O dia 15 de Agosto até pode ser feriado, mas em Paredes de Coura nada parou (salvo uma oração ou outra, dada ser dia da Assunção de Nossa Senhora), nem sequer o calor que marcou a meteorologia desta edição. Depois de um dia com menos relevância, a programação com assunto voltou forte e feio, com uma consistente armada inglesa a fundear no Coura e, para rematar o dia, uma onda de passado a tresandar a futuro.
Cassandra Jenkins – Palco BacanaPlay
A folk e o arvoredo de Coura são simbióticos, mais ainda se a voz de quem está a actuar for um sussurro semelhante a uma ligeira e agradável brisa sonora. Cassandra Jenkins, cantautora nova-iorquina (que chegou a colaborar com Craig Finn), estreou-se nestas paragens do Alto Minho em formato banda, partilhando connosco (sobretudo) My Light, My Destroyer, álbum editado há um ano e pouco e que assinalou uma evolução na sua composição.
Daí retirou, logo para começar, Devotion. Às subtilezas da interpretação instrumental contrapuseram-se os desenganos da letra sobre confundir desespero com devoção. Por maleitas – físicas e mentais – se continuou em Aurora, IL, desta feita por Covid e solidão durante digressões, aqui com mais sangue na guelra do que em estúdio, a raiar os Big Thief. Tendo “Lisura” por apelido, Jenkins foi levando a água ao seu moinho, servindo-nos os ditames emocionais de Omakase e tornando-se ela própria a chef que nos foi servindo nigiris audíveis. Em Michelangelo dá-nos uma sublime interpretação de uma grande malha; o (para nós) humor negro de versos como “there’s a fly around my head, waiting for the day I drop dead” e “you’re a virus and you come back at the first sign of weakness” aliado ao duelo de guitarras eléctrica e acústica resultou no indubitável momento cimeiro do concerto.
Quando deixámos Cassandra Jenkins e sua banda, entregavam-se estes à apropriadamente intitulada Hard Drive. Mesmo ainda a decorrer, gravado estava já o seu concerto no disco rígido de memórias desta edição.

Cassandra Jenkins
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Geordie Greep – Palco Vodafone
Depois de duas grandes vitórias com os enormes (e, até ver, saudosos) black MIDI (em particular a goleada à chuva de 2023), Geordie Greep, dínamo criativo com pernas, traz o seu projecto a solo a Coura. Apostado em libertar-se das grilhetas (quais, que se havia banda que fazia o que lhe dava na telha eram os black MIDI), andou a gravar um pouco por toda a parte – incluindo no Brasil, o que será notório – e editou, no ano passado, o belíssimo The New Sound.
Ainda o concerto estava a quase meia hora do seu começo e Greep e banda faziam um derradeiro soundcheck que já arrancava um coro e uns saltos. Este já estava ganho e ainda nem tinha começado.
O hellfire dos Black MIDI deu lugar ao calor da conexão Inglaterra-Brasil que Greep se lembrou de edificar. Logo para começar, canta, em Walk Up, qual Frank Sinatra do quarto esquerdo, versos sobre prostituição e doenças sexualmente transmissíveis (estas como punições contra “executive cunts”) com toda a naturalidade.
As taradices (recordemos que a capa de The New Sound é de Toshio Saeki) não se ficaram por aí. Como bom provocador que é e como gajo que gosta de subir a parada, puxa de Blues e hilariante e graficamente narra as virtudes e fetiches da personagem da canção, adepta ferrenha do prazer solitário (chamemos-lhe assim). Bom saber que o edgelord está vivo e de boa saúde artística.
Depois do estardalhaço noise e de ser um filho artístico de malta como Greg Ginn, John McLaughlin ou Robert Fripp nos Black MIDI, Geordie Greep soa agora a um encontro daqueles com Sérgio Mendes, Jorge Ben ou Tom Zé, como bem se ouviu em Terra. Quando finalmente pega na guitarra, alinha-se com os companheiros das guitarras num extremo do palco e a partir daí formaram-se facções sonoras entrecortadas por um solo de bateria e tanto. Para os mais saudosistas, é impossível negar que o espírito exploratório dos black MIDI está bem presente.
O samba prog punk caiu no goto da plateia e, qual Mar Vermelho de Moisés Greep, abriu-se e começou o trânsito de crowd surf no IC-Coura até porque, pelo que se via lá no relógio lá atrás na projecção (uma espécie de hora legal de Coura), o tempo urgia. O próprio Greep também não ficou quieto, continuando a ensaiar uns quantos passos de samba enquanto se encontrava livre da canga da guitarra – agora é tipo para mandar os outros trabalhar.
