Partilha com os teus amigos
Blade Runner 2049
Título Português: Blade Runner 2049 | Ano: 2017 | Duração: 164m | Género: Sci-Fi, Thriller
País: EUA | Realizador: Dennis Villeneuve | Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Dave Bautista, Jared Leto

35 anos, uma vida e um director’s cut de Ridley Scott separam Blade Runner de 1982 e Blade Runner 2049 recentemente estreado. Vemo-nos de volta ao futuro distópico, com as mesmas questões éticas e epistemológicas da existência dos humanos sintéticos, os androids, e reencontramo-nos com a ambição muito humana de endeusamento através da criação artificial de vida.

Dennis Villeneuve (Arrival, 2016) foi o realizador escolhido para dirigir esta nova vida do filme, Ridley Scott regressou ao trabalho como produtor executivo e guia espiritual. A obra de culto nunca foi sucesso de bilheteira mas antes um filme de cinéfilos e aficionados do sci-fi neo noir que se projectou e afirmou com o tempo, mas uma semana depois da estreia do novo título, já deu para perceber que as receitas esperadas para o primeiro fim-de-semana ficaram aquém do esperado e estimado. A banda sonora assombrosa e intemporal de Vangelis em 1982, foi agora rendida por Hans Zimmer, depois de um aparatoso e atrapalhado afastamento do compositor Jóhann Jóhannsson do projecto.

Harrison Ford retoma os seus papéis de 1982, Ryan Gosling é agora o exterminador implacável (perceberam a graça?) encarregado de controlar os sintéticos rebeldes. Mas eis que na sua missão se confronta com um milagre que poderá ditar o papel dos androids na sociedade.

Blade Runner 2049 foi esperado pelos amantes do cinema com muita expectativa. As opiniões e as críticas divergem entre o falhanço e a glória, pelo que lançámos o desafio à equipa Arte-Factos e fizemos uma análise ao filme a várias mãos. A pontuação final não é consensual, mas sim um produto da ciência matemática.

Crítica de João Pedro: 8/10

O problema de Blade Runner 2049 está logo no título. Blade Runner: um filme ímpar e fundamental, uma obra-prima que deixou uma marca profunda através das décadas. Suceder-lhe seria sempre uma tarefa ingrata. É pena que Blade Runner 2049 tenha de carregar o fardo desse legado, suscitando comparações óbvias mas injustas. Porque este é um excelente filme e vale por si próprio.

Com a assinatura de Denis Villeneuve, um dos realizadores mais interessantes da actualidade, Blade Runner 2049 não recusa esta pesada herança. Há inúmeros sinais de regresso a um universo familiar e ainda mais decadente e desolador, que o realizador canadiano apresenta habilmente em planos longos e contemplativos, abundantes em detalhes. Pena que o enredo pareça perder algum fulgor na recta final e que o protagonista pareça garantir apenas os serviços mínimos. Ainda assim, com várias sequências que prometem tornar-se de antologia, Blade Runner 2049 já assegurou um ciclo de vida superior aos replicants do modelo NEXUS-6. JP


Crítica de João Torgal: 5/10

Blade Runner 2049 move-se no limbo entre as memórias reais e os implantes, entre o nosso mundo e os outros mundos, entre o humano e a inteligência artificial, entre os dois futuros, deste e do filme original. A fotografia pode ser óptima e as peças do puzzle são razoavelmente bem juntas, mas não há grande genialidade narrativa ao longo de quase 3 horas e o próprio twist é bastante previsível. Se Arrival, o último filme de Villeneuve, era uma obra-prima de ficção científica para quem não gosta de ficção científica, este é para puristas.

Apesar de menos noir, dificilmente quem não ficou maravilhado com o original, vai adorar esta sequela. Pode não ser extraordinário, mas também não embaraça o de 1982 (o que dizer da cena do Elvis?). Ou só o faz num aspecto: o pós-Vangelis da banda-sonora roça o horrível. Sem surpresas: passar de Jóhann Jóhannsson para Hans Zimmer é como trocar Ronaldo por Tozé Marreco (com respeito pelo avançado da Académica). JT

Crítica de Isabel Leirós: 6.5/10

Se Blade Runner 2049 fosse uma pessoa seria aquele bonitão lá no bairro, que passa por nós em câmara lenta, pára o trânsito e parte pescoços, veste bem e cheira melhor, consegue rechear a nossa imaginação e enche a vista. O filme tem uma fotografia maravilhosa e cuidada, com um fabuloso aproveitamento da tecnologia disponível. Creio que nesse aspecto consegue concretizar a visão de Ridley Scott em 1982, e este é uma característica comum que encontro nos filmes com Harrison Ford deste século (refiro-me às sagas Star Wars e Indiana Jones). Mas, por si só, isto não basta para fazer um filme… Aliás, de uma forma geral, sente-se que se esforçam demasiado, provavelmente fruto da pressão de um legado com 35 anos.

