Reportagem


Sevdaliza

Com a vulnerabilidade de uma flor e a força de uma rainha

Super Bock Super Rock

21/07/2018


Quando no último dia do Super Bock Super Rock chegámos ao palco EDP, ainda atordoados pela sova proporcionada por Stormzy não contávamos que, em poucos minutos, Sevdaliza fosse capaz de baixar-nos o ritmo cardíaco para a batida lenta do seu trip hop místico e envolvente. O trip hop, esse género um tanto mal amado e que é hoje sinónimo de nostalgia, parece respirar um novo fôlego na voz de Sevda Alizadeh, com toda a mescla de influências que a cantora lhe imprimiu.

Parece-nos ouvir James Blake na elegante batida electrónica, entrevemos a sensualidade R&B de vozes como Nao, Kelela e uma fragilidade que nos leva a Björk, encontramos até algo daquele atrevimento despudorado de Arca nas suas interpretações arrojadas e, a comparação mais evidente, FKA twigs – ambas fazem música para os nossos olhos.

Os vídeos que acompanham as músicas de Sevdaliza são peças artísticas oníricas, belas, desconcertantes. Em palco, no passado sábado, na sua actuação intensa, carregada de dramatismo, não precisou de muito mais do que uma indumentária ousada e de um tripé envolto num opulento arranjo de flores, para conseguir o mesmo efeito. Flores que, já perto do final do concerto, despedaçou com uma fúria libertadora. Ao nosso lado ouvimos alguém exclamar “que rainha!” e sinceramente não nos ocorre uma palavra melhor.

Este equilíbrio entre força e vulnerabilidade talvez encontre explicação nos 30 anos muito vividos da holandesa de origem iraniana. Ainda criança chegou à Holanda como refugiada, em adolescente abandonou a casa dos pais para viver por sua conta, foi jogadora profissional de basquetebol, fala várias línguas, uma delas o português que arrisca em alguns momentos do concerto, e chegou à música, poderia dizer-se, “com uma mão à frente e outra atrás”. Autodidata, empenhou-se numa aprendizagem musical com uma tenacidade tal que hoje a colocou ali naquele palco em frente a nós.

E Sevdaliza está bem consciente disso e diz-nos o quanto importante é também partilhar connosco este seu percurso, agradecendo o apoio de todos, que fazem com que hoje possa ser uma artista totalmente independente. Emocionada, no final vimos repetir-se o momento de há meia hora atrás no concerto de Stormzy, quando desceu ao público para abraçar toda aquela gente que ainda não tinha corrido para a Altice Arena, onde Benjamin Clementine estava prestes a começar o concerto que o coroaria o rei da noite. A rainha estava ali ao nosso lado.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Vera Brito

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