Harry Potter e a Pedra Filosofal (aniversário 25 anos)

por Pedro Rolino
Harry Potter e a Pedra Filosofal (aniversário 25 anos)

Entre as fábulas animadas da Disney em português do Brasil e os filmes do Spider-Man de Sam Raimi, havia ainda umas quantas outras cassetes cujas histórias inspiravam as brincadeiras de fim de semana em casa da minha avó. Algumas estavam longe de ser apropriadas para a minha idade (poupe-se o meu feitio medroso), mas todas alimentavam a minha imaginação. Quando me aborrecia de uma, bastava rebobinar a fita, devolvê-la ao devido lugar e procurar a seguinte.

Foi numa das repetições deste ritual que dei com um estojo de VHS onde, numa impressão em tons de verde, o claro sobreposto ao escuro, se dispunham três figuras centrais, jovens um pouco mais velhos do que eu, e uma espécie de criatura élfica de ar preocupado, a espreitar do canto inferior esquerdo. No topo, em letras douradas, lia-se Harry Potter e a Câmara dos Segredos, embora tal informação servisse de pouco ao meu eu de cinco anos, ainda analfabeto. Sabia apenas que a cassete pertencia ao meu tio – leitor dos romances muito antes de existirem os filmes – e foi com ele que vi então o filme, dobrado em português de Portugal, enquanto o ia fustigando com perguntas por cima de quase todas as cenas.

A certa altura, talvez para me provocar, avisou-me de que tinha começado pelo meio da história. Longe de me afastar, porém, a tomada de consciência plantou em mim a ideia de que, se existia um “antes”, passaria os próximos dias à sua procura.

Cheguei a Harry Potter e a Pedra Filosofal após uma visita à secção de filmes do Carrefour de Gaia, já bastante mais descansado por ter finalmente em mãos o passado que me escapava. Seguiu-se um período de repetições quase metódicas, umas vezes do filme inteiro, outras apenas de trechos a que me apetecia regressar. Havia tardes em que me prendia ao que acontecia entre Harry, Ron e Hermione e outras em que bastava a música a entrar sobre um plano de Hogwarts para justificar mais uns minutos diante da televisão.

Nesse início, a magnitude de Harry Potter foi-me acertando devagar e quase sempre por acaso. Lembro-me de apanhar no telejornal notícias sobre as filmagens de Cálice de Fogo e de descobrir, com algum espanto, que por detrás da magia havia câmaras, luzes artificiais e fundos falsos. Ao mesmo tempo, começava também a reparar que aquelas caras não pertenciam realmente às personagens: tinham nomes próprios, cresciam mais ou menos ao mesmo ritmo que eu e apareciam noutros filmes a fazer coisas completamente diferentes. Devo, portanto, a Harry Potter a compreensão de que representar era um ofício.

Vistos os filmes, faltavam-me os livros, os quais requisitei um a um na biblioteca da minha escola de ensino básico, com a pressa de quem se via obrigado a devolver um volume para poder levar o seguinte. Li a coleção e reli vários títulos, o que me valeu, pela primeira e única vez, o prémio de melhor leitor do ano. Claro que o critério assentava exclusivamente no número de requisições, ou duvido que a reincidência tivesse resistido à apreciação do júri.

Talvez por ter conhecido este universo por uma ordem tão pouco recomendável, sempre me impressionou particularmente aquilo que Pedra Filosofal oferece de início. Ao acompanhar um rapaz a quem quase tudo foi negado até à descoberta de que existe um mundo inteiro à sua espera, o primeiro livro constrói, pelo caminho, regras, lugares e relações que os volumes seguintes transformam em consequências. A sua adaptação ao cinema precisava, por isso, de preservar mais do que a sucessão dos acontecimentos. E é precisamente nesse quesito que o argumento de Steve Kloves e a realização de Chris Columbus encontram um dos mais eficazes inícios de saga alguma vez filmados. Em poucos minutos, sabemos de onde vem Harry, sentimos a pequenez da vida que os Dursley lhe reservaram e entendemos por que motivo uma carta representa muito mais do que a admissão numa escola.

Columbus não se imaginaria, de todo, como a escolha mais excêntrica para um projeto desta natureza, e, de facto, convém relembrar que Steven Spielberg foi o primeiro realizador cogitado, enquanto Terry Gilliam, de Monty Pithon and The Holy Grail, se destacava como uma preferência de J.K. Rowling. O primeiro trazia, no entanto, experiência de Home Alone e Mrs. Doubtfire, dois exemplos bastante claros da sua capacidade para trabalhar com crianças sem perder de vista o público adulto. Tão interessante como a disputa pelo lugar é o envolvimento com que abordou o material após a filha o convencer a ler os romances. A insistência com que procurou demonstrar ao estúdio a sua visão não revela apenas uma curiosidade de produção, mas sim uma atitude que acabaria por moldar todo o filme.

