Reportagem


Super Bock Super Rock

Esta nova Lisboa não é sonho nenhum

Herdade do Cabeço da Flauta

18/07/2019


É possível que tenham lido em anteriores reportagens nossas, sobre as passadas edições do Super Bock Super Rock, saudosismos dos cheiros a pinheiro e a praia de quando, antes regressar ao seu berço no Parque das Nações, o festival estava sitiado na outra margem, a caminho do soalheiro Meco. Em pleno Julho, a paisagem urbana da capital, mesmo que contornada pelas águas do Tejo, parecia-nos oprimir aquilo que deveria ser a verdadeira natureza de um festival de Verão. Assim, quando recebemos a notícia de que este ano o Super Bock Super Rock seria novamente devolvido à câmara de Sesimbra, sentimos um misto de justiça feita com alguma apreensão. Apreensão essa justificada logo alguns minutos após arrancarmos viagem para a outra margem, muitos de nós após uma jornada intensa de trabalho, onde essas idílicas memórias veraneantes, rapidamente deram lugar a outras até aí reprimidas – ao caos do trânsito e acidentes nas artérias e pontes lisboetas, somam-se novas filas no acesso ao recinto, que oferece um estacionamento anárquico e mal iluminado (que mais tarde tornaria a busca de qualquer viatura numa cruzada épica), fazendo com que cheguemos às portas de entrada empoeirados e mal humorados, desvanecendo rapidamente o nosso sonho pastoril – memória selectiva no seu melhor.

A voz inigualável de Marlon Williams, numa versão de “I Started a Joke”, dos Bee Gees, atravessa o parque de campismo, que percorremos num passo apressado, ainda na ilusão de conseguirmos vislumbrar pelo menos uns breves minutos da sua figura esguia e ondulante em palco. Um esforço completamente inglório ao ouvirmos o neo-zelandês despedir-se do público sem ainda lá termos chegado – the joke was on us e o nosso mau humor é agora um ressentimento amargo, pelas quase duas horas de viagem que nos custaram um dos concertos mais antecipados do dia – deve ter sido lindo, alguém por aí que nos conte como foi.

Marlon Williams

Marlon Williams

Só havia alguém capaz de levantar esta nuvem negra sobre as nossas cabeças: Dino D’Santiago e o seu funaná colorido de ritmos urbanos e modernos. Depois de abandonarmos uma Cat Power insegura (qual é a novidade?) no palco principal, rumamos ao palco EDP que nos traria os melhores momentos deste primeiro dia. Sim, já vimos vezes sem conta o rapaz que divide o seu coração entre Quarteira e Cabo Verde, e sabemos que muitas mais vezes se seguirão, mas aos que defendem que num cartaz, com sobreposição horária, na hora de escolher que artista ver se deve dar primazia aos que terão a menor probabilidade de se repetir – respondemos: o vosso argumento é lógico, porém, na prática, completamente errado. Na hora de escolher, só há um argumento possível: escolher o que é bom. E no primeiro dia o nacional foi o melhor.

Dino D’Santiago, Branko e Conan Osíris tomaram conta da área, arredados injustificadamente aos palcos secundários, como se viu nas enchentes ao fundo do recinto (sendo o caso mais notório o concerto de Conan Osíris que deixou muita gente de fora da tenda Somersby), enquanto no palco Super Bock Super Rock se circulava com facilidade por entre uma mancha esparsa de pessoas, onde grande parte seriam já fãs de Lana del Rey que asseguravam um lugar na frente. Jungle repetiu, sem grandes surpresas, o concerto dado no passado Super Bock em Stock, destilando as orelhudas “Heavy California”, “Happy Man”, entre outros hits, desta vez pelo menos sem as interrupções de problemas técnicos que abalaram o concerto do Coliseu. The 1975 soaram-nos desconectados da realidade e do público, fruto da indefinição da sua sonoridade. Isto é rock? É pop? É alternativo? É romântico-depressivo? Dançamos um slow ou sacudimo-nos na pista de dança? Ninguém sabe, talvez nem mesmo os próprios.

Jungle

Jungle

À parte de Lana del Rey (cujas restrições fotográficas justificaram a nossa “não” reportagem do concerto) motivo principal da enchente que esgotou o primeiro dia de Super Bock Super Rock, pouco do que se passou no palco principal foi relevante ou nos ficará na memória. Tudo o que interessou aconteceu nos outros palcos.

Metronomy deram um concerto competente e prazeiroso, faixas como “The Look” ou “Everything Goes My Way” são a banda sonora perfeita para qualquer Verão e acreditamos que talvez por isso o seu espectáculo tivesse beneficiado mais de um final de tarde, com o pôr de sol radioso que a paisagem da Herdade do Cabeço da Flauta proporciona, do que um fim de noite onde os ritmos de dança são mais apetecíveis.

Até porque o génio das pistas de dança tinha acabado, momentos antes, de sacudir toda a poeira do palco EDP – Branko e a sua Enchufada dominaram a zona, levando-nos numa volta ao globo pelas muitas imagens de vídeo que perfilaram no ecrã ao fundo do palco (seguramente recolhidas nas gravações da série Club Atlas), uma viagem pelos sentidos, capaz até de despertar cheiros e sabores, nas batidas intemporais de uma riqueza cultural que o produtor cruza numa mestria ao alcance de poucos. Samba, cumbia, funaná, electrónica, afrobeat, entre tantos outros ritmos, tudo faz sentido, tudo é para dançar. São Paulo, Lima, Cabo Verde, Acra, todas desaguam em Lisboa num som original, num som que é só “nosso”.

Branko

Branko

Para tornar a festa de Branko ainda maior Dino D’Santiago regressaria para mais uma dose de “Nôs Funaná”. Ao início da tarde já tinha protagonizado, no mesmo palco, um dos melhores concertos do dia. Mundu Nôbu, um dos grandes discos lançados no ano passado, continua a ganhar força em 2019 a cada concerto seu. Cada vez mais confiante e mais artista, Dino D’Santiago oferece um espectáculo que não deixa ninguém de fora, fazendo-nos sentir a todos parte de uma enorme família, descendo ao público para dançar entre nós e tornando a união completa. Numa frase que seria um prenúncio deste primeiro dia de Super Bock Super Rock gritou: “Branko, hoje é tudo nosso!” e assim aconteceu. Esta nova Lisboa já não é sonho nenhum.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Vera Brito

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