No Direction Home: Bob Dylan

por José V. Raposo

Robert Allen Zimmerman, mais comummente Bob Dylan, comemorou 75 anos em Maio. Scorsese revisita aqui os primeiros anos de carreira de Dylan.

Título Português No Direction Home: Bob Dylan
Ano 2005
Realizador Martin Scorsese
Elenco Bob Dylan, Pete Seeger, Joan Baez, Liam Clancy
País Estados Unidos, Reino Unido, Japão
Duração 201min
Género Documentário de música, biografia
No Direction Home: Bob Dylan
8.5/10

Robert Allen Zimmerman, mais comummente Bob Dylan, comemorou no mês passado sete décadas e meia neste mundo. Entre o simbolismo da data e um ciclo a ele dedicado pela Cinemateca, escolheu-se recordar No Direction Home, de Martin Scorsese, datando de 2005; incluído na série American Masters da PBS (que inclui nomes tão díspares como Billie Holiday ou John Cassavetes), a ideia partiu do manager de Bob Dylan, Jeff Rosen. Cobre os primeiros seis anos de carreira de Dylan, incluindo a turbulenta digressão europeia de 1966, e é obra de cinéma verité – um salutar regresso ao passado como Il mio viaggio in Italia, de Scorsese, pedindo emprestado muito material de Dont [sic] Look Back (1967), o icónico documentário de D.A. Pennebaker sobre Bob Dylan.

Procura-se a verdade por entre horas de entrevistas ao próprio Dylan e a contemporâneos, como a antiga namorada (e parceira de capa de disco em The Freewheelin’ Bob Dylan) Suze Rotolo e músicos como Liam Clancy, Maria Muldaur, Mavis Staples, Pete Seeger e Al Kooper – ainda que faltem referências a Karen Dalton. Um dos aspectos notáveis do documentário é a ilustração das influências de Bob Dylan e da folk, com sequências de canções dos irlandeses irmãos Clancy com Tommy Makem, John Jacob Niles ou Odetta. É um documentário em que se pode dispensar as imagens e simplesmente ouvir, se se preferir.

No Direction Home está acertadamente dividido em duas partes. Na primeira, temos o desenvolvimento de Bob Dylan enquanto músico e personalidade artística e na segunda o advento da fase eléctrica, com toda a polémica que daí adveio. O começo com a guitarra e harmónica na mão, vontade de sair por aí e tocar canções próprias e de outrem, as baldas na Universidade do Minnesota e a chegada a Nova Iorque, onde, segundo Tony Glover, crítico musical e músico, lhe fizeram uma macumba, pois “tornou-se demasiado talentoso num espaço de tempo demasiado curto”. Em Greenwich Village torna-se um caldeirão cantante, meio caminho entre Pete Seeger e Woody Guthrie. Alguns concertos no café Gaslight, uma crítica extremamente favorável de Robert Shelton do New York Times e toca de assinar de cruz num contrato da Columbia, recrutado pelo lendário John Hammond. De caminho, ficamos a saber que o escritor James Baldwin também parava no Gaslight – aqui se vê a riqueza dos testemunhos.

Bob Dylan ainda idealista e acústico.

Um dos méritos de No Direction Home, fruto da excepcional montagem, é a constante contraposição entre conterrâneos de Dylan e as opiniões e recordações deste; de particular importância as sequências sobre a sua ascensão: desde o “roubo” de canções a Dave Van Ronk até às reminiscências de Liam Clancy (que em começos de sessentas andava, com os irmãos e Tommy Makem, a esgotar salas e a passear as Aran geansaí pelos EUA), todas elas são de relevo para a construção do mito Bob Dylan.

Parte desse mito é a inexperiência musical de Dylan antes de Nova Iorque. O testemunho de Izzy Young, proprietário do Folklore Center, é sintomático: Bob Dylan, o futuro grande vulto da música norte-americana, nunca tinha visto ninguém tocar banjo, tinha pouco ou nenhum calo musical (salvo quando tocou por Dinkytown, em Minneapolis) e inventou um percurso de vida que envolvia músicos de blues de Chicago cegos, convívios com Mance Lipscomb e viagens pelo rio Mississippi – criatividade não lhe faltava, pelo menos.

