Mais do que um álbum, Ti Manxe é um exercício de escuta profunda e um registo de vivências captadas por Fidju Kitxora entre São Nicolau, São Vicente e Santiago. O título, que em crioulo nos remete para o “até amanhecer”, não sugere apenas a passagem do tempo, mas a acumulação de experiências, entre a festa e a exaustão, o transe do grogue e a crueza do quotidiano.
Neste trabalho, a música não procura resoluções fáceis. É uma estrutura fragmentada onde samples de nomes icónicos como Bitori ou Philip Monteiro surgem como fantasmas que habitam o presente. Entre a hospitalidade da morabeza e a fricção do kassubodi, o disco explora as tensões de um Cabo Verde menos visível: as derivas emocionais, as ausências que ainda ocupam espaço e os corpos que cantam até ao limite do desgaste.
Nas linhas que se seguem, o artista convida-nos a entrar nos bastidores desta construção, desvendando, faixa a faixa, as memórias, os diálogos e as gravações de campo que dão corpo a este universo sonoro.
#1 Ti manxe feat. Juninho Ibituruna
Esta música é gravada em Fragata, que é uma aldeia em São Nicolau na altura do Dias dos Reis. Muitas das pessoas que estão a tocar são meus familiares que eu decidi capturar em audio e vídeo. É um momento de ternura entre todos nós. Posteriormente, convidei o Juninho Ibituruna para gravar percussões, porque senti que a música tem alguma relação com gado mineiro, da qual ele é especialista.
#2 Egoísmo
É uma gravação radiofónica feita em Juncalinho, que é uma aldeia no interior de São Nicolau. capturei um momento em que um senhor estava, de alguma forma, chateado com uma situação que ali estava a acontecer e, ao mesmo tempo, também a praguejar contra Cabo Verde. Achei engraçada a reação dele, meio explosiva e ranzinza.
#3 Pobreza feat. Bitori & António Tavares
Tem como ponto de partilha um sample de “Bitori Nha Bibinha” uma música de Bitori. Um sample altamente reconhecível para quem é amante da cultura Cabo-verdiana. Posteriormente fiz um convite ao António Tavares – que para mim é um místico – para dar a sua contribuição nesta música.
#4 Maguadu feat. Danilo Lopes
Esta música surge no Mindelo, em São Vicente, e lá já imaginava a presença do Danilo em termos de guitarra. E depois relacionei-a com a gravação de um casal em Ribera Bote. Até de uma certa discussão de quem é que manda, de forma leve. Achei que faria sentido também no diálogo com o sampling com o tema “Felicidade” do Jorge Neto. É uma espécie de retrato de uma relação entre um casal.
#5 Tud pa bô
Surge também no Mindelo, no bairro de Ribera Bote, a partir de uma confissão ao telemóvel de uma pessoa sobre a forma como a mulher o criticava a forma como ele se relacionava com a bebida e a boémia. Achei a atitude muito afirmativa e relacionei-o com um sample de Filipe Monteiro. Soa bem, é uma música muito solar.
#6 Ka ta uza
Surge de uma gravação de campo no Tarrafal, mais especificamente na aldeia de Txon Bon em Santiago, de uma conversa entre jovens sobre drogas quando partilhamos um táxi de caixa aberta. Um deles estava a dizer que não usava cocaína e o outro respondia-he, de forma irónica, que é a cocaína que o usa a ele. Eu achei a situação engraçada e, ao mesmo tempo, um retrato do que se está a passar agora em Cabo Verde, onde a droga está a chegar de forma avassaladora sobretudo em zonas turísticas. Algo que está a criar consequências e dinâmicas sociais novas num contexto que não tinha este tipo de consumos.
#7 Morabeza feat. Tó Trips & Henrique Silva
O título é uma antítese do que se está a passar na gravação de campo, que retrata uma situação de conflito no Bairro Tra Xapeu, ilha de Santiago. Quis olhar para essa ideia que Cabo verde é só um sítio de “morabeza” (afabilidade), mas na verdade também é um sítio de conflitos e de disputas, de criminalidade, de tudo aquilo que atravessa uma sociedade. Capturei um sample do Henrique num dos concertos que achei bonito e convidei o Tó Trips, porque achei que a sua poética melancólica e atlântica mergulhava muito bem nesta música.