City Lights: orquestrado ao vivo na Casa da Música

por Isabel Leirós

Em Fevereiro 2017, a Casa da Música do Porto exibiu o filme mudo orquestrado ao vivo.

Título Português Luzes da Cidade
Ano 1931
Realizador Charlie Chaplin
Elenco Charlie Chaplin, Virginia Cherrill, Florence Lee, Harry Myers
País EUA
Duração 87min
Género Comédia, Mudo
City Lights: orquestrado ao vivo na Casa da Música
10/10

Escrever sobre um filme de 1931 é uma tarefa arrojada: pensado e rodado num tempo tão distante do nosso, que a realidade narrada já se transformou em pura ficção. O mundo estava em mudança, os loucos anos 20 já se tinham despedido abrindo a porta à Grande Depressão da economia norte-americana, que asfixiava as franjas da sociedade – ao passo que as elites mantinham a sua vida de prosperidade.

A desigualdade e a injustiça é um tema recorrente nos filmes de Charlie Chaplin, o homem que mudou o Cinema, o exímio contador de estórias sem voz e a preto-e-branco, e este City Lights não é excepção. Na filmografia do cineasta, argumentista, actor e visionário em geral, situa-se entre os clássicos Gold Rush (1925) e o Modern Times (1936).

City Lights é uma comédia romântica bem hollywoodesca: o Tramp conhece uma florista e apaixona-se. Quando percebe que esta é cega, convence-a de que é um homem de posses e ajuda-a a sair da pobreza. Afinal, quem gostaria de um vadio sem dinheiro e roupa rasgada? Empenhado e trabalhador, arranja um trabalho honesto e duro, para lhe entregar todo o dinheiro que consegue arrecadar. A par disto, o Tramp conhece um magnata cuja amizade só se revela em plena embriaguez, e ainda consegue meter-se em apuros com a polícia.

Como todos os filmes de Chaplin, é na simplicidade do argumento e da execução que se revela a sua riqueza. As técnicas modernas de produção ainda não tinham sido inventadas e os actores desprovidos de som insistem no exagero, no excesso e também na rigidez perante a câmara. É neste silêncio a dois tons que entra a música e desempenha um papel principal!

Assisti em Fevereiro de 2017 o filme quase-centenário na Casa da Música do Porto, orquestrado ao vivo pela prata da casa e toda a minha percepção sobre o que seria ver filme naquele tempo mudou. A alegria, a melancolia, as vozes, cada som – todos transportados pelos acordes sinfónicos e com uma classe como há muito não se vê no grande ecrã. A Sala Suggia esgotou e encheu-se de gargalhadas ruidosas, de suspiros e de aplausos. Foi uma redescoberta de um género de Cinema e a imersão numa experiência revivalista, o regresso a um passado esquecido e em que a simplicidade das histórias contadas preenchiam o olhar e a imaginação dos espectadores.


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