Lady Bird

por Isabel Leirós

Lady Bird está prestes a abandonar a sua infância, preparada para ser desafiada e construir a sua própria identidade.

Título Português Lady Bird - A Hora de Voar
Ano 2017
Realizador Greta Gerwig
Elenco Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Timothée Chalamet, Lucas Hedges
País EUA
Duração 94min
Género Coming of age, Drama, Teen
Lady Bird
6/10

Lady Bird é o cognome de Christine, uma miúda pré-universitária, prestes a deixar a casa da família e desejosa de definir o seu próprio caminho para longe, o mais longe possível.

Greta Gerwig senta-se a solo na cadeira de realização pela primeira vez e acaba por produzir um título carismático, enternecedor e emotivo, que emana uma grande dose de nostalgia. Pela idade de Gerwig, fica a sensação de que este é um filme autobiográfico, mas já veio esclarecer que não. Em bom rigor, é um filme com o qual qualquer jovem adulto consegue estabelecer uma certa empatia e ligação emocional. Tudo se passa em 2002, com o foco numa das últimas gerações que cresceu sem a omnipresente tecnologia e as suas implicações. Poderia ser esta uma prequela de Frances Ha?

Lady Bird tem todo o ar de quem passa as tardes a curtir Smashing Pumpkins no mp3.

Saoirse Ronan interpreta o papel principal e consegue fazê-lo com uma frescura inebriante, agarrando-nos no olhar melancólico de quem sente cada batida do ponteiro dos segundos. É Christine, aka Lady Bird, que vive em pleno conflito entre a vida actual e o seu futuro, revelando uma imensa vontade de sair de Sacramento e descobrir o que o universo terá para lhe oferecer, mesmo que não saiba ao certo o que poderá ser. Atormenta-a diariamente a relação com a mãe, que sublima na troca de palavras “adoras-me, mas gostas de quem eu sou?”, e paira sobre a família com o distanciamento de quem não se quer revelar mas, ainda assim, reclama por não a conhecerem.

A mãe, com o rosto de Laurie Metcalf, é o contraponto do desejo de fuga de Lady Bird. Apesar da ruína financeira procura manter a coesão familiar e apoiar o futuro da filha, mas o sentimento de revolta desta enche a mãe de frustração. Vivem em tensão constante por não se compreenderem mutuamente, nem tão pouco fazerem um esforço nesse sentido. Afinal, partilham o feitio e a auto-determinação, sem cedência ou compromisso.

 

Neste avassalador ano de ruptura, Lady Bird procura a sua identidade e revela uma enorme dificuldade em gerir as zonas cinzentas da vida. Paira entre cliques do liceu, da malta do teatro aos populares, apaixonando-se pelo intelectual burguês que rejeita o dinheiro (mas não o carro que o pai lhe ofereceu). No caminho errático da auto-construção acaba por destruir também a relação com a amiga de infância, que a adora incondicionalmente e sai magoada pela rejeição.

Com interpretações sedutoras e argumento sentimental, Lady Bird é um filme doce e ternurento, que desenha um sorriso rasgado em qualquer um. Os típicos conflitos familiares da juventude conferem-lhe uma certa familiaridade e confunde: estaremos a reviver as nossas próprias memórias? Não. Pelo contrário, estamos apenas a testemunhar uma construção que pouco ou nada acrescenta à concepção do adolescente, esse ser zangado com o universo, sem motivo ou razão aparente, que só quer rebelar-se contra a autoridade porque sim – ou por não ter nada melhor com que se entreter? A atitude desenfreada e descontrolada de Christine é vazia de tensão, não há nenhum conflito interno em particular, nem nenhuma condição dramática que o justifique. Fica a sensação que Greta Gerwig fez o caminho inverso: começou por idear a personagem, recuperou referências esparsas e criou um pastiche de clichés embrulhado em tons pastel; enfim algo recorrente na sua filmografia.

Mas isto não tira o mérito ao resultado final, que vale muito pelo que é: um filme que merece já lugar de destaque no género coming of age, a par de Boyhood ou The Breakfast Club. Não vale é acalentar grandes esperanças, pois Lady Bird não desmistifica nem descodifica a mente adolescente. Acaba até por nos deixar tão ou mais baralhados que os próprios, que vivenciam o turbilhão em primeira mão.


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