Anti-herói sónico sem capa, Greep imita pássaros, pergunta por onde anda Cardi B e deambula pelo palco como um filósofo a tentar desfazer um nó mental. Fosse ele um artista em fase decadente e balofa da carreira e os solos seriam uma indulgência, mas aqui são um trunfo, uma jarda para levantar isto tudo.
Mas nem só das suas façanhas ou da interligação neo-prog entre guitarras eléctricas e piano rezou a actuação. King David-Ike Elechi, baterista incansável, fez jus ao nome próprio e mereceu o prémio “casa das máquinas”, carburando a espinha dorsal rítmica do concerto num pulsar de versatilidade extremamente crucial para esta esquadra chegar a bom porto.
O primeiro single a solo de Greep, Holy, Holy, foi estendido para lá do quarto de hora, tornando-se “na” montra deste seu novo som (que lá pelo meio teve o seu baterista a mandar uns ”cala a boca” e “obrigado” ao ar) e no apogeu do concerto, quem dera ao fanfarrão engatatão retratado na letra sacar uma brasa destas. Com ad-libs e uma vertente completa de jam session, resultou numa grande ode triunfal ao solo de guitarra, à falta que o violoncelo faz à rockalhada e, ainda, ao poderio da bateria e do piano.
Candidato a final boss de Coura e a um dos concertos do festival, Geordie Greep e banda aproveitaram o ambiente propício proporcionado pela envolvente (e, diga-se, o nome que Greep já tinha por aqui) e gravaram com uma picareta o seu nome nos anais desta edição. Se o novo som não der e se não houver mesmo mais black MIDI para ninguém, então tragam-no em formato talk show (tipo shock jock, já que, antes de sair de palco, mandou o público fornicar-se), que será incrível na mesma. Ae vlw blz, Geordie.

Geordie Greep
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Bar Italia – Palco BacanaPlay
Rumo ao palco secundário fez-se um “L” dos bons para continuar a testemunhar a investida nesta edição da armada inglesa do cartaz, agora com os Bar Italia. Depois do cancelamento em cima da hora no ano passado por motivos de saúde, estávamos agora perante a oportunidade de ver mais uma banda digna de interesse vinda de Inglaterra, no já aludido renascimento do rock independente (e derivados) a que se tem assistido nos últimos anos naquele país.
Oficialmente um trio composto pela romana virada londrina Nina Cristante e pelos guitarristas Sam Fenton e Jezmi Tarik Fehmi (os três partilhando turnos no microfone, tendo a formação aumentada por baixista e baterista), desde o início (quando foram descobertos por Dean Blunt) que são uma banda prolífica, com oito registos (a contar já com Some Like It Hot, previsto para Outubro) em apenas cinco anos de existência, todos eles passos sónicos evolutivos seguros.
No meio de tanta proliferação sonora, a banda aqui jogou liberta de amarras, desligando a pose quase blasé de hipsterismo militante e ligando o interruptor da jarda. Tão distante da versão de estúdio quanto Coura dista de Londres esteve Worlds Greatest Emoter; Cristante dá o mote ao público enquanto instrutora de saltos e Fenton e Fehmi (este também na voz) fornecem a riffalhada necessária para a efervescência que se quer.
“Desculpem lá quanto ao ano passado, mas ao menos agora estamos aqui”, diz Fenton. A substância deste pedido de desculpa dos Bar Italia prosseguiu com glory hunter. Aqui mais fiel à versão de disco, com as vozes de Cristante, Fehmi e Fenton a complementarem acordes que não podiam soar melhor. Mais do que mero artifício, a interligação das vozes representa três abordagens diferentes dentro de cada canção.
Ainda mais em evidência esteve tudo isto em Punkt. Em estúdio parece algo provindo de uma homenagem a Lower Dens (ou aos compatriotas Drahla) e em Coura é um estoiro à Superchunk, um exame ao medo em estrofes por uma banda que se fartou da timidez. Até aqui falávamos apenas do passado dos Bar Italia; com Cowbella, single editado este ano, ouvimos o presente da banda, que é mesmo um no qual a agressividade substituiu a introversão – pela progressão dos acordes, pelo ritmo e pelas crises amorosas da letra.
Esta juventude perdeu a vergonha e saiu do quarto escuro que era o seu palco e abraçou a condição de banda cada vez mais de vanguarda dentro do seu género. Todavia, será que estas três vozes conseguem fazer as duas vozes de Modern Talking como faz o mestre Manuel Almeida? Depois desta indagação, uma certeza: a de que a sua próxima paragem será em palcos maiores.

Bar Italia
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Ainda que o dia se revestisse de assunto, o prato forte (para nós) era apanhar Black Country, New Road ao vivo. Num concerto cujo alinhamento foi dedicado apenas e só ao novo álbum, nem assim a banda inglesa desiludiu. Bem pelo contrário, a sua actuação merece um texto próprio.