Se em Blade Runner original a narrativa peca pela extrema simplicidade apesar do imenso significado subjacente, em Blade Runner 2049 criou-se uma rede alargada de personagens e tudo nos é apresentado com total clareza, perdemos a complexidade, e perdemos a oportunidade de reflexão e dedução, acabando com o mistério. Será isto consequência da relação que o público tem actualmente com o cinema? A inocência da década de 1980 já lá vai, e eis-nos aqui em plena revolução digital, num tecido cultural sem tempo para questionar.

De resto, o casting está de parabéns. Ryan Gosling nasceu para este papel, pondo em bom uso a sua permanente tensão. Robin Wright, Sylvia Hoeks e Ana de Armas formam um poderoso trio, interpretando personagens corajosas e muita garra, num perfeito elogio à essência feminina. E já Jared Leto volta a demonstrar como é fixe ter um bom agente em Hollywood. IL

Crítica de Natália Costa: 6.5/10

Apesar de todo o trabalho visual de excelência, Blade Runner 2049 fica aquém do que poderia ser, devido a uma série de pontas soltas desnecessárias e uma certa incoerência quer no ritmo (o protagonista demora duas horas até encontrar a pessoa que procura, para depois tudo se suceder ao mesmo tempo em meia dúzia de minutos), quer no desenvolvimento das personagens (qualquer uma das personagens femininas, particularmente a “humanizadora dos replicantes”).

Dennis Villeneuve é um realizador bastante competente, mas parece-me que – desta vez – se perdeu no deslumbramento das imagens: a cadência do filme é lenta e não justifica as três horas pelas quais se arrasta. Apesar de conseguir algumas cenas geniais (cenários sobretudo e tecnologia que aqui eleva o Her ao estágio seguinte), perde-se de momentos a momentos e acaba por viver apenas da estética e da ideia filosófica transversal ao género, o que para um filme de sci-fi descendente de Blade Runner é dizer muito pouco.

Note-se que se compararmos Blade Runner 2049 com o panorama do cinema atual, então estamos a falar duma obra interessante que nos traz magníficas imagens, e é também essa uma das funções do cinema: fazer-nos viajar visualmente. No entanto, é redutor retirá-lo do seu contexto como sucessor de um dos melhores filmes de sempre.

O casting foi muito bem sucedido, no entanto, uma obra como esta – que inclusivamente tem acesso a muito mais recursos do que a história precedente – poderia (e deveria) ter sido melhor do que o que este talentoso grupo de pessoas nos apresentou! Ryan Gosling fita as suas mãos – à semelhança da personagem que nos trazia em Only God Forgives – com um ar interrogador, tal como o espectador fita o ecrã à espera de algo mais, à espera de que este estivesse à altura da grandiosa temática que fez de Blade Runner um filme de culto, e não apenas que elevasse a imagética desse mito a outro patamar. NC

Crítica de Bruno Fernandes: 9/10

Depois de Sicario e Arrival (alguns, que não eu, incluiriam também Prisoners), Dennis Villeneuve vai numa victory lap crítica incrível, onde parece não falhar. Quando anunciaram que haveria uma sequela de Blade Runner e que era nas suas mãos que estavam depositadas as esperanças de todos aqueles que, de uma forma ou de outra, têm o original como referência, parecia então que essa victory lap estava prestes a acabar.

Repare-se que o filme original de Ridley Scott tem uma história conturbada e assim de cabeça, pelos menos sete cuts diferentes (na famosa edição metal box estão cinco e do que li, ainda há outros dois ou três à solta). Continuar uma história sem versão definitiva é arriscado; e numa altura onde quase todos os grandes clássicos de ficção científica se vêem pilhados com resultados entre o fraco e o verdadeiramente mau, as razões para temer eram muitas. Scott produz, mas a sua consistência nos últimos é a mesma de uma tigela de gelatina.Mas Blade Runner 2049 é, parafraseando o Roy Batty de Rutger Hauer, aquela coisa que não acreditaríamos ver: uma sequela que não só mostra pedir meças ao original em termos visuais, mas persiste nas mesmas perguntas, obsessões existenciais e inquietações que transformaram Blade Runner num marco do género.

Da história deve-se contar o menos possível. Temos a mesma L.A. distópica, a chuva persistente, a escuridão, aquela sensação martelo de que estamos para lá do paraíso possível; e no entanto, a obra de Villeneuve tem uma confiança tal no seu mundo e no que tem a dizer que demora o seu tempo nos corredores filosóficos da questão que atravessa o filme: o que é ser humano? Melhor: vale pena almejar a esse ideal?

