Thor: Ragnarok

por Bruno Ricardo

Humor rasteiro e inteligente, acção bem filmada e Hemsworth redescobrindo-se como actor de comédia. Uma diversão pegada.

Título Português Thor: Ragnarok
Ano 2017
Realizador Taika Waititi
Elenco Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Mark Ruffalo, Cate Blanchett, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Anthony Hopkins, Clancy Brown
País EUA
Duração 130min
Género Comédia
Thor: Ragnarok
8/10

 

“Que escolha estranha!”, pensei eu quando anunciaram Taika Waititi como o homem responsável pelo terceiro filme de Thor como protagonista. É verdade que este se tinha tornado no herói mais aborrecido de todo o universo Marvel, fruto de uma abordagem quase clássica por Kenneth Branagh e de um equívoco chamado Alan Taylor a realizar o segundo capítulo da saga do deus nórdico do trovão (pese um terceiro acto inventivo). Mas Waititi? Eis o camarada responsável por uma série de comédias secas e imprevisíveis dos antípodas, filmes como o divertidíssimo What we do in the shadows e o excelente The hunt for the wilderpeople. Já sabemos que a relação anterior da Marvel com realizadores de tendência autoral não é a melhor (como o comprova Egar Wright), portanto ou esta era uma tentativa de levar Waititi a moderar-se na sua primeira aventura forta da Nova Zelândia ou então o estúdio estava com intenção de fazer uma verdadeira e real comédia; e o material promocional indicava que esta segunda hipótese era muito mais próxima da realidade.

O filme comprova-o: Thor: Ragnarok é a primeira comédia do estúdio, uma obra onde para lá de tudo o resto – e a história é basicamente um mapa de filme, levando os personagens do lugar A para o lugar B – a ideia é diversão e até alguma subversão. O que é estranho é que a palavra Ragnarok tem conotações apocalípitcas nas línguas nórdicas e a aparição de Hela, a deusa escandinava da Morte, parece indicá-lo. O herói Thor anda algures no universo à procura de informações acerca do seu pai e quando regressa a Asgard, encontra o seu mundo em desleixo pela acção de Loki. No entanto, a apriação de Hela leva ambos a escapar e a iniciar um périplo pelo universo que é, sabemos logo, o grande objectivo do filme. Thor acaba num planeta de gladiadores, reencontra Hulk e tudo se torna ainda mais estranho. O que surpreende é o quão divertido Thor: Ragnarok é. Não se trata de uma ou de outra tirada cómica: cria de facto situações de comédia propositada, encoraja a improvisação (e note-se a diferença para a saga Star Wars, onde recentemente uma dupla de realizadores foi despedida por este memso motivo) e funciona como um coro grego de sátira subtil ao universo de super-heróis, de forma mais subtil do que Deadpool, por exemplo. Thor não é aqui um deus campeão, passa várias vezes por tolo bem intencionado e gabarolas que é algo das piadas de toda a gente. As próprias relações existentes noutros filmes são aqui abordadas num prisma diferente: a irmandade de Loki e Thor, antes de contornos épicos  e profundos, soa aqui muito mais real, como dois irmãos que se chateiam e são o oposto um do outro, mas família é família. Waititi mantém a sua sensibilidade intacta no seu filme comercial, o que não é coisa de pouca monta, compreendendo o sentido de puro gozo e diversão destes filmes, enquanto entende claramente a iconografia do épico inerente ao género.

Os terceiros filmes dos heróis marvelianos têm-se caracterizado por alguma subversão da fórmula (alguém se recorda do que aconteceu ao Mandarim no terceiro Iron Man? Tipo isso), mas isso aqui é esticado e há, por uma vez rara, que um estúdio habitualmente acomodado concluiu que o dinheiro ganho noutros filmes já chegava e era altura de correr algum risco. Valeu bem a pena, porque Thor: Ragnarok é um mimo: há surpresas verdadeiramente ridículas ao longo do filme (incluindo o cameo mais fora de tudo deste ano) e Jeff Goldblum a poder ser o mais Goldblumiano possível. Lark Ruffalo e Chris Hemsworth são fogo posto (um ardente, o outro brasa leve como diria Hulk) e apesar de papéis escritos algo em cima do joelho, há verdadeiramente espaço para heróínas e vilãs brilharem e deixarem marca. No entanto, todo este esquema montado para causar diversão funciona ocasionalmente contra o filme em pontos importantes. Quando é pedido ao espectador que que desça um pouco às emoções, principalmente num mommento em particular, torna-se difícil e embora se lide com temas até bastante pesados como escravatura ou genocídio, embora pela rama, o filme parece desejar ser a festa e a meditação quando só há espaço para uma e a música sai das colunas em volume demasiado elevado para dar espaço a tudo o mais. Aqui, Taika Waititi não consegue o equilíbrio de outras obras suas anterioers e a ideia principal do filme de renovação perde-se no meio da gargalhada.

Ainda assim, a liberdade que foi dada ao realizador é surpreendente e isso ajuda mais o filme do que prejudica. O humor é rasteiro e inteligente em simultâneo, a acção bem filmada e Hemsworth, redescobrindo-se como actor de comédia, nunca esteve tão à vontade no papel como neste filme. Toda a gente, aliás, passa a ideia de uma diversão pegada e até Cate Blanchett aprecia uma das poucas oportunidades de se colocar fora de dramas e com espaço para simplesmente ser mais marota do que má. Apesar das referências habituais ao universo Marvel, sobrevive como filme é é de uma tolice saudável e imensamente divertida. Pegando na deixa surreal que atravessa as duas horas e meia de duração, é um verdadeiro enthortenimento.


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