Dans La Maison

por Joao Torgal

Dans La Maison é muito bem conseguido em termos da fronteira que delimita entre a realidade e a ficção...

Título Português Dentro de Casa
Ano 2012
Realizador François Ozon
Elenco Fabrice Luchini, Vincent Schmitt, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas
País França
Duração 105min
Género Comédia, Drama, Mistério, Thriller
Dans La Maison
7.5/10

Estranhos (ou habituais) fenómenos da distribuição cinematográfica portuguesa: dois meses depois do novo filme de François Ozon ter passado por Cannes, estreia entre nós o anterior, Dans La Maison. E, enquanto retrato delicioso do voyeurismo, é uma pena se, tendo estreado em plena silly season, passar despercebido.

Embora de forma lateral, o belíssimo e tragicómico Reality, que passou pelos cinemas portugueses no início do ano, era, através do mediatismo barato e do aproveitamento do showbiz televisivo, uma abordagem a esse desejo de entrada no universo privado alheio. Dans La Maison é profundamente diferente, no sentido que aborda ovoyeurismo pela via da invasão ilegal e interferência total na esfera privada.

O centro da acção é Claude, um desequilibrado jovem de 16 anos que, com um défice social e familiar forte, resolve infiltrar-se na casa de um colega de forma sistemática e relatar tudo o que se passa em textos entregues na disciplina de francês. O que começa por ser uma simples composição passa a algo bastante mais ambicioso e grave, envolvendo o professor Germain, o talento de escrita do aluno e a manipulação da família de acordo com os objectivos literários de ambos.

Dans La Maison

O filme é muito bem conseguido em termos da fronteira que delimita entre a realidade e a ficção, um pouco como também sucedia nesse interessante, mas discreto filme americano chamado The Words (estreado há cerca de um ano). Por outro lado, a junção de peças na trama é paciente, mas ritmada, mostrando um certo lado improvável da aparente família convencional da classe média (Claude fala do seu colega Rapha como sendo o “rapaz normal”). Finalmente, é notável a construção da relação professor-aluno, como Germain acaba por se transpor para Claude no sentido de compensar uma falhada carreira no mundo literário e como isso acaba por ter reflexos no decurso da história.

Há aspectos que poderiam ter sido melhor abordados. A falta de consciência do professor e da sua mulher numa fase inicial é algo inverosímil, há algum surrealismo narrativo excessivo e era escusado lançar algumas ideias sobre a escola, como as pedagogias baratas ou o uso de uniformes, quando depois não as chega a aprofundar. Mas nada que afaste Dans La Maison do belo caminho que desenvolve, especialmente porque o final é visualmente bem bonito e remata a perspectiva voyeurista do filme de uma forma bem interessante.

(SPOILER ALERT:

 

lembram-se do final de Funny Games?)


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