Muitos críticos e musicólogos de sofá proclamam que um dado género musical está morto, que nem a categoria de pesos pesados no boxe, dada a mediocridade da massa crítica e material actuais; de entre esses, o jazz tem sido apontado como estando numa fase de atrofia, em quase total estagnação, tendo-se já ouvido e visto tudo o que haveria para ouvir. Discorda-se, ainda que alguns digam que é preciso uma nova referência, um talento que agite as águas e traga o entusiasmo de volta.

Em boa hora, pois, visitou-nos um desses talentos quasi-messiânicos emergentes, Kamasi Washington.

Tal como os irmãos Marsalis (Branford, sobretudo), Washington tem um carisma e uma facilidade de comunicação que lhe permitem, com certa simplicidade, fazer chegar o jazz a públicos que não o habitual. E isso é patente: à entrada e na bancada, ouve-se gente a falar da participação de Washington em To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, e outros entusiasmados com a sua técnica. Uma figura de consenso e ligação, portanto.

Visualmente, Washington remete-nos logo para a Arkestra do lendário Sun Ra e para Pharoah Sanders. Musicalmente também calcorreia esses caminhos (sem esquecer Ornette Coleman), mas o conjunto geral ao vivo é mesmo um apanhado dos últimos setenta anos de jazz – e, em estúdio em The Epic (um dos melhores álbuns de 2015, editado pela Brainfeeder de outro combinador, Flying Lotus), a grandeza expressiva do som atira-nos para a era das big bands. Ainda mais evidentes são as incisões de jazz de fusão à moda de Miles Davis por alturas de Bitches Brew, com batidas de hip hop de Kendrick Lamar ou Snoop Dogg (que convidou Washington para uma digressão, tinha este vinte anos). Quer em disco, quer ao vivo, confirma-se que Adorno até tinha razão quando falava das tensões internas do jazz: Washington é um diplomata e tenta conciliar a tradição dos solos e improvisos com as transfusões de sons de rua, do funk e da soul.

Mesmo sem direito (provavelmente por motivos orçamentais e de agenda dos músicos) a uma banda grande e a coro (e a músicos como Thundercat) como no álbum, as expectativas eram gigantes, com todos sequiosos de ver como se portariam Washington e companhia – se seria épico ou apenas mais um grupo de jazz contemporâneo propalado pela imprensa não-especializada. Com casa cheia e intelligentsia dos alternativos de Lisboa em peso, apagaram-se as luzes de sala pelas 21h20.

Com Askim (“é uma cena qualquer em turco”, dizia-se ao nosso lado #conversasdefestival) começou a prelecção. Kamasi é o líder de facto da banda, mas após introduzir a melodia delegou competências para o brilhantismo de Miles Mosley, que o secundou com o primeiro recital da noite – tudo fez naquele contrabaixo, incluindo tocá-lo com um arco (que nem um Tony Falanga) e recorrer a pedais, sem medos.

Andor para Re Run, que descende inicialmente, na linha recta, do jazz da Costa Oeste dos EUA, livre de certas e rígidas convenções da outra costa; miscigenação de estilos cuja toada foi crescendo e tornando-se em algo próprio e característico do som de Washington, demonstrando este, como dizia o treinador, a força da técnica.

A beleza dos coros faz aqui alguma falta (sobretudo em Henrietta Our Hero), mas preenche-se a lacuna com a riqueza instrumental; só havia uma voz, a de Patrice Quinn, que chegou para render o público, em particular em Cherokee, o standard de Ray Noble – aqui, Washington cumpre a praxis do jazz ao evocar o seu cânone.

Washington apresenta várias (demasiadas) vezes a banda, como se estivesse numa festa de bairro. Tal como se viu na ZDB há uma semana atrás com Steve Gunn, outro académico do seu instrumento, Kamasi Washington não se importa de virar os holofotes para a banda – o jogo de luzes de palco ilumina apenas quem está a tocar, numa autêntica dinâmica democrática. Não precisa de camisolas com o próprio nome, como Elvin Jones em tempos teve, ou do nome no saxofone.

Perante a promessa de actuar com um octeto, só se contam sete elementos em palco; no meio de todo este bem oleado convívio, resolve-se a falta num momento fulcral: a apresentação do pai de Kamasi, Rickey Washington, que o acompanha em digressão e ajuda às texturas da música, também nos sopros – saxofone soprano e na flauta.

Em Clair de Lune, de Debussy (uma das suas composições de eleição, confessa Kamasi), temos uma instância sonora em que tudo corre bem e fica registado um momento de enorme beleza: a combinação entre pai e filho e Ryan Porter (trombone) comandou a parada nos sopros, em nada ficando a dever à versão de estúdio. Investidas de melodia que demonstram a curiosidade e consequente aventureirismo jazz e soul de Washington, em novo embate que o público absorve, siderado.

“Can you bring back the funk?”, perguntou-nos Kamasi; era tempo de mexer os ossos e remexer o caldo sonoro, em cerca de dez minutos de variações rítmicas e melódicas que tornam as composições de Kamasi Washington acessíveis ao público menos ortodoxo e purista do jazz. Como nos tempos em que ficava na sala a aprender música com a família, retira-se respeitosamente para as sombras e torna-se espectador.

De cada vez que Patrice Quinn acrescentava a sua voz ao caldo, o Tivoli recebia uma aula sobre a importância de Albert Ayler e do seu Music Is The Healing Force of the Universe. Novo momento de improviso, em consonância com a tradição jazz: debate de bateristas, no qual Tony Austin e Donald Bruner Jr. (seriam os dois bombos uma herança do seu tempo nos Suicidal Tendencies?); um serviu-se dos pratos em floreado esquizofrénico e o outro entregou-se à truculência que o aparato da bateria (que também poderia ser de Slayer) lhe possibilitaria.

Como já se disse, este concerto foi um misto de aula e de desfile, algo bem patente em The Rhythm Changes: brilharam os arpeggios de Brandon Coleman, homem das teclas (e da keytar!), seguidos do solo de trombone de Porter (que falta fez o trompete de estúdio, porém) e terminando em nova demonstração de virtuosismo do “Professor Boogie” Coleman ao piano eléctrico.

No único encore, talvez o melhor cruzamento da noite, com bebop e free jazz soando livremente, marcando-se o trabalho de casa para quem quiser descobrir como é que se chegou a este corolário – confirma-se que tudo é melhor no Porto, visto que por lá houve dois encores. Fim de festa e pulsações a descer, ao contrário do êxtase.

Se um dos grandes problemas dos apreciadores (e envolvente) da música de Kamasi Washington é a sua ignorância e leviandade em relação ao jazz – pronuncia-se “djézz”, que os mortos é que “jázz”em –, confirmou-se que um dos trunfos daquele para combater essa ignorância é a pedagogia das suas gravações e actuações. Acabou-se de ver uma fenomenal aula de jazz (como vários vultos da música popular, um espectáculo que serviu de recapitulação), que deixa colossais expectativas para os próximos trabalhos do saxofonista e ensembles que vier a constituir. Simpatia a rodos, com direito a convívio com fãs no átrio do Tivoli – “Much love bro!!!”, escreveu o virtuoso no caderno onde se escreveu esta reportagem. Amor correspondido pelas partes.

Perante este quadro, cá estaremos para os próximos momentos decisivos (e para ver se Kamasi Washington será daqueles músicos que comprará cá casa). Só se espera uma coisa: que não se torne num novo Jamie Cullum, isto é, num Pedro Chagas Freitas do jazz.   Tudo menos isso que, até ver, Kamasi Washington criou a sua própria dialéctica. Qual será o jazz que aí virá?

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