The Tale

por Edite Queiroz

Sobre “o desmoronar da negação – ou sobre a forma como um trauma pode conservar-se na memória durante toda uma vida, mascarado de uma suposta normalidade.

Título Português The Tale
Ano 2018
Realizador Jennifer Fox
Elenco Laura Dern, Isabelle Nélisse, Elizabeth Debicki, Jason Ritter, Frances Conroy, John Heard, Common, Ellen Burstyn
País E.U.A.
Duração 114min
Género Biopic, Drama
The Tale

Com apenas 13 anos, a documentarista americana Jennifer Fox (cuja primeira longa-metragem, Beirute: The Last Home Movie, venceu o Festival de Sundance em 1988) escreveu um conto sobre a sua relação amorosa com um homem mais velho e a sua amante, o seu treinador e instrutora de equitação. O carácter pouco convencional da ligação a estes dois adultos, evidente até para uma criança, fez com que a história fosse mantida em segredo até à idade adulta, depois de passada ao papel e esquecida num caixote de arrumações em casa dos pais. Mas depois da descoberta desses escritos pela mãe, uma Jennifer com mais de 50 anos é confrontada com esta memória. The Tale é a sua história, a narrativa pessoal de uma mulher adulta forçada a reconhecer no seu passado não uma história de amor, mas uma história de abuso, destruindo a versão dos factos criada pela menina de 13 anos que foi um dia. A partir do seu próprio relato escrito, Jennifer Fox inicia uma viagem de reconstrução do seu passado, com base em fotos, cartas e entrevistas a pessoas com quem se cruzou na infância, apenas para descobrir a verdadeira natureza daquelas que idolatrou e perceber que não foi a única, mas uma de muitas crianças e adolescentes utilizadas pelo casal nas suas fantasias eróticas. Nas palavras da realizadora, é um filme sobre “o desmoronar da negação”, um diálogo entre o passado e o presente que evidencia o poder protector da reconstrução mnésica perante acontecimentos traumáticos – ou a forma como um trauma pode conservar-se na memória durante toda uma vida, mascarado de uma suposta normalidade.

Jennifer Fox assume o seu nome e todos os detalhes do seu relato autobiográfico (no qual é protagonizada pela sempre excelente Laura Dern). Em entrevista ao IndieWire, referiu que a opção se deveu ao receio de que o público não acreditasse na veracidade da sua história e, sobretudo, não considerasse plausível que uma criança sexualmente abusada pudesse produzir uma memória feliz dos acontecimentos, transformando-a numa experiência de afecto. Este é um aspecto pouco debatido nas situações de abuso e/ou violência sexual, muitas vezes gerador de confusão e desconfiança e afectando mesmo a credibilidade da vítima: Como pode esta não ter noção do que se passou até tão tarde? O facto é que este recurso adaptativo da memória, sobejamente estudado, está frequentemente presente nestes casos – e não apenas naqueles em que o abuso ocorre na infância. Mesmo agora, em entrevistas diversas, Jennifer Fox reitera-se incapaz de se identificar como vítima. Em parte, conserva ainda a memória cristalizada de quem dizia amá-la e com quem teve uma relação ‘privilegiada’. Argumenta ainda que nos anos 70 não se falava violência sexual ou de abuso. Eram tempos mais permissivos.

É um filme sobre “o desmoronar da negação”, um diálogo entre o passado e o presente que evidencia o poder protector da reconstrução mnésica perante acontecimentos traumáticos – ou a forma como um trauma pode conservar-se na memória durante toda uma vida, mascarado de uma suposta normalidade.

Talvez por isto, houve a necessidade de filmar a história com toda a clareza, ainda que recorrendo ao dispositivo artificial do diálogo entre a Jennifer, a sua versão de 13 anos (Isabelle Nélisse) e os seus agressores (que lhe surgem na memória bonitos e intocados pelo tempo). Por um lado, explora-se o discurso infantil da criança que enaltece os agressores que supostamente a acarinharam – Bill (Jason Ritter) e Mrs. G. (Elizabeth Debicki) – fazendo-a sentir-se estimada e especial. A dada altura, Jenny-criança diz mesmo: Não sou a vítima nesta história; sou a heroína. Por outro lado, cenas bastante gráficas de sexo com a menor (*), filmadas como cenas românticas (respeitando a versão infantil da história de amor), impõem ao espectador o choque e a repulsa.

Enquanto filme, The Tale é um objecto híbrido. É difícil percebê-lo como uma autobiografia porque a própria narrativa é emocionalmente instável, ora demasiado superficial e defensiva, ora francamente explícita. A dificuldade de uma auto-investigação deste tipo com um propósito cinematográfico deve ser imensa, o que confere ao filme um tom paradoxalmente impessoal. Ainda assim, é possível observar vários pormenores ilustrativos destas situações, sem que consigamos perceber se a abordagem é intencional ou automática: desde logo, a culpa imensa de uma mãe (Ellen Burstyn) ao tomar consciência do que a filha passou. As consequências do abuso num relacionamento afectivo/sexual adulto. A instrumentalização da abusadora feminina por parte do agressor masculino. A extraordinária fragilidade do conceito de consentimento. A sintomatologia física aparentemente inexplicável. A tristeza fácil, a irritabilidade, o humor lábil. A persistência da memória fabricada face às evidências. Não há dúvida que o passado não é mais do que uma história que contamos a nós mesmos.

Não tanto pelo tema mas pelo contexto em que estreou (no despertar do movimento #MeToo), o telefilme da HBO foi um dos filmes-sensação na última edição do Festival de Sundance (assinale-se a qualidade crescente das produções televisivas), causando ovações de pé mas também saídas a meio da projecção. Esta revisitação de um passado que é pessoal é indissociável de um certo passado histórico, porque situações desta natureza são tão antigas quanto o tempo e muito mais frequentes do que se pensa (as estatísticas indicam que 1 em cada 5 raparigas e 1 em 20 rapazes é vítima de abuso sexual infantil). Se o movimento #MeToo ou a plataforma Time’sUp deram voz às mulheres que sofreram abusos sexuais, o facto é que a violência sexual para com crianças é ainda pouco discutida, as estratégias para a prevenir são parcas e há um longo caminho a percorrer para entender a extensão do problema – que possivelmente passaria, para começar, por uma educação sexual honesta e inclusiva, liberta de questões de poder ou papéis de género, onde a capacidade de dizer ‘não’ pudesse ser uma competência estabelecida para ambos os géneros.

The Tale é talvez um dos produtos cinematográficos mais perturbadores sobre a violação e o abuso sexual infantil, de tal forma que tão depressa o percebemos como testemunho de coragem ou como exercício de exposição sem consequência. Será este relato sincero ou uma reconstrução autoficcionada? Será a descoberta da verdade realmente catártica ou duplamente traumática? Pode a identificação da origem de uma dificuldade relacional ou sexual na vida adulta contribuir para supri-la ou acentuá-la? Valerá a pena tão dolorosa perfuração da intimidade em nome da substituição de uma memória boa e falsa por uma recordação terrível mas verdadeira? Pode um/uma companheiro/a adulto/a entender a lente relacional/sexual de um/uma sobrevivente? Pode um episódio individual contribuir para acordar consciências sobre as dimensões do abuso, da violação e da violência?

Pode um filme fazer a diferença?

 

(*) todas as cenas de cariz sexual foram filmadas com recurso a duplos adultos.


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