O primeiro dia da edição de 2026 do NOS Alive começou com o recinto a ganhar ritmo aos poucos, sem aquela pressão de enchente que às vezes te engole antes sequer de veres o primeiro concerto. Havia espaço para circular, para perceber o caminho entre palcos e para entrar no dia sem atropelos. Depois de dias mais pesados, a descida da temperatura soube bem e deu outra leveza à chegada a Algés. Ao fim da tarde, o vento começou a levantar-se e a noite trouxe aquele frio que faz parte da paisagem, mas os concertos foram tratando de manter o corpo em movimento. Entre idas aos diversos palcos, o dia foi-se construindo sem pressa, com concertos muito diferentes a puxarem o público em várias direções.
O arranque fez-se entre palcos ainda a aquecer. No Heineken, SONYA abriu caminho com uma presença forte, mas ainda com público disperso e em modo reconhecimento. Pouco depois, no Palco NOS, os The Royston Club ficaram com a tarefa de inaugurar o palco principal do festival. Não inventaram muito, nem precisavam. Indie rock direto, guitarras à frente e aquela energia de banda que sabe que ainda está a conquistar terreno. A bandeira do País de Gales no suporte do microfone do guitarrista dava-lhes um toque de identidade simpático, quase como quem diz: “viemos daqui, agora vamos ver até onde isto chega”.
A primeira grande curiosidade do dia estava no Palco Heineken. Dogstar vinham a Lisboa pela primeira vez, e também a Portugal, com Keanu Reeves no baixo. Sim, é impossível ignorar isso. Nesta realidade alternativa, Keanu escolheu o comprimido azul, deixou Neo a salvar o mundo noutra dimensão e apareceu em Algés feliz da vida, baixo em punho, a viver os seus melhores dias como rockstar. A banda agradeceu a receção calorosa e cumpriu bem o papel: rock simples, sem grandes floreados, com aquele encanto estranho de veres uma figura gigante da cultura pop a tocar baixo como se só quisesse estar ali com os amigos.

Depois, o Palco NOS mudou de peso. A Perfect Circle chegaram com tudo medido ao milímetro durante 50 minutos. O símbolo ao centro, os ecrãs laterais tomados por distorções coloridas, os músicos absolutamente certeiros e Maynard James Keenan no seu fato escuro, enigmático, naqueles seus movimentos quase em transe, como se estivesse a comandar tudo de uma zona meio fora do alcance. Não falou com o público. Zero. E foi melhor assim. Há concertos que não precisam de conversa e se movem noutra frequência.
“Weak and Powerless” apareceu logo cedo e confirmou que aquilo ia ser uma atuação de precisão e tensão. Mais tarde, em “Gravity”, a coincidência foi demasiado boa para ignorar: Maynard cantava “lift me back up to the sun” e “I choose to live” enquanto o sol começava a cair atrás do Palco NOS. A música, a luz e aquela descida lenta fizeram o resto. “Counting Bodies Like Sheep to the Rhythm of the War Drums” arrancou com palmas compassadas do público e “Judith” fechou o concerto com aquela força rara de uma canção que não pede reação, arranca-a.
No Palco WTF, Gui Aly trouxe outro tipo de exposição. Mais pequena, mais próxima, mesmo regressando desta vez ao festival com uma banda mais alargada. Alternando entre a guitarra acústica e a elétrica, o músico despeja o coração nas canções que apresenta e dedicou até uma à mãe, que estava na plateia, dizendo que era a primeira vez que a tocava ao vivo. Podia ter caído no sentimentalismo fácil, mas não caiu. A entrega de Gui Aly é clara, direta, sem esforço de parecer mais do que é. Uma pausa humana no meio de um dia já cheio de guitarras, volume e grandes gestos.

