. Se o segundo dia tinha sido dominado pelas guitarras, este parecia feito para vozes grandes. Vozes de soul, de rock, de pop, de intervenção, de festa. Daquelas que não precisavam de estar sempre no centro do cartaz para se fazerem notar.
O arranque fez-se no Coreto com Esteves sem Metafísica, projeto de Teresa Esteves da Fonseca, cantora, compositora e escritora que cruza canção intimista com poesia, ironia e uma certa forma de dizer as coisas sem as embrulhar demasiado. Foi uma entrada discreta no dia, mais assente na palavra e na proximidade do que no impacto imediato, boa para quem chegou cedo e ainda estava a perceber o ritmo do recinto.
No Palco NOS, Don West ficou com a tarefa de abrir a escala grande do dia e fê-lo com músculo. O australiano vem do soul contemporâneo, com raízes que passam por Marvin Gaye, James Brown e Al Green, mas não apareceu ali preso a uma ideia antiga do género. Trouxe uma voz enorme, daquelas que enchem espaço antes mesmo de a banda ter de puxar muito por ele, e uma presença segura para alguém ainda em crescimento. O Palco NOS estava a aquecer, mas Don West entrou sem hesitação e deixou a marca de quem sabe ocupar bem mais do que o seu horário.

A meio da tarde, Florence Road trouxeram outro tipo de frescura. O quarteto irlandês, formado por quatro amigas de infância de Bray, chega com uma história muito deste tempo: vídeos nas redes, canções a circular depressa, atenção internacional e uma subida que ainda parece estar a acontecer à vista de todos. Mas em palco não soaram como fenómeno de algoritmo. Soaram a banda, no sentido mais simples e importante da palavra.
O concerto foi mostrando isso aos poucos. Entre a abertura com “7563”, a força imediata de “Heavy” e a forma como “Figure It Out” já parece pedir públicos maiores, as Florence Road deixaram claro que têm canções para além da curiosidade inicial. Há juventude, claro, mas não há fragilidade. Há guitarras com nervo, refrões que agarram sem parecer demasiado polidos e uma vocalista que vai encontrando espaço sem precisar de se impor à força. Quando chegaram a “Goodnight” e “Break the Girl”, já a ideia estava lançada: esta ainda é uma banda em evolução, mas o presente já chega para justificar a atenção.

Pelo WTF, Fidju Kitxora apareceu em formato banda, o que ajudou a dar corpo a um projeto que vive muito dessa ponte entre Lisboa, Cabo Verde e uma ideia de diáspora feita para circular. O nome significa “filho que chora” em crioulo, mas a música não fica presa à dor. Usa-a como ponto de partida para outra coisa: funaná, semba, kuduro, afro-house, eletrónica e uma sensação constante de movimento, tal como no seu mais recente álbum “Ti Manxe“. Ao vivo, esse cruzamento ganhou mais calor por não estar reduzido a uma lógica de pista ou de computador. Havia músicos, havia corpo, havia batida com raiz.
Depois veio Teddy Swims, mais uma grande voz para confirmar o tema do dia. A entrada fez-se ao som do soundbite “Jeff who listens to punk rock”, aquele clip vintage do Phil Donahue Show que Teddy costuma usar para apresentar a banda e puxar pelo público antes de aparecer. Não foi uma intro qualquer atirada para o ecrã. Funcionou como aquecimento para alguém que nunca pareceu caber muito bem numa só prateleira: veio de bandas mais pesadas, cresceu com covers no YouTube, atravessou soul, R&B, pop, country e rock, e chegou a Algés com uma primeira vez em Portugal para defender em palco.
A escolha de abrir com “The Door” ajudou logo a pôr as coisas no sítio. Teddy não entrou a guardar voz nem a pedir tempo ao público. Entrou como quem sabe que a sua principal arma é essa mistura de potência e ferida aberta, uma voz enorme que tanto pode puxar para o grito como cair num registo mais soul sem perder corpo. O concerto foi andando nessa fronteira: “Are You Even Real” e “Funeral” deram-lhe espaço para dramatizar sem ficar preso ao drama, “Bad Dreams” mostrou melhor o lado pop de grande refrão e “Some Things I’ll Never Know” trouxe uma escala mais recolhida, onde a voz já não precisava de fazer força para mandar no momento.
Com o corpo tatuado, cenário cuidado e uma banda sólida atrás, Teddy Swims conseguiu evitar que tudo ficasse reduzido ao óbvio “grande vozeirão”. Claro que a voz é o centro, é impossível fugir disso, mas o concerto funcionou melhor quando deixou perceber as costuras entre os vários mundos de onde ele vem. A cover de “Jump”, dos Van Halen, puxou por esse lado mais descontraído e rockeiro, enquanto “Bed on Fire” e “Lose Control” ficaram com a parte mais emocional da plateia. Num dia cheio de vozes fortes, Teddy confirmou a sua sem precisar de a transformar numa competição de volume.