Pete Seeger, parente musical de Dylan na linha recta.

Bob Dylan não era nem é um santo; as suas veleidades e faro para aproveitar deixas de outros trouxeram-lhe a fama e o reconhecimento universais. Influenciado pelos beatniks e por Pete Seeger e Woody Guthrie, a partir deles construiu uma base que lhe possibilitou alguma visibilidade, para depois se dedicar a trilhar o próprio caminho, como se verá. Por detrás dos óculos escuros displicentes estava uma boa dose de cinismo, um manager ambicioso (Albert Grossman) e um círculo de gente influente, como Andy Warhol ou Allen Ginsberg.

No meio da altivez revela, contudo, clarividência: aquando do incidente no qual negou a partilha de palco com a namorada de então, Joan Baez, proclama que é impossível estar-se apaixonado e ser-se simultaneamente prudente. Tirada digna de registo e de difusão obrigatória.

Liam Clancy, num dos melhores testemunhos da obra.

Festival de folk de Newport, 1963. Eis a consagração do Bob Dylan de harmónica e guitarra acústica. Jogando entre grandes como Johnny Cash, Howlin’ Wolf e Pete Seeger, deu a mão a Joan Baez e entrou de rompante em palco, tocando várias vezes e, acompanhado de Baez, Seeger e outros, consagrou Blowin’ in the Wind como hino da música popular norte-americana – mais ainda, tornou-se um autêntico standard do cancioneiro de então, com versões de, entre outros, dos Peter, Paul and Mary e Marianne Faithfull.

Bob Dylan esteve no sítio certo, à hora e ano certos – sendo certo que o seu faro para oportunidades lhe granjeou a expansão da notoriedade, a História também o ajudou a colocar-se no centro. Desde a grande marcha pelos direitos civis em Washington, DC, até ao festival de Newport, 1963 (sem esquecer a relação com Joan Baez, que se tornou estrela antes de si) foi “O” ano para aquela fase de Dylan.

Na segunda parte, começa a revolução pessoal e artística de Bob Dylan, que tantos alienou. Os Estados Unidos mudaram (e de que maneira) no dia 8 de Março de 1965: os fuzileiros desembarcaram em Da Nang e deram início à fase operacional da intervenção norte-americana no Vietname e Bob Dylan atacou com Subterranean Homesick Blues, cujo arsenal contava com guitarra eléctrica e bateria, bem como uma letra que nada tinha a ver com o material anterior, em fluxo de consciência. Em toda a honestidade, para este escriba Subterranean será a primeira canção punk da História; preenche vários requisitos: dois minutos e pouco de duração, melodia simples, tempo acelerado, letra mordaz sobre os desterros da sociedade e as misérias da vida, com um toque de completa desordem e Bob Dylan um mestre-de-cerimónias petulante e gozão, um Johnny Rotten dos anos sessenta. Os versos curtos, disparados com uma cadência vertiginosa, reflectem a influência que Allen Ginsberg teve sobre Dylan – de tal modo que até é figurante no vídeo da canção, também ele inovador.

Três dos grandes: Bob Dylan, Pennebaker e Ginsberg.

Se os combates e emboscadas no Vietname se foram agudizando, na frente Dylan a conflitualidade também cresceu. As entrevistas tornaram-se cada vez mais abstrusas, Dylan cada vez mais críptico nas respostas e os assobios e apupos cada vez maiores nos concertos – o famoso grito de “JUDAS!!!!1” em Manchester, em 1966, fica registado em No Direction Home, ajudando à completude da obra.

A recusa em prosseguir com o irritante lugar-comum e epíteto de “Voz de uma Geração” confundiu ainda mais as pessoas, que ainda não tinham conseguido lidar com o fim das canções-tópico e ainda não percebiam a viragem eléctrica de Dylan. The Times They Were a-Changin’, de facto. Afinal, parecia que a terra dos chatos que não queriam mudanças não era a mesma de Dylan, para relembrar Woody Guthrie.

