Maudite Soit La Guerre

por Isabel Leirós

O realizador francês Alfred Machin lança neste melodrama pacificista uma visão terrivelmente premonitória, retratando um conflito bélico em vésperas da I Grande Guerra.

Título Português War is Hell
Ano 1914
Realizador Alfred Machin
Elenco Baert, Suzanne Berni, Fernand Crommelynck
País Bélgica
Duração 50min
Género Drama
Maudite Soit La Guerre

Um dia após a tragédia que viria a marcar o 13 de Novembro, noite em que Paris foi alvo de um devastador ataque terrorista, o GNRation em Braga recebeu uma sessão de cinema-musicado: a banda portuguesa You Can’t Win, Charlie Brown sonorizou uma edição restaurada de Maudite Soit La Guerre.

 

Maudite Soit La Guerre

 

Datado de 1914, o filme é tudo aquilo que se espera da sua época. Entre o amadorismo dos primórdios do Cinema, os planos fixos e frontais, e o uber-dramatismo dos actores (por vezes, parecem saídos de um sketch), trouxe cor ao grande ecrã fazendo uso de uma técnica experimental: cada frame foi pintada à mão, resultando numa peculiar mas simpática estética. Ao longo do filme, transitamos entre tons pastel em tempo de paz e o contrastante encarnado que caracteriza a morte em batalha.

O realizador francês Alfred Machin lança neste melodrama pacificista uma visão terrivelmente premonitória, retratando um conflito bélico em vésperas da I Grande Guerra (1914 – 1918), entre dois países que não conseguimos identificar. Aliás, alguns dos seus filmes acabariam por ser usados pelo exército francês durante o conflito, razão que o levaria a dedicar-se a documentar o mundo animal após 1920

 

Crítica ao filme Maudite Soit La Guerre

 

A narrativa tem como personagem principal Lidia e Adolf. Enquanto o jovem faz o seu treino de aviador, na companhia de Sigismond (irmão de Lidia), apaixonam-se mas a guerra separa-os, quando Adolf é mobilizado pelo seu país para lutar contra a nação da família que o acolhera. Escravo da disciplina, acaba por se revelar um dos melhores pilotos e em que campo de batalha é implacável e destrutivo. Com efeitos especiais toscos mas muito inovadores à época, vemo-lo a tornar-se o pior inimigo do exército oposto, que convoca o seu melhor carrasco: nem mais nem menos, que Sigismond.

São estas as vítimas da guerra, os laços e os corações que se quebram, as famílias desfeitas, os futuros aniquilados, os amigos que se defrontam em campo de batalha. Lentamente, a vida de Lidia regressa à normalidade mas acaba por se deparar com outra tragédia inesperada, quando descobre que – afinal – foi o actual noivo que derrubou Adolf em campo de batalha, num moinho – curioso elemento que marca a cinematografia de Alfred Machin. A vida de Lidia enche-se de dor e conflito interno, acabando por se entregar ao silêncio e ao recolhimento de um convento.

 

Crítica ao filme Maudite Soit La Guerre

 

No tempo em que os talkies ainda estavam a surgir – só em meados da década de 1920 é que o som seria generalizado – a trilha sonora de acompanhamento era fulcral para o filme. Nesse aspecto, o trabalho dos portugueses You Can’t Win, Charlie Brown foi irrepreensível, tornando ainda mais intenso todo o sentimento presente no grande ecrã. Conseguiram ser a voz da dor e da derrota de todas as personagens, uma segunda pele da visão fatalista de Machin, ainda que volvidos 100 anos desde a sua produção. O cruzamento entre um passado tão distante e toda a modernidade da sua sonoridade, resultaram na perfeição.

A nós, portugueses, falta-nos muita cultura de Cinema, arte que nasceu no nosso continente. Raramente nos dedicamos a redescobrir tesouros destes do passado, apesar de toda a tecnologia disponível. Por outro lado, justiça seja feita, são poucas as entidades que têm a coragem de recuperar tais registos históricos e, nesse aspecto, o festival Curtas de Vila do Conde tem dado um contributo inigualável, através da sua secção Stereo – para a qual foi criada esta colaboração inicialmente.


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