Peter Hammill – Tears in Time

por Christopher Monteiro
Ano 2026
Estilos Rock progressivo, Art rock
Editora Esoteric Antenna, Cherry Red Records
Destaques Heavy Weather, So Much Water, Red Flags (In the Sunset)
Peter Hammill – Tears in Time
7.5/10

Prestes a completar 78 anos, Peter Hammill é um lendário músico que podia já estar a desfrutar da sua reforma, mas a inquietação que o moveu, na sua juventude, e o levou a criar música tão desafiante e influente, é a que o mantém ainda agora, com vontade de estar no presente, mesmo com a inevitabilidade de ser introspectivo. O lugar no topo da cena do rock progressivo já o tem garantido, com os seus Van der Graaf Generator e em nome próprio, hoje em dia é um cantautor que está bem consciente do seu próprio legado, mas tem ainda algo a dizer neste “Tears in Time“.

Mesmo que os temas de retrospecção, reflexão, passagem do tempo, e coisas nesse campo, sejam de esperar, o que talvez não se espere é que haja tanta variedade estilística na música, é aí que viaja a vários sítios, a várias épocas, é onde conta diferentes estórias. É de assumir que, à sua idade, e com a voz muito mais limitada, que fique na vertente inicial de “For a Rainy Day”, a abertura, numa de baladas sombrias ao piano. Mas, logo a seguir, em “The Wheels”, já está mais teatral e, em “Heavy Weather”, já se aproveita de uma new wave de outros tempos para iluminar o que pareceria uma viagem meia derrotista. Que é o que parece obrigatório quando grandes artistas chegam a uma certa idade: têm que começar a ver a luz. Hammill ainda vê a luz onde ele próprio está e, mesmo que os ânimos voltem a ficar mais sombrios na acústica “Angle of the Curve”, ainda consegue ser mais romântico em “So Much Water” e trazer o rock com atitude em “Red Flags (In the Sunset)”.

Claro que também falará muito da sua própria mortalidade, mas fá-lo mantendo-se vivo e soando a tal. Os temas são pessoais, mas também podem ser mais universais e ter ouvintes a identificar-se facilmente (“You’ll Never Know” é a que realmente tem o olhar mais agridoce sobre o envelhecimento e perda de pessoas à volta, e “And When He Ran”, sobre a partida de um patudo muito especial na sua vida, pode comover qualquer um que já tenha tido um melhor amigo de quatro patas). Também não está aqui para enganar alguém, Peter Hammill não soa a um jovem, pelo contrário, mas sabe como usar isso. Nem está aqui um disco de rock progressivo per se, mas a variedade estilística e sempre uma estrutura menos usual a espreitar pelo meio daquilo que podiam ser canções mais simples, são o que nos garante que Hammill nunca ficará muito longe daquilo que dominou e lhe deu fama. Podia ser só um disco de singer-songwriter, sem se cansar muito, mas nas mãos certas, é isso, mas com uma roupagem especial. Pode ser o último. Mas está aqui um tanque que até dá indícios de ainda ter algo mais.


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