Alice in den Städten

por Luís António Coelho

Wenders é um realizador para quem o sentido das viagens é a própria viagem dos sentidos

Título Português Alice nas Cidades
Ano 1974
Realizador Wim Wenders
Elenco Rüdiger Vogler, Yella Rottlände, Lisa Kreuzer
País Alemanha Federal
Duração 110min
Género Drama
Alice in den Städten
7.5/10

Alice nas Cidades costuma ser apresentado como o primeiro filme da trilogia de road movies que Wim Wenders realizou nos anos 70 e que inclui também Movimento em Falso e Ao Correr do Tempo. Costuma também ser reconhecido como uma espécie de antecipação do título que, dez mais tarde, consagraria o nome do cineasta alemão a nível mundial e que se tornaria, até hoje, o seu filme mais emblemático, Paris, Texas. No entanto, apesar de poder ser tudo isso, Alice nas Cidades é também mais do que apenas isso, ou não fosse o filme que permitiu a Wenders encontrar (na sua quarta longa-metragem) o seu próprio estilo e a sua identidade artística.

A história de Alice nas Cidades, ao mesmo tempo que parece ter sido escrita de improviso, à medida que as filmagens iam decorrendo, pertence a uma época que já não volta. Uma época em que ainda se podia ter a ilusão de querer compreender a América, em que o mundo ainda podia ser fotografado com máquinas Polaroid e em que uma mãe ainda se atrevia a deixar a sua filha de 9 anos, num país distante do seu, aos cuidados de um homem que conhecera no dia anterior.

Esse homem é Philip Winter (Rüdiger Vogler), um jornalista alemão, solitário e desencantado, que quis atravessar a América para poder escrever sobre ela, mas que nessa viagem apenas conseguiu tirar fotos incapazes de espelhar a realidade que encontrou. Quando se prepara para regressar ao seu país, depara-se com um problema no aeroporto, que impede que o voo se realize. É nessa altura que conhece Lisa e a sua filha Alice (Yella Rottlände), que enfrentam o mesmo problema que ele. Devido às circunstâncias, Philip acaba por travar amizade com as suas conterrâneas e partilha com elas um quarto de hotel durante a noite.

Na manhã seguinte, no entanto, o jornalista descobre uma carta de Lisa a dizer que se foi embora e que deixa a filha aos seus cuidados. Ela promete reencontrá-los em Amesterdão, para onde Philip e Alice terão de viajar na impossibilidade de seguirem directamente para a Alemanha, mas a verdade é que Lisa falha esse compromisso. É então que começa a viagem de Philip e Alice para encontrarem a avó desta. Uma viagem, de início, marcada pela animosidade e incompreensão, devido ao confronto de personalidades entre o jornalista inadaptado ao mundo dos adultos e a criança demasiada madura e insubmissa para a idade, mas que gradualmente vai estabelecendo uma cumplicidade entre os dois.

Embora se mantenha até ao fim a dúvida sobre se esta dupla improvável irá conseguir encontrar a avó da criança, não é esse o objetivo principal do filme. Wenders é um realizador para quem o sentido das viagens é a própria viagem dos sentidos. O que lhe interessa é a transformação que ocorre nas suas personagens ao mesmo tempo que se deslocam fisicamente e ganham uma nova consciência de si mesmas. E mesmo que, por vezes, alguns comentários de Philip pareçam demasiado filosóficos e afectados, a liberdade de movimentos que ele e Alice revelam e a precisão com que a câmara as acompanha conquistam a confiança do espectador e despertam-nos, também, a vontade de partir. O que o jornalista não conseguiu alcançar na América (uma viagem transformadora, de redescoberta do mundo, dos outros e de si mesmo), vai conseguir atingir no centro da Europa, com a ajuda de uma criança de 9 anos, tão perdida e só quanto ele.

Exemplar na maneira como traduz a melancolia e inquietação das personagens é, também, a música dos Can, lendária banda alemã que marcou o krautrock dos anos 70. A sua composição é tão decisiva para o impacto do filme quanto a de Ry Cooder seria para a história de Paris, Texas. E, já que falo em música, não posso deixar de registar o facto de Alice nas Cidades – que voltou a ser projectado nas salas de cinema, em Portugal, dois dias antes da morte de Chuck Berry – incluir imagens de um concerto do pioneiro do rock a interpretar o tema Memphis Tennessee.


Partilha com os teus amigos