No segundo dia, Algés já tinha outra densidade. Dia esgotado, muita gente desde cedo e uma antecipação fácil de ler nas t-shirts espalhadas pelo recinto: os Foo Fighters eram o nome que quase toda a gente parecia ter em mente. Antes disso, porém, o dia foi-se fazendo à base de guitarras, com rock em vários formatos: mais político, mais teatral, mais sujo, mais melódico, mas quase sempre com o corpo em alerta.
No Palco Heineken, os CALL ME começaram com o ecrã a falar antes da banda. Durante alguns minutos, as projeções lançaram mensagens políticas e sociais, excertos de notícias e apelos a um mundo mais justo, mais igual e mais empático. Não era decoração. A música seguiu pelo mesmo caminho, com letras viradas para a realidade à volta, incluindo uma canção sobre quem não consegue sequer chegar a um médico no Serviço Nacional de Saúde. Entre post-punk e rock alternativo, a banda mostrou que o discurso não está ali colado por cima. Faz parte da espinha dorsal. A versão de “Lights Out”, dos Royal Blood, veio confirmar que também sabem apertar quando é preciso.
Pelo Coreto, houve tempo para uma passagem rápida por Inês Sousa. Num dia em que as guitarras iam ocupar quase tudo, soube bem apanhar outra respiração, mais subtil, mais próxima, antes de regressar à rota principal.

As The Warning ficaram com a missão de abrir o Palco NOS e trataram o horário como se fosse apenas um detalhe. As três irmãs mexicanas, Daniela, Paulina e Alejandra Villarreal, chegaram ao festival com uma história que já não cabe só na curiosidade dos vídeos virais: há anos de estrada, uma identidade bem definida e um hard rock que não tenta suavizar-se para agradar. Ao vivo, isso sente-se na forma como a bateria segura tudo com firmeza, os riffs entram sem rodeios e a voz ganha espaço sem precisar de dramatizar. Num dia em que o rock ia mandar em boa parte do recinto, foram uma entrada certeira: diretas, afiadas e com aquele ar de banda que ainda tem muito palco para conquistar.
A seguir, o Heineken recebeu Palaye Royale, trio de irmãos norte-americanos nascido em Las Vegas e criado musicalmente entre o rock clássico, o punk e o glam. Há neles qualquer coisa de outra linhagem do rock, mais física, mais teatral, menos interessada em ficar presa ao palco. E foi mesmo aí que o concerto ganhou mais força: Remington Leith atirou-se para perto das primeiras filas, Sebastian Danzig também foi tocar junto ao público e Emerson Barrett acabou no meio da multidão, transformando o Heineken num espaço mais permeável do que o habitual. Depois de, no dia anterior, Tyler Joseph ter surfado o público numa plataforma, Palaye Royale encontraram a sua própria versão da cena com um barco insuflável a passar por cima das cabeças. O concerto viveu muito dessa vontade de quebrar a distância, e o público respondeu sempre que a banda decidiu atravessá-la.

Skunk Anansie trouxeram outro peso ao Palco NOS. Formados em Londres em 1994, sempre cruzaram rock alternativo, punk, dub e intervenção social com uma frontalidade que nunca pareceu calculada para agradar. Três décadas depois, continuam sem ar de peça de museu. O palco vinha vestido por formas negras e pontiagudas, como se o cenário também tivesse arestas, mas bastou Skin entrar para tudo se reorganizar à volta dela. Irrequieta, aos saltos, a cortar o palco de um lado ao outro, continua a ser uma presença rara: voz, corpo, atitude e uma expressão de liberdade que sempre fez parte da identidade da banda. Repetentes em Portugal, sim, mas longe de virem cumprir calendário. A banda apareceu compacta, em forma, e mostrou que a sua história ainda tem nervo no presente.
De volta ao Heineken, Jehnny Beth manteve o dia em terreno de confronto. A francesa, nascida Camille Berthomier e conhecida primeiro como vocalista das Savages, trouxe para Algés essa intensidade física que sempre fez parte da sua linguagem: post-punk de nervo exposto, corpo em tensão e uma forma de provocar que não soa a pose, soa a impulso. A solo, com discos como To Love Is To Live e You Heartbreaker, You, abriu mais espaço para o lado cinematográfico e visceral da sua escrita, mas em palco continua a funcionar sobretudo pelo contacto direto.
E foi aí que o concerto ganhou mais força. Jehnny Beth não ficou a comandar de longe. Saiu do palco, meteu-se no meio do público e fez com que o Heineken deixasse de parecer dividido entre quem tocava e quem via. Havia energia, confronto, suor e uma artista a puxar constantemente pela linha entre palco e plateia.