Pedra Filosofal trata-se, nas suas mãos, de uma obra que corta bastante do original sem transmitir, na maior parte das vezes, a sensação de o ter rematado. Com Kloves, elimina, comprime e reorganiza acontecimentos, mas preserva-lhes a progressão essencial. Percebe-se-lo logo no arranque, quando o longo dia dos Dursley que abre o primeiro capítulo cede lugar à chegada de Dumbledore, McGonagall e Hagrid a Privet Drive. O mistério surge em primeiro plano, para só depois ficarmos a conhecer o rapaz fechado na dispensa debaixo das escadas.

A narrativa beneficia dessa confiança também no que se mostra diante da câmara. Filmado quase sempre de frente, o plano respira e escusa-se de grandes exibições formais quando o cenário e os acontecimentos lhe bastam. A contenção acaba por proteger o filme de vários maneirismos associados ao cinema comercial do início dos anos 2000 e encontra uma das expressões mais claras no contraste entre a casa dos Dursley, rígida, ordenada e dominada por tons baços, e Hogwarts, que se abre em madeira, pedra, velas, corredores e profundidade.

Muito desse mérito compete naturalmente à direção artística de Stuart Craig, responsável por uma arquitetura entretanto quase indissociável da imagem mental dos livros. A fotografia de John Seale acompanha-a com discrição e permite que o teto encantado, as escadarias móveis ou o tabuleiro de xadrez ocupem o centro da imagem sem que a câmara lhes dispute a atenção.

Nem tudo sobreviveu com a mesma elegância, claro. Os efeitos visuais denunciam por vezes a idade, sobretudo no recorte dos corpos sobre as vassouras e em algumas criaturas digitais. O troll das masmorras, que em tempos me obrigava a desviar os olhos do ecrã, inspira-me hoje, sobretudo, a manter a ilusão da inocência para que as cenas não percam o encanto.

A composição da banda sonora, levada a cabo por John Williams segue um rumo próprio e surge determinada a não deixar nenhuma peripécia entregue ao silêncio. Aproxima-se, em alguns momentos, de uma ligeira overdose, porém perfeitamente condizente com a escala emocional empregue. Além disso, provou-se umas das decisões que mais rendeu, já que o tema originalmente associado à coruja Hedwig se converteu na assinatura musical de todo o universo, hoje suscetível de o convocar antes sequer de surgir no ecrã qualquer imagem.

No que respeita aos atores, Columbus e o produtor David Heyman reuniram, sem dúvida, a nata da representação britânica e irlandesa. A serenidade de Richard Harris, a precisão cortante de Maggie Smith, as pausas calculadas de Alan Rickman e o afeto desajeitado de Robbie Coltrane não só conferem densidade ao elenco secundário, como ainda contribuem para criar uma autoridade adulta que torna aquele mundo simultaneamente mais estranho e mais credível. Já Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson, o trio de protagonistas, estão longe do polimento dos veteranos que os rodeiam, e o filme agradece. Se Radcliffe encontra no riso dócil e numa certa melancolia natural a vulnerabilidade de Harry, Grint possui desde o início um extraordinário instinto para a reação cómica, assim como Watson transforma a teatralidade num traço bastante convincente de Hermione, primeiro irritante, depois progressivamente indispensável. Há, entre os três, vários instantes em que assistimos às crianças antes das personagens. Contudo, 25 anos corridos, parecem-me menos falhas a apontar-lhes do que parte do encanto de as termos acompanhado nessa fase.

Nesse sentido, é exatamente o intervalo de um quarto de século que concede entretanto um relevo inesperado ao que, em 2001, carecia ainda do voto de confiança de milhões de leitores de Harry Potter. As sequelas alteraram cores, guarda-roupa, tom e até a própria geografia dos cenários, mas jamais poderiam recomeçar verdadeiramente do zero, uma vez que Pedra Filosofal, para além de preservar o imaginário de Rowling, elevou símbolos próprios que acabaram por contaminar a forma como uma geração inteira passou a imaginar os livros.

É nesse aspeto, muito mais do que nos números ou na dimensão industrial que a franquia veio a alcançar, que realço a sua importância. O sucesso de um fenómeno nada prova, por si só, acerca da qualidade de uma obra. Todavia, a capacidade de um filme para cunhar imagens, sons e rostos num universo literário sem o diminuir ajuda a explicar por que motivo Harry Potter se tornou aquela que considero, provavelmente, a obra de fantasia mais influente da passagem do século XX para o XXI.

Agora que a reposição devolve o filme ao grande ecrã, poucos meses antes de a estreia original completar o seu 25° aniversário, vou assistir pela primeira vez no cinema a uma história que sei praticamente recitar de cor. De certa forma, encerra-se um ciclo iniciado diante de uma televisão em casa da minha avó. Regresso por vontade própria e à procura de coisas que conheço de antemão, com a diferença de já não ser preciso rebobinar.

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