Desta vez, a recepção em Newport já não foi tão calorosa: se os concertos do outrora tímido Dylan tinham o intimismo de uma sala de estar com amigos, os periclitantes caminhos eléctricos valiam-lhe as primeiras vaias e Peter Yarrow queixa-se à câmara que a bateria das novas canções destruiu tudo e tornou Dylan num escravo do volume e do PA. Tão grande foi o choro dos chatíssimos puristas, mas felizmente que Dylan foi em frente, senão adormeceríamos todos com a crescente esclerose da folk tradicional.

Cobrindo apenas os primeiros seis anos de carreira de Bob Dylan, o documentário não abrange todas as outras fases, incluindo a de converso ao cristianismo, o pós-acidente de mota (o documentário termina aqui) e a obra com a The Band. Tal como em Dont Look Back, No Direction Home retrata um músico que sabe que é talentoso e que se tornou uma referência, mas que também se sente desconfortável com o assédio e incompreensão do público (leia-se meros mortais) e que tem um manager, Albert Grossman, a tentar retirar dele o maior rendimento possível. Também esta simbiose ajudou a carreira de Dylan, o problema foi o caminho que ela tomou: o da indecisão e de certa frustração. Vistas bem as coisas, o título da obra de Scorsese (e o verso da canção, claro está) é apropriado para a situação de Bob Dylan em 1966: sem rumo, ainda que confesse, a um repórter italiano, que só quer regressar a casa, que tem medo de ter um acidente de avião no Tennessee ou na Sicília (isto em inglês rima, prometo).

O Dylan eléctrico, alienado dos puristas.

A 29 de Julho de 1966 sofre um acidente de mota, sendo a real extensão das lesões uma incógnita. Certo é que serviram de base (ou desculpa) para um hiato ao vivo de oito anos, mas não de estúdio – o óptimo John Wesley Harding viria já em 1967. Também em 1966, os Beatles dariam o seu último concerto (excluindo o concerto de 1969 no terraço dos escritórios da sua editora, a Apple), no saudoso Candlestick Park – também fartos da pressão e da histeria, como Dylan. Não enchendo estádios como os Beatles, certo é que Dylan deixaria estarrecidos muitos adolescentes e jovens por esses EUA e Europa fora – alguns britânicos, bastante tontos por sinal, proclamam que aquele já nada lhes diz e pontapeiam-lhe o carro, ao mesmo tempo que lhe pedem autógrafos.

Isto andava tudo ligado, parafraseando Eduardo Guerra Carneiro.

Bob Dylan foi sempre ambicioso e hábil na construção da sua arte e da sua carreira. Teve sorte nas colaborações, que pessoas como Joan Baez e Al Kooper impulsionaram a sua carreira e a sua sonoridade, seja em Newport ou a criar em estúdio; mais ainda, ter apanhado o revivalismo folk após a asfixia dos anos do Macartismo foi outro enorme golpe de sorte para o seu talento – talento esse que se revelou na presciência de canções como A Hard Rain’s a-Gonna Fall.

Volume contra o atavismo.

Quis estar na linha da frente da luta política, actuando em grandes manifestações, mas afastou-se quando julgou recomendável (o hiato ao vivo de fins de sessentas acabaria por excluí-lo de Woodstock e afins, bem como da violência crescente nas ruas dos EUA). Reinventou-se e estabeleceu-se como entidade monolítica e fundamental da cultura norte-americana do século XX (influenciando grandes como Townes Van Zandt, de caminho), continuando, ao contrário de muitos contemporâneos, a ser relevante no século XXI – apesar de muitas das suas opções ao vivo deixarem a desejar, a grandeza de Dylan continua lá, tal como a sua Never Ending Tour. Triunfou e os maledicentes anti-electricidade são agora reformados imobilizados em sofás com rendas.

Nunca como um completo desconhecido nem como uma mera pedra rolante.


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