Jehnny Beth
De regresso ao Palco NOS, Wolf Alice abriu espaço para outras texturas. O quarteto de North London já não chega a estes palcos com estatuto de promessa: vem com um Mercury Prize por Visions of a Life, um BRIT de Best Group depois de Blue Weekend e uma carreira que foi crescendo sem perder a capacidade de alternar doçura e estrondo. Ao vivo, essa elasticidade continua a ser o grande trunfo. Ellie Rowsell foi alternando entre guitarra e voz, mas os temas de The Clearing deram-lhe mais espaço para circular, ocupar o palco e assumir uma presença mais solta, quase como se as novas canções lhe abrissem caminho.
O concerto viveu muito dessa capacidade de mudar de registo sem perder coerência. “The Sofa” trouxe essa ideia de se poder ser várias coisas ao mesmo tempo, e pouco depois “Bros” transformou a amizade em gesto físico, com a banda a pedir ao público que olhasse o melhor amigo nos olhos, dissesse que o amava e lhe desse um abraço, antes de passar os minutos seguintes a saltar. A partir de “Yuk Foo”, com o habitual megafone e som estridente, o concerto abriu a porta ao lado mais abrasivo da banda, e “Play the Greatest Hits” entrou logo a seguir sem deixar o Palco NOS recuperar o fôlego. Mais tarde, Ellie sentou-se no topo das escadas do cenário para “The Last Man on Earth” e o concerto encontrou outra escala, mais suspensa. No fim, “Don’t Delete the Kisses” fechou com a leveza nervosa de uma canção sobre nos apaixonarmos. Pelo meio, ainda houve uma declaração de amor a Portugal. Soou menos a frase de circunstância e mais a relação já antiga de uma banda que foi crescendo também por aqui.

Depois veio a razão pela qual tanta gente tinha guardado lugar, garganta e pernas. Foo Fighters.
O regresso da banda a Portugal vinha carregado de expectativa. Pela ausência, por ser a primeira passagem por cá já sem Taylor Hawkins, porque há álbum novo editado este ano e porque Dave Grohl, polémicas à parte, continua a ser uma das figuras mais fáceis de gostar no rock. O tal tipo fixe, sim, mas não só. Há ali um mestre de cerimónias que sabe quando berrar, quando brincar, quando alongar uma canção e quando deixar milhares de pessoas tomarem conta do refrão.
A entrada com “All My Life” e “The Pretender” foi logo sem travões. Sem aquecimento, sem grande cerimónia, como quem sabia que tinha uma massa enorme à frente à espera de entrar no concerto de uma vez. “Times Like These” veio cedo e ajudou a abrir esse lado mais comunitário dos Foo Fighters, aquele em que uma canção enorme ainda consegue parecer conversa de sobrevivência. Depois, entre “Rope”, “Stacked Actors”, “My Hero” e “Learn to Fly”, o concerto começou a mostrar a verdadeira força da banda: não é só ter hinos, é saber distribuí-los de maneira a que a noite nunca fique parada no mesmo sítio.
Grohl comandou tudo com a naturalidade habitual, mas a banda também teve espaço para respirar. Pelo meio, houve apresentações, solos e as habituais trocas de lugares que fazem parte da gramática ao vivo dos Foo Fighters. Em “Tap Dancing in a Minefield”, Ilan Rubin passou para a guitarra e Dave Grohl voltou à bateria, lembrando sem grande cerimónia que, antes de ser o frontman capaz de comandar Algés, foi ali atrás que começou a sua história.
O momento mais delicado chegou com “Aurora”. Grohl apresentou-a como uma canção que tocam todas as noites e que dedicam a Taylor Hawkins, antes de pedir ao público que fizesse barulho por ele. Algés respondeu em uníssono, gritando o nome de Taylor, e a música entrou já carregada por essa memória coletiva. Não foi preciso empurrar a emoção. Ela estava ali, no nome repetido pela multidão e numa canção que, desde então, deixou de ser só uma canção.
A partir daí, “Best of You”, “Exhausted” e “Everlong” trataram de fechar a noite com a resistência emocional e física que se espera deles. Era a última data europeia da digressão, e sentiu-se ali qualquer coisa de fim de ciclo: uma banda a gastar o que ainda tinha para gastar, com Algés a responder como se também quisesse ficar sem resto.
Num dia dominado por guitarras, os Foo Fighters não precisaram de inventar muito para tomar conta do final. Antes deles houve urgência, teatralidade, protesto, memória, crescimento e suor. Com eles houve rock direto, grandes canções, braços no ar e a certeza simples de que, quando “Everlong” fecha uma noite destas, não é preciso procurar uma frase demasiado bonita para explicar o que aconteceu.