Mk.gee – Palco Vodafone
É uma Lapalissada dizer que os concertos de um festival nos suscitam interesse. No entanto, o de Mk.gee, pelas expectativas gigantescas associadas ao que tem andado a fazer e pela curiosidade que nos deixou em disco, merecia que lhe tirássemos as teimas – nós e os milhares que encheram a encosta do palco principal de Coura.
Nascido Michael Todd Gordon em Nova Jérsia, não é um tipo qualquer com pouco talento que por acaso caiu em graça. Para além da sua própria obra, Gordon já colaborou com Fred Again e Justin Bieber, logo traz toda a uma escola de pop relevante consigo; a sua estreia em álbum no ano passado com Two Star & the Dream Police, com hype até à estratosfera, mereceu uma mênção honrosa na nossa lista pessoal, numa de “vamos esperar para ver o que este gajo fará no futuro”. E aqui estamos para ver aquilo de que é capaz.
Iluminados por luzes traseiras e envoltos por fumo fazendo lembrar João César Monteiro feito Nosferatu de Alfama em Recordações da Casa Amarela, Mk.gee e os restantes membros (nomeadamente o guitarrista Andrew Aged e o técnico de batidas e samples Zack Sekoff) do seu trio instalam-se naquilo que mais se assemelha a uma consola de controlo de uma central energética do que outra coisa. E não tardam a provar, através de Dream police, que a coisa em disco até é um bocado raquítica a comparar com o monumento sonoro ao vivo.
ROCKMAN leva este ponto ainda mais além. A versão de disco tem a sua graça? Tem, sim. Mas aqui no breu courense estamos diante do enlace da desconstrução exploratória de 2025 com Phil Collins, Prince e os Yes de 90125. Mas não são apenas as referências pop de antanho que Mk.gee tem no sítio, que também na instrumentação está ali um cientista.
Este empunha uma Fender Jaguar, utiliza cordas lisas e uma data de pedais e é aqui que a ortodoxia instrumental termina. A demais aparelhagem em palco daria para uma feira de tecnologia por si mesma: para além daquele material, há ainda sintetizadores e uma drum machine modular SOMA Pulsar-23 para Gordon e, para Sekoff, uma plêiade de sequenciadores (como um SP404), pads, CDJs e um baixo. Não basta ter a tralha certa, mas não admira que o concerto esteja a soar a algo praticamente inédito.
No seu melhor, Mk.gee não destoaria num Out.Fest ou num Semibreve, porque estende os limites das guitarras e do experimentalismo pop até a um limite bem exigente e, em última análise, soberbo; no seu pior é banda sonora de engate com guitarras para zoomers sedentos de fuga da horny jail. Por falar em afectos, Gordon agradeceu todos os que o público lhe dedicou, assinalou a estreia (e a distância que o levou até ali) e prometeu mais divertimento no resto da parcela da noite que lhe coube.
I Want e New Low são dois fabulosos lados de uma mesma moeda, a da distorção da melodia e do ritmo, algures entre o trabalho dos Animal Collective (e de todos os seus membros a solo) e a violência de malta como Dreamcrusher. Danem-se as letras (e quem alinhou na debandada depois de ter andado a furar quando não devia), que o peso marcial da batida e o conluio de guitarras é avassalador.
Num plano onírico, o concerto é um desavergonhado sonho marado (este sem polícia) no qual estamos todos na primeira fila quando faixas como Rylee & I vêm à baila. Ao contrário de Jean Alesi, rápido que chegue mas propenso a disparate na pista, a Alesis de Mk.gee arriscou e venceu, resultando num último e fenomenal culminar desta montra sónica notável de Mk.gee.
Mais do que imersivo, o concerto de Mk.gee foi subversivo. Tendo ainda arestas por limar (ou, sobretudo, a precisar de mais material), a dificuldade de categorização sónica é parte do divertimento da coisa. Pop experimental? Shoegaze de quarto (ou de, urgh, TikTok?)? Ambient e noise? Ou todas estas opções, como este escriba prescreve? O que sabemos é que não só não demos o nosso tempo por perdido, como ganhámos mais umas entradas na enciclopédia de experiências sónicas com sensibilidades pop.
Se nas categorias ainda há algum mistério latente, a outra parte deste ficou esclarecida: óptimo concerto e cá esperamos pelos próximos capítulos de Mk.gee.

Mk.gee
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Depois da intensidade de Mk.gee, fez-se a última piscina deste dia até ao palco secundário para assistir a uns quantos minutos da actuação da colombiana Ela Minus (ou, nas palavras de um dos convivas, de Kelly Ray Bjork). De costas para o público mas com uma câmara que nos retratava a todos qual orwellianice de after (conheses?), partiu brita a várias BPM e fechou com dignidade o terceiro dia deste Vodafone Paredes de Coura. Andor para a última jornada.