A explosão de festivais que temos vindo a assistir na última década por cá, com cartazes e conceitos que dão para todos os gostos, do alternativo ao familiar, o da selfie e o pela música, fazem Portugal competir com os melhores festivais lá fora mas têm roubado também muitas oportunidades de ver em nome próprio bandas e artistas de culto, deixando-nos a namorar ao longe as digressões que cruzam a europa nos meses mais frios do ano, com a promessa de uma visita, mesmo que curta, no verão.

Este era o caso dos alt-J que desde 2012, quando nos arrebataram com o fresco An Awesome Wave, e após várias passagens por cá, ainda não tinham tido uma sala só para si e para o público que no passado sábado redimiu por fim todo o seu amor aos rapazes de Leeds, numa noite por isso muito “especial” na Altice Arena.

Alt-JQuando há meses atrás nos foi anunciado o concerto dos alt-J, logo após a passagem pelo NOS Alive, para a ainda MEO Arena, pareceu-nos uma aposta um tanto exagerada para a lotação da sala. Mas as verdade é que longe de estar esgotada (o segundo balcão não esteve sequer aberto) sentiu-se o calor do público, que tornou acolhedora uma sala por vezes ingrata para bandas que pedem mais intimismo. Mais do que a lotação acreditamos que a escolha terá recaído na Altice Arena para conseguir comportar a imponente iluminação em palco que a banda criou para esta digressão. Três colunas de feixes de luzes separam os três lados deste triângulo que são em 2018 os alt-J, desde a saída inesperada do baixista Gwil Sainsbury em 2014.

 

 

Ao seu terceiro álbum RELAXER, editado no ano passado, os britânicos ainda não conseguiram reunir consenso na crítica musical. Aclamados por muitos e detentores de um Mercury Prize, são ódios de estimação para outros, como para a “alternativa” Pitchfork (para quem também qualquer banda britânica de rock experimental é apenas mais uma cópia mal sucedida dos Radiohead). E depois há ainda aqueles com sentimentos mistos que precisam de mais alguns discos para conseguir cimentar a sua relação com a banda (esta é para todos aqueles que no NOS Alive se riram quando o Ryan Adams pediu desculpa pelos alt-J, minutos após aquilo que até vos tinha parecido ter sido um concerto satisfatório).

Alt-J

Difíceis de encaixar num estilo específico, caem muitas vezes no chavão do rock alternativo e experimental, aquela denominação que serve para quase tudo aquilo que não temos bem a certeza como lidar, mas que precisamos na mesma de uma gaveta para arrumar. Letras enigmáticas e indecifráveis que surpreendentemente caem no ouvido com a facilidade de uma lengalenga de criança. Mas quantos daqueles que no sábado passado cantarolaram a “Taro” sabem que por trás daquelas palavras soltas e estranhas, se encontra uma bonita homenagem a um casal de fotógrafos que morreu em duas guerras separadas? (eu confesso que não sabia e “Taro” é provavelmente a minha música preferida da banda). Talvez este seja mesmo o maior trunfo dos alt-J: conseguir fazer-nos sentir parte de algo muito especial sem ser preciso compreender o porquê.

No total dezanove músicas que souberam a pouco para um público que no encore ensurdeceu a Altice Arena como se estivesse lotada. De An Awesome Wave não faltou quase nenhuma, com o momento mais bonito da noite para os versos emocionados “this is from Matilda” cantados a peito aberto. De This Is All Yours soube-nos muito bem o rock energético de “Left Hand Free” e fez-nos desejar que a banda tivesse mais músicas assim pujantes no seu cardápio (este rock não lhes fica nada mal). Do recente RELAXER que abriu a noite com a sua última faixa, a orquestral “Pleader”, gostaríamos de ter também ouvido “Adeline” ou a curiosa cover para “House of the Rising Sun”. E entusiasmo não faltou ao público para que fosse possível arrancar mais um par de músicas, mas a banda de Leeds cumpre setlists pragmáticas nas suas digressões, com pouco espaço para o improviso e nem nos valeu ser dia de Reis. Ainda assim um excelente pontapé de saída para os concertos que 2018 nos promete.

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Fotos por Paulo Tavares
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