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Stories We Tell
Título Português: Histórias Que Contamos | Ano: 2012 | Duração: 109m | Género: Documentário
País: Canadá | Realizador: Sarah Polley | Elenco: Michael Polley, Harry Gulkin, Susy Buchan, John Buchan, Mark Polley, Joanna Polley, Cathy Gulkin

As famílias são tudo menos estruturas simples; são sistemas interactivos complexos que se modificam delicadamente ao longo do tempo, por vezes sofrendo até transformações dramáticas na sequência de acontecimentos bruscos; mas as mudanças silenciosas são as mais interessantes, já que, de forma imperceptível e inquestionada, podem provocar metamorfoses profundas na dinâmica familiar. Este filme de Sarah Polley (também o seu primeiro documentário) é uma investigação pessoal sobre a sua própria família – o que é, antes de mais, de uma enorme coragem – e tem por isso um impacto muito superior ao de uma história ficcionada com conteúdo semelhante – porque os segredos dos outros despertam um inegável voyeurismo. Muitas vezes, as famílias e suas histórias resultam em argumentos mais poderosos para uma peça cinematográfica do que uma narrativa inventada.

A mãe de Sarah, Diane, faleceu quando Sarah ainda era criança. As recordações da mãe são difusas e provavelmente modeladas pelos mecanismos reconstrutivos da memória, alimentados de informações confusas sobre a sua paternidade biológica. Sarah cresceu a acreditar que os pais teriam tido um casamento feliz mas difícil, já que eram pessoas muito diferentes e com necessidades, dir-se-ia, diametralmente opostas; a matriarca, uma actriz canadiana de renome, encantou-se por Michael Polley, um actor britânico que um dia viu nos palcos. Casaram, tiveram filhos e construíram uma família. Mas Diane era uma mulher vivaça, emocional e permanentemente insatisfeita, enquanto Michael era um homem pacato e tranquilo que não terá sabido corresponder às necessidades de afecto, agitação e novidade da mulher. O facto de Sarah ter sido concebida num período de ausência de Diane em Toronto aguça o número de interrogações que, na idade adulta, se transformaram em questões de resposta premente.

Os segredos familiares são pedaços de vida, por isso reminiscências que podem ser de gestão muito difícil, especialmente quando se trata de um tema como este. O projecto de Sarah Polley parece ter um duplo propósito: por um lado, decifrar o enigma da sua paternidade e, por outro, construir uma espécie de memória familiar composta pelos contributos de todos os elementos do sistema. E aquilo que poderia ter levado a um processo disruptivo de consequências imprevisíveis é antes uma espécie de catarse colectiva que, de alguma forma, conduziu até a um estreitamento de laços quase paradoxal – proeza apenas possível graças à sensibilidade da realizadora no tratamento do material e na organização da informação acerca da sua própria vida. De qualquer forma, não sejamos ingénuos ao pensar que este trabalho seria viável numa qualquer linhagem; veja-se que se trata de uma família unida e (apesar de tudo) altamente funcional, com elementos emocionalmente equilibrados – e não uma high maintenance family ou de subsistemas invertidos. Aqui, cada um se comporta de acordo com o papel que lhe foi biologicamente destinado: os filhos são filhos e os pais são pais; é ainda preciso atentar ao facto de se tratar de uma família de artistas – actores, produtores e cineastas – habituada a um certo acting e a determinado nível de exposição (o que, noutra família, poderia ter sido brutal). São aspectos a assinalar, que de forma nenhuma retiram mérito ao trabalho de Sarah Polley, porque apenas o beneficiam e viabilizam.

O fio condutor da história é a leitura de uma longa carta de Michael que descreve a sua versão dos acontecimentos e da forma como afectaram as relações familiares. Intercalando esta epístola com os depoimentos dos restantes intervenientes (irmãos, parentes e amigos), Sarah ilustra ainda a narrativa com filmes caseiros em super-8, misturando estes registos com reconstruções encenadas por actores. Sem as confrontar, ela realinha as versões dos factos com o cuidado de lhes conferir o mesmo peso no veredicto. O resultado é surpreendente, dando a impressão de que o filme vai ganhando vida de forma orgânica, colocando a própria cineasta na posição de um dos actores ou de mera observadora do processo que revelará a verdade sobre a sua concepção. Não obstante, e isto apenas a Sarah se deve, há cuidado na gestão de uma certa privacidade, da angústia individual, do conflito sempre à espreita, das inevitáveis contradições e dos sentimentos de culpa e castigo – revelando que a verdade das histórias que contamos, no que às famílias diz respeito, não corresponde às perspectivas somadas dos elementos do sistema, mas antes a um relato partilhado com que todos se sintam apaziguados. Só este desfecho poderia transformar um segredo familiar desta magnitude numa memória confortável – e nesse aspecto, Stories we tell é um verdadeiro triunfo.


sobre o autor

Edite Queiroz

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