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São Jorge
Título Português: São Jorge | Ano: 2016 | Duração: 112m | Género: Drama
País: Portugal | Realizador: Marco Martins | Elenco: Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, José Raposo, Beatriz Batarda, Gonçalo Waddington

De noite, um homem vela o filho que dorme. Na casa onde vive, amontoam-se parentes e, durante os dias, amigos, vizinhos e colegas. Ao jantar discute-se a falta de trabalho, os subsídios ou a falta deles, as dificuldades da vida. Jorge precisa de cuidar do filho e de resgatar a namorada desavinda para uma vida familiar antes que ela, uma imigrante com um emprego precário, desapareça do país com o filho nos braços à procura de uma vida melhor. Mas para isso precisa de dinheiro, e por essa razão aceita um trabalho nocturno numa empresa de cobranças difíceis, disposta a explorar os dotes físicos de um pugilista desempregado. Grandes são as ironias de um destino como o de Jorge, que não tem outra possibilidade senão a de cobrar dívidas à força para poder pagar as suas.

Nuno Lopes queria fazer um filme sobre boxe e voltar a trabalhar com Marco Martins, doze anos depois de Alice. Foi dessa vontade que nasceu São Jorge, mas rapidamente a vontade foi ultrapassada pelo processo. Ao longo de cinco anos, o projecto a quatro mãos desenvolveu-se organicamente por via da investigação profunda dos bairros sociais, dos clubes de pugilismo e dos testemunhos de quem os povoa, foi invadido pelos factos e transformou-se numa narrativa de cariz social em que ficção e realidade se misturam. Podemos centrar-nos na impressionante transformação física de Nuno Lopes (que terá passado por vários meses de treino para adquirir o corpo e os movimentos púgeis), mas o que realmente emociona é a dimensão psicológica da personagem que, movida pelo instinto de sobrevivência, parece conseguir resistir a um contexto inescapável. Há qualquer coisa em Jorge que não verga e a cada dia se supera, um desânimo profundo que não o imobiliza e uma brutalidade que nunca o vence: Jorge não pode parar, apesar do fardo que carrega e que a câmara, pesando-lhe insistentemente nos ombros, simboliza. Ele é apenas uma das muitas vítimas dos anos de austeridade recentes, mas o drama pessoal que nos é relatado, no cenário degradado dos bairros da Jamaica (Seixal) e da Bela Vista (Setúbal), poderia ser anterior à chegada da Troika e certamente que se repete depois da sua saída.

São muitos os méritos de São Jorge (o desempenho de Nuno Lopes ficará na memória, tanto ou mais do que em Alice), mas o seu maior impacto advém do ultra-realismo com que nos esbofeteia, obrigando a contemplar uma verdade que tantas vezes escolhemos ignorar. Se a história ficcionada não bastasse, as palavras dos muitos não-actores que participam no filme – habitantes dos bairros sociais onde foi rodado – contextualizam as angústias do protagonista e inserem-nas numa reflexão mais lata, denunciando em definitivo um problema que não deveria ser engolido pelo suposto fim dos anos de crise. A Troika foi-se embora, mas não para os homens, mulheres e crianças dos bairros da Jamaica e da Bela Vista, ou ainda de Santa Filomena, do Padre Cruz, da Quinta do Lavrado, da Zona J, do Ingote, do Aleixo e de tantos outros por essa país fora – onde moradores vivem ainda amontoados, sem trabalho, sem dinheiro, sem acesso à educação e à saúde, às vezes com fome, vulneráveis a todo o tipo de problemas sociais e de criminalidade.

Mas o percurso crístico de Jorge, relevando a sua dimensão de vítima, transporta também uma esperança, a de alguém que não sucumbe às suas adversas circunstâncias, da mesma forma que o final em aberto permite a cada espectador escreva a parte em falta da sua história e assim decida o que lhe poderá acontecer. Ressalva o filme, nos seus créditos finais, que a realidade degradada a que assistimos está hoje inteiramente recuperada pelos residentes daqueles bairros, também eles capazes de fazer um pouco mais e melhor com o pouco que têm. É talvez esse o manifesto do enorme filme de Nuno Lopes e Marco Martins. Talvez não seja assim tão custoso desviar a atenção para os que moram mesmo aqui ao lado, perceber que a crise económica continua a mesma para tantos que ainda a vivem e canalizar esforços sociais e políticos para coisas mais essenciais e urgentes do que as faustosas iluminações que abrilhantam a capital do império durante a época natalícia. A história de Jorge é ainda a de muitos portugueses que, perante as dificuldades que enfrentam, se vêem obrigados ao paradoxo de encontrar soluções menos ortodoxas para assegurar uma vida digna. Por isso, a cruz que ele carrega é de todos nós.


sobre o autor

Edite Queiroz

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