Reportagem


Super Bock Super Rock

O palácio de Janelle Monáe empoeirado pelo furacão Migos

Herdade do Cabeço da Flauta

20/07/2019


Chegados ao derradeiro dia deste Super Bock Super Rock, após dois dias bipolares, não sabíamos bem o que esperar. No clássico dia dedicado ao hip hop – desde que na mítica edição de Kendrick Lamar, em 2016, o festival descobriu que a sua galinha de ovos de ouro já não era o rock – persistia ainda a dúvida de se assistiríamos à mesma enchente de anos anteriores. Com o fiasco do segundo dia e a mudança de localização da capital para a outra margem, seriam os Migos capazes de arrastar uma nova multidão para o Meco? As nossas dúvidas dissiparam-se assim que entrámos no recinto: aos primeiros concertos da tarde já se encontravam mais pessoas na Herdade do Cabeço da Flauta do que à hora nobre do dia de sexta-feira. A organização não deu o dia como esgotado, mas acreditamos que não deva ter andado muito longe disso – a massa compacta de gente que se movia por todo o espaço deu até a impressão de ser maior do que a do dia de Lana del Rey. Os principais culpados? Takeoff, Offset e Quavo, sem qualquer sombra de dúvida, como veríamos mais à frente na chacina do seu concerto que levantou uma poeira tal que deve ter sido possível observar até de Lisboa.

Começámos o dia com o concerto de Pedro Mafama, que teve a difícil tarefa de acordar um público amolecido pelo sol forte da tarde. Vestido de jelaba marroquina em que nos diz ter impresso, ele mesmo, a publicidade à Parmalat começou por, ao início com pouco sucesso, tentar arrancar reacções das pessoas que se comprimiam na pequena sombra oferecida pelo palco LG. Mafama, construtor de originais e improváveis linhas arábicas que cruzam fado e tarracho com o auto-tune sempre em potência máxima, causa ainda alguma estranheza em ouvidos mais duros, que precisam de algum tempo para acomodar o seu estilo. Mas, passado o primeiro impacto, já era possível ver alguns corpos soltos a “atarrachar” com o seu som.

Rubel

Rubel

O que fazem Rubel ou Superorganism no meio de um dia assim? Proporcionam pequenos balões de ar que nos permitem relaxar um pouco do frenesim das batidas e graves fortes que imperaram nos restantes palcos. O brasileiro fez-se acompanhar de uma banda impressionante – contam-se os músicos e instrumentos em palco: trompete, saxofone, trombone, bateria, guitarra eléctrica, violão, teclados, acordeão, pad, baixo, contra-baixo e é possível de que nos tenha escapado mais algum – harmoniosos e discretos, nos seus gorros vermelhos que nos fazem lembrar pequenos gnomos num jardim, rodeiam a figura meiga de Rubel, oferencendo-nos um começo de dia doce e pacífico. Ao nosso lado há até quem solte o suspiro: “ele é tão fofinho…” e às primeiras notas do acordeão de “Quando Bate Aquela Saudade”, ali hoje um pouco mais acelerada que a versão em disco, o nosso peito aperta-se num calor “gostoso” que se derrama pelo corpo. O seu concerto foi um bálsamo para esta tarde sufocante.

Esperávamos algo parecido do concerto de Superorganism, mas a trupe colorida de purpurinas de Orono Noguchi não nos conseguiu prender por muito tempo no palco EDP. Embora sejam apontados pela crítica como um pequeno tesouro da indie pop, a nós, a infantilidade que por vezes assoma nas suas músicas não nos convence e seguimos viagem em direcção ao palco Super Bock para ver se ProfJam será também capaz este ano de rebentar o som com os seus graves pesados.

O Super Bock Super Rock tem sido uma espécie de programa de revelação de talentos para alguns artistas portugueses. Em edições anteriores acompanhámos, por exemplo, a escalada galopante de Slow J pelos vários palcos do festival, culminando, na apoteose vivida na Altice Arena em 2018 (confessamos que, após 3 anos seguidos de incríveis concertos seus, nesta edição sentimos a falta do setubalense). Agora, foi a vez de ProfJam subir ao palco maior do festival, após ter criado fendas na pala do Pavilhão de Portugal no ano passado, numa oportunidade completamente justificada pela multidão ali reunida. De bigode farto e no seu código html branco que o algodão não engana, Mário Cotrim despejou altos decibéis de barras pesadas, que terão afugentado toda a passarada nos pinheiros em redor, e despejou também algumas lágrimas por aqueles que se comoveram quando chamou a palco a sua mãe Fátima para uma dedicatória muito emotiva – afinal, no peito de um rapper também bate um coração, um coração de filho que não esquece o que de mais importante há nesta vida: o amor de uma mãe e de um pai.