A linha narrativa é clara, mas cada personagem secundário, cada pessoa perdida nesta Los Angeles em que os anjos quase sumiram uma adenda à odisseia pessoal de K paralela ao mistério que investiga. Blade Runner 2049 é muito mais visual, as linhas de diálogo frases a meio caminho entre o que se diz e o que se deixa a entender e Villeneuve consegue criar no espectador a empatia por coisas e gente que está lá, mas não existe, que não podem tocar noutras, para milagres que justificam sublevações, para a cena de sexo mais estranha e perturbante dos últimos anos, numa clara impressão de que alguém passou um cheque em branco ao realizador e não lhe pediu satisfações.

Se houver justiça deverá valer finalmente o Óscar de melhor fotografia a Roger Deakins. As influências são óbvias, mas a mais inesperada é, talvez a da mal-amada obra A.I. de Steven Spielberg, que funciona por si só na mesma linha das interrogações deste mesmo filme. Há um ou outro ponto pífio (percebe-se a personagem de Jared Leto; mas é demasiado monocórdica na sua presença para registar na nossa mente), mas o regresso de Harrison Ford justifica-se e o actor tem talvez das melhores performances neste século no tempo que aparece no ecrã. A exploração deste mundo está tão cheia de pormenores e nostalgia, um retro quase analógico que já se mantinha no original, que a homenagem e as novidades que Villeneuve traz juntam-se sem dificuldade e oferecem-nos um filme de sci-fi séria e a sério, um espectáculo que na sua intimidade ressoa cá dentro, sobre a vida real e a procura de nós nos outros, naquele olhar para a palma das nossas mãos que interroga o que andamos cá a fazer. BF

Crítica de Edite Queiroz: 7/10

O que é um filme de culto? É um filme que nos fica para sempre na retina, que não se insere num género cinematográfico (ou se insere em vários), que criou até um novo género (há, antes dele, um neo noir?), que tem um argumento que inquieta, personagens intemporais, uma banda-sonora inesquecível, uma fotografia particular … e a singularidade de qualquer destes elementos poder, em si mesmo, ser um objecto de culto. Blade Runner é tudo isto e muito mais: um dos filmes mais relevantes do cinema americano, que medrou não nas bilheteiras mas no imaginário dos fãs e nas discussões intermináveis que suscitou ainda antes do advento definitivo da Internet-de-todas-as-respostas. Por isso, Blade Runner 2049 é, no mínimo, a sequela mais arriscada da história do cinema americano.

Não poderá dizer-se que o filme de Dennis Villeneuve supere completamente o desafio. Temos K, uma personagem central sem grande densidade (Ryan Goslin poderia ter abandonado, de vez em quando, o seu impecável ar de enfado) que, ao contrário de Deckard (Harrison Ford), não produz grande inquietação sobre a sua verdadeira natureza (Humano? Replicante?). Temos um desfile de personagens secundárias femininas meramente decorativas – Joi, a namorada virtual de K, Luv, a mortífera e pobre substituta de uma outrora doce Rachel, ou mesmo Joshi, que para chefe da força policial faz pouca diferença. Temos também um argumento mastigado, feito de avanços e recuos sobre a condição do protagonista (Humano? Replicante?) e um tempo de espera imenso, demasiado, até encontrar o que verdadeiramente importa: Deckard.

Mas Villeneuve salvou o dia, abdicando do abuso fácil dos efeitos especiais state-of-the-art agora à sua disposição e optando por honrar o essencial: o debate filosófico, projectado numa realidade que (ainda) não é a nossa, do que significa ser humano, das expectáveis mutações dessa ideia, da possibilidade de um dia uma máquina poder ser mais humana que um humano. Acrescentem-se a isto as reminiscências daquela banda-sonora intemporal (agora a cargo de Hanz Zimmer), aquela ambiência trágica, aquela arquitectura futurista-brutalista da cenografia, aquela escuridão permanente rasgada por neons gigantes nas fachadas dos edifícios, aquela chuva que não pára de cair, e revivemos imediatamente a melancolia amarga do primeiro filme. Sentimos que estamos lá. E o importante agora já não é saber se Deckard é ou não um replicante (Ridley Scott deu já cabo do mistério em entrevistas várias) mas se um dia, com tudo o que está para vir, sobreviveremos – com mais ou menos circuitos eléctricos – enquanto seres dotados de afectos e valores. Porque as perguntas persistem, matou-se a saudade sem envergonhar o passado e superou-se o quase impossível desafio. Blade Runner 2049 é filme de culto do futuro. EQ


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

Partilha com os teus amigos