MENUMENU

Reportagem


Benjamin Clementine

Como silenciar uma arena

Super Bock Super Rock

21/07/2018


Benjamin Clementine, ao contrário do que se possa pensar, nunca foi um artista óbvio ou fácil de assimilar e agora apresenta-se-nos mais excêntrico ainda, desde o seu último álbum I Tell a Fly, essa difícil obra avant-garde, que ainda não estamos seguros se é algo que roça a genialidade ou um disco onde o músico simplesmente se perdeu nas suas indulgências musicais.

Empenhado em levar-nos consigo para o seu mundo bizarro encontramos no palco uma enigmática fileira de manequins dirigida ao piano, companheiros habituais desta sua digressão que, segundo lemos em entrevista, foi ele próprio quem os encomendou online, porque para conseguir o mesmo efeito um conjunto de actores seria muito dispendioso e um coro demasiado previsível. A nossa devoção a Benjamin Clementine faz-nos querer entender esta sua estranha forma de comunicar, mas por vezes sentimos a frustração de saber que tal nunca será possível. O mundo em que se move é simplesmente impossível de alcançar.

Curiosamente é esta transcendência que mais o aproxima de nós, talvez porque o ser humano sempre sentiu maior fascínio pelo que não consegue entender. E Benjamin Clementine é uma dessas almas raras, capaz de nos elevar com as suas interpretações expressivas e corajosas. Desafiamos qualquer pessoa a vê-lo cantar ao vivo “Condolence”, como ontem tivemos novamente o privilégio de presenciar, sem sentir uma emoção incompreensível atravessar-lhe o peito. Se tal não vos aconteceu lamentamos informar mas existe a forte possibilidade que tenham a capacidade emocional de um calhau.

Príncipe ou anjo são as referências mais comuns quando se fala de Benjamin Clementine e das quais não discordamos, mas há um outro lado do músico mais travesso e irreverente que por vezes assoma e surpreende. Ontem, por exemplo, conseguiu enganar-nos a todos quando após o belo dueto com Ana Moura, chamou ao palco Seu Jorge como próximo convidado, levando a plateia a delírio, para de seguida lhes derramar um balde de água fria com a piada “In your dreams!”. Gargalhadas à parte, deve ter havido por ali quem tenha ficado magoado com a brincadeira.

Mais à frente, ao tentar cantar “Jupiter” a capella, houve também um momento de tensão, quando irritado ameaçou abandonar o palco caso o público não fizesse silêncio. Sentiu-se um certo desconforto no ar, porque ninguém espera do doce Benjamin palavras ásperas e autoritárias. Já a nós, que andamos bastante cansados do constante e desrespeitoso burburinho em festivais, só nos apeteceu aplaudir a atitude do músico, não fosse isso tornar ainda pior a situação.

Rapidamente se fizeram as pazes. “Adios”, música com que se despediu, proporcionou um dos melhores momentos do concerto, quando acompanhado pelo seu baterista e baixista, percorreu o corredor a meio da plateia para desafiar o público, que nestas situações de proximidade fica quase sempre intimidado ou mais preocupado em conseguir a foto perfeita. Por isso deixamos aqui um forte aplauso ao rapaz que já no final olhou Benjamin nos olhos e lhe gritou “the decision is mine, so let the lesson be mine!” como se a sua vida dependesse disso. Valeu-lhe um abraço do músico que leva consigo ainda mais inestimáveis memórias deste Portugal que nos diz que nunca irá esquecer.

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(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Vera Brito

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