ProfJam

ProfJam

Masego deu, sem surpresas, um dos melhores concertos do festival – já o tinha feito no passado Super Bock Em Stock. O êxito “Tadow”, com o seu saxofone borbulhante, não se fez esperar arrancando o seu concerto numa imediata explosão de gritos e aplausos – só é pena que FKJ, que actuou no dia anterior, não tenha estado também presente. Carismático por natureza conquista-nos a todos, em especial a todas as ladies, ladies ao distribuir flores que não chegam para todas. Deve ter sido o artista que, durante estes três dias de festival, conseguiu concentrar o maior número de pessoas no palco EDP – uma multidão que furamos a custo, pois não queremos perder nem um segundo daquilo que se vai seguir.

Não procurámos por vídeos nem por qualquer outro tipo de spoiler da digressão Dirty Computer que Janelle Monáe trouxe ao Meco – queríamos ser completamente surpreendidos pelo seu concerto. No final, a sua performance com todas as bailarinas e músicos (havia pelo menos um homem na guitarra) que a acompanharam numa produção de luxo, com o brilho das grandes estrelas da pop, mais do que surpreendidos, deixou-nos siderados e rendidos de joelhos à imperatriz de todos os proscritos da sociedade – os seus dirty computers. Assistir a uma mulher negra queer de Kansas, como se apresentou, colocar assim em palco tamanha liberdade de expressão tem um peso incomensurável na luta pelos direitos, em especial, das mulheres, mas transversais a qualquer pessoa que se sinta oprimida seja porque motivo for. “I’m dirty, I’m proud!”, que apareceu em letras garrafais no ecrãs, foi gritado pela plateia em uníssono com toda a convicção. Janelle Monáe fez do palco Super Bock Super Rock o seu palácio, subindo a escadaria branca até ao seu trono vermelho aveludado de onde deixou a todos um sério aviso: “We gon’ start a motherfuckin’ pussy riot or we gon’ have to put ’em on a pussy diet. Look at that, I guarantee I got ’em quiet. Look at that, I guarantee they all inspired!” – homens por aí não se assustem, esta flecha é apenas dirigida para aqueles, e aquelas, de mentes retrógadas. Herdeira directa de Prince, ali homenageado e que a sensualidade dos riffs da guitarra de “Make Me Feel” não esconde, ao som da qual Janelle Monáe deslizou em palco com o moon walk de Michael Jackson, a americana sabe como ninguém beber influências dos melhores, trazendo de novo à música e à performance artística algo que parecia ter desaparecido com a morte de ambos. E só por isso já lhe estamos eternamente gratos. A princesa Lana del Rey pode até ter levado muita histeria a este Super Bock Super Rock, mas rainha só existiu uma.

Migos

Migos

Ainda o concerto de Janelle Monáe não tinha acabado e já estávamos a ser atropelados por jovens que furavam a todo o custo em direcção às filas dianteiras para Migos. “Isto é coisa para ficar agressiva…” comenta alguém ao nosso lado, concordamos e fazemos uma retirada estratégica para a segurança da bancada, o melhor lugar para observar as vagas que iriam rebentar sobre o público assim que Takeoff, Offset e Quavo entraram em palco para mais um dia de trabalho. Algo indiferentes à turba se comprimia contra as grades, onde os seguranças se viram obrigados a retirar algumas pessoas já em dificuldades, o trio americano veio provar mais uma vez que o trap não é a maior tragédia que aconteceu ao hip hop nos últimos anos, como muitos não se cansam de advogar. Goste-se ou não, prefira-se ou não rimas conscientes de dicção rigorosa a um mumble rap por vezes algo superficial e carregado de auto-tune, a verdade é que: um movimento que alimenta a energia de tanta gente (as câmaras até nos mostraram Janelle Monáe a dançar) não pode ser um erro. Agora até quando continuará o trap a cuspir fenómeno atrás de fenómeno, é outra questão que só o futuro dará resposta e que talvez nos chegue em futuras edições do Super Bock Super Rock. Por agora, despedimos-nos até para o ano.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Vera Brito

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