Come Back, Africa

por Isabel Leirós

"A film of terrible beauty", Martin Scorsese

Título Português Come Back, Africa
Ano 1959
Realizador Lionel Rogosin
Elenco Zacharia Mgabi, Vinah Bendile, Miriam Makeba
País EUA
Duração 95min
Género Documentário, Etnoficção
Come Back, Africa
8/10

Quando em 2012 foi lançada uma versão restaurada de Come Back, Africa, o mundo voltou a reflectir sobre a importância histórica deste filme e do seu realizador Lionel Rogosin, um importante activista e demarcadamente político nas suas fitas. O realizador nova-iorquino lutou e viu em primeira mão o fascismo e o racismo durante a II Guerra Mundial, dedicando-se à devida erradicação com a sua obra, fortemente influenciada pelo neo-realismo europeu.

Com Martin Scorsese  a afirmar «a heroic film… a film of terrible beauty, of the ongoing life it captured and of the spirit embodied by Rogosin and his fellow artists.», tornou-se ainda mais urgente revisitar o retrato de 1959.

O carácter muito documental, na medida em que retrata vidas e personagens verídicas a par de um argumento interpretado por actores, regista a vida em Joanesburgo no apogeu do Apartheid, em que a cor de pele ditava a estrutura social e legitimava o pleno uso de racismo e de subjugação. Come Back, Africa é um importante marco no Cinema Africano e da etnoficção.

A narrativa acompanha Zachariah, que abandona a província em busca de trabalho e de sustento em Joanesburgo, numa tentativa de garantir a sobrevivência da sua família. Rapidamente percebe que se entregou voluntariamente a uma vida de prisão, regida pela Lei do Passe aplicada a todas as pessoas negras das regiões tribais que chegavam à metrópole, limitando a circulação até entre bairros, controlando cada movimento e entregando-as à brutalidade policial a cada instante.

Vemos Zachariah a sujeitar-se a trabalhos braçais em condições sub-humanas, as ideias resistentes que questionam o status quo, as parcas condições em que todos habitam. A raiva e o rancor proporcionam a agressividade e a fragmentação da comunidade negra, quando todos os esforços se deveriam unir na luta contra o Apartheid e aqueles que apoiavam o sistema. Mas como? Onde vai alguém a quem tudo se tirou buscar essa força?

Todo o filme carrega um tom de melancolia desprovida de esperança como nunca antes vi. O título Come Back, Africa traduz a nostalgia das personagens, uma vontade imensa de regresso à estrutura tribal e comunitária do passado. Porém, encontram-se em tal labirinto de malvadez humana, que vivem sem horizonte e resignados ao infortúnio.

O filme termina sem final feliz mas sim de forma desesperante, em grito de apelo. Entre as filmagens e o fim do Apartheid, passaram-se mais de trinta anos – uma vida inteira. Milhares de pessoas viveram um quotidiano que, para a maior parte de nós, é absolutamente inimaginável. E é por isto que Come Back, Africa é um registo essencial não a um cinéfilo, mas a todos os que compreendem que o passado da Humanidade tente a repetir-se e que devemos empenhar-nos a cada instante a impedir monstruosidades desta natureza.


Partilha com os teus amigos