E depois veio Nick Cave e os seus Bad Seeds.
“Get Ready for Love” não podia ser uma entrada mais literal. O público já estava pronto para o amar antes da subida ao palco. E nisso, Nick Cave atirou-se para a frente, agarrou mãos, procurou caras, cantou em cima das primeiras filas e transformou o Palco NOS num lugar menos gigante do que realmente era. Continua a ser uma figura rara: gentleman impecável no fato, animal de palco quando se aproxima do público. A banda acompanha-o com uma elegância feroz, sempre entre a ameaça e a catarse. Não foi um concerto para descobrir Nick Cave. Foi um concerto para confirmar aquilo que quem já o viu sabe: ele não atua para uma multidão abstrata, atua como se estivesse a escolher pessoas uma a uma.
Enquanto isso, o Heineken começava a mudar de temperatura com Xinobi. A primeira música entrou com uma voz feminina forte e abriu a pista de dança sem pedir licença. Foi uma boa transição para a noite, já com o vento mais frio a lembrar-nos que estar parado começava a ser má ideia.
No Palco WTF, Rumia apareceu centrada entre baterista e teclista, num formato simples mas eficaz. A pop eletrónica dela vive muito desse equilíbrio entre fragilidade e batida, e ali funcionou como zona intermédia: não era explosão, não era pausa total, era um espaço próprio dentro da confusão do festival.

Mais afastado da rota principal, o Coreto levou com Hetta em regime de descarga total. A banda apresentou-se sem cerimónias, “nós somos Hetta, do Montijo”, e, ao fim de algumas músicas, o público indicava a brincar que a voz não estava alta o suficiente. Sem problema para Alex, o vocalista da banda que responde “eu grito mais”, e foi o que fez, sem dó. Circle pit praticamente sem descanso, suor, empurrões e a sensação de que aquele pequeno palco estava a ser usado acima da lotação emocional. Apresentaram temas de “Acetate”, o primeiro disco, e no último tema o vocalista voltou a descer ao público. Fazia sentido. Aquele concerto nunca quis ficar só em cima do palco.
De regresso ao Heineken, Matt Berninger trouxe outra cadência. Mais torta, mais conversada, mais irónica. Arranca com “No Love” e, de seguida, atira que “Frozen Oranges” é uma música sobre os genitais de Trump (remetemos mais informações sobre este assunto para a imagem abaixo). Depois pegou na harmónica, disse que foi o primeiro instrumento que teve e que era muito fácil de tocar mal. Chamou-lhe Mónica. Pelo meio, versões de temas dos The National, idas ao público, abraços e aquela postura de homem meio perdido, meio dono da situação. Quando segue para o meio das pessoas, nunca parece forçado. Berninger precisa de estar junto dos seus, e o carinho que recebe em troca ajuda a explicar porque é que esta relação entre artista e público dura há tantos anos.
Mais para o final ficou “Bonnet of Pins”, malha maior, na nossa opinião, do disco “Get Sunk”, que editou em março do ano passado.

O Palco NOS fechou em grande escala com Twenty One Pilots. Tyler Joseph entrou de passa-montanhas (obrigado, Linda Martini), numa corrida que culminou num enorme salto, e o concerto nunca mais parou quieto. Houve momentos ao teclado, houve frenesim, pirotecnia, fogo, fumo branco em colunas densas e uma plataforma onde Joseph surfou com a ajuda do público. Josh Dun teve ainda uma bateria extra numa estrutura lateral no topo do palco e ainda a escalou, porque aparentemente tocar bateria no chão era pouco.
O concerto viveu dessa sensação de movimento permanente, sempre com qualquer coisa a acontecer em palco ou fora dele. Mesmo quando o espetáculo crescia em aparato, a banda nunca perdia a ligação com quem estava à frente. O exemplo mais feliz veio em “Ride”, quando chamaram Rui, segurança do NOS Alive, para cantar com eles. Foi-lhe pedido que cantarolasse uma parte, ele atirou uma pequena frase da letra, e o público respondeu como se tivesse acabado de ganhar mais um elemento para a banda. Foi um momento simples e muito bem recebido, daqueles que só resultam quando há margem para brincar em palco. Os Twenty One Pilots sabem bem como transformar um concerto grande numa experiência próxima e foi isso mesmo que se viu no Passeio Marítimo de Algés.
Para os resistentes, TOMORA ainda ficou com a pista de dança no Palco Heineken. Aurora e Amalie Holt Kleive apostaram em movimentos sincronizados, quase coreografados, enquanto Tom Rowlands segurava a máquina com mão de quem sabe exatamente quando apertar e quando deixar respirar.
Foi um primeiro dia a ganhar forma aos poucos, com espaço para saltar entre palcos e concertos muito diferentes a coexistirem sem se atropelarem. Houve precisão, entrega, pancada e dança, às vezes quase em sequência, como se o festival estivesse a testar vários ritmos antes de escolher um só. Quando a noite fechou em Algés, já havia matéria suficiente para justificar a viagem.