Pelo Coreto, Suzana Francês levou o dia para um registo mais íntimo. Num palco onde a proximidade conta quase tanto como as canções, a artista portuguesa cruzou voz, violino, guitarra e eletrónica, sem precisar de levantar demasiado a escala para prender atenção. Depois da grande máquina emocional de Teddy Swims, soube bem passar por um concerto que trabalhava mais no detalhe: melodias a aparecerem devagar, texturas discretas e uma sensação de música contemporânea portuguesa feita sem pressa de se explicar.
No Heineken, Alessi Rose trouxe outra juventude ao dia. A britânica de 22 anos fazia a sua estreia em Portugal e chegou a Algés já com a bagagem de quem passou por digressões com Dua Lipa e Tate McRae, mas ainda com aquele entusiasmo de artista em fase de descoberta pública. A pop de Voyeur Deluxe vive dessa mistura entre melodrama, confissão e refrão pronto a saltar cá para fora. Em palco, o concerto funcionou melhor quando essa escrita mais crua se encostou à energia de quem ainda parece estar a testar até onde as canções podem chegar.
Mais tarde, os Pixies trouxeram ao Heineken uma história completamente diferente. Quarenta anos de carreira, uma influência difícil de medir no rock alternativo e aquela velha fórmula que continua a ser deles: caos e controlo no mesmo corpo. Black Francis, Joey Santiago, David Lovering e Emma Richardson não precisam de grandes discursos nem de encenação pesada. A força dos Pixies está nessa secura quase antiespetáculo, como se cada tema entrasse, fizesse o estrago necessário e saísse antes de alguém lhe pôr demasiadas palavras em cima. No Passeio Marítimo de Algés mostraram porque continuam atuais e foram igualmente a lembrança de que também há bandas que impõem presença pela tensão, pelo corte e pela ausência de floreados.

Ainda no Heineken, Noiserv mudou o foco do dia para outro tipo de intensidade. David Santos continua a ser aquele homem-orquestra que parece sempre rodeado de pequenas máquinas, instrumentos, pedais e ideias a nascerem umas em cima das outras. Em 2025, ano em que celebrou 20 anos de carreira, editou 7305, um disco pensado à volta do tempo, da memória e da transformação, e essa ideia encaixa bem no modo como constrói as canções ao vivo: camada a camada, detalhe a detalhe, até aquilo que começa pequeno ganhar outra dimensão.
As duas primeiras músicas, explicou depois, vinham de lugares menos bons do mundo. A terceira, garantiu, já não. E essa forma simples, quase desarmante, de falar com o público ajudou a compor a tenda do Heineken, que foi enchendo depois do concerto de Florence & The Machine. O concerto viveu dessas pequenas explosões sonoras, muito trabalhadas mas nunca frias, como se estivesses a ver uma canção a ser montada à tua frente e, de repente, ela já tivesse tomado conta do espaço.

E para fechar a viagem, Buraka Som Sistema. Não era apenas mais um concerto de fim de noite: era o reencontro especial de uma das bandas mais acarinhadas pelo público nacional, anunciado desde a edição anterior como um dos grandes momentos deste NOS Alive. A expectativa estava aí. Não era só saber que temas iam aparecer. Era perceber se, depois de anos afastados, os Buraka ainda conseguiam acender aquela coisa muito própria que sempre fez dos seus concertos uma celebração gigante, suada e impossível de ver parada.
A resposta chegou logo com “Hangover (BaBaBa)”. Não houve grande fase de aquecimento, nem era preciso. Com o LED gigante ao centro, projeções, pirotecnia e a batida a entrar sem pedir licença, o recinto foi rapidamente puxado para dentro daquela linguagem que os Buraka ajudaram a tornar sua: kuduro progressivo, bass music global, festa de bairro aumentada até escala de festival. A música deles continua a não pedir contemplação. Pede corpo.
O concerto foi também um reencontro com várias peças dessa história. Petty apareceu em “Yah!”, “Wawaba” e “D…D…D…D..Jay”, Deize Tigrona juntou-se em “Aqui para vocês” e “Sound of Kuduro” voltou a lembrar a dimensão internacional que a banda conseguiu dar a uma mistura nascida entre Lisboa, Luanda, Amadora e muitas pistas possíveis. Pelo meio, “Voodoo Love” trouxe a homenagem a Sara Tavares, e “Kalemba” ganhou uma entrada inesperada, com Ricardo Araújo Pereira a surgir em vídeo antes de o tema rebentar cá em baixo.
Àquela hora, já não interessava muito se tinhas passado o dia a correr entre palcos ou a guardar energia para o fim. Os Buraka tinham sido uma das grandes expectativas deste último dia e cumpriram sem complicar: puseram Algés a dançar como se o reencontro também pertencesse a quem estava do lado de cá. E talvez seja essa a melhor medida da banda. Dez anos depois, bastaram poucos minutos para deixar de parecer regresso e voltar a parecer presente.
O terceiro dia fechou, assim, com a sensação certa: vozes fortes durante a tarde, reencontros à noite e os Buraka Som Sistema a lembrarem que há bandas que continuam a pertencer ao público mesmo quando passam anos longe dos palcos. Foi um fim de festival menos solene e mais físico, daqueles em que a despedida se faz a dançar, com o recinto ainda cheio de gente a tentar gastar a última energia que restava.
Feitas as contas, passaram por esta edição cerca de 160 mil espectadores, segundo revelou Álvaro Covões, diretor geral da Everything Is New, em conferência de imprensa. O primeiro dia recebeu 48 mil pessoas, enquanto os dois dias seguintes, ambos esgotados antes do arranque do festival, chegaram aos 56 mil espectadores cada um.
O NOS Alive regressa ao Passeio Marítimo de Algés em 2027, nos dias 8, 9 e 10 de julho. Até lá, fica a memória de uma edição com muito rock, grandes vozes, regressos esperados e alguns daqueles momentos que explicam porque é que, ano após ano, Algés continua a ser ponto de encontro obrigatório no calendário dos festivais.