Chelsea Wolfe é uma artista livre. E quando se é assim tão livre, até pode ser difícil acompanhá-la. É o que lamentarão muitos fãs que a tentem seguir em todas as suas excursões estilísticas, algumas vezes incapazes de realmente aceitar e deixar entranhar tudo o que a californiana experimente. E mais um disco, mais uma voltinha. O título “The Dark” até pode induzir em erro, já que este não é uma submersão no peso à “Abyss”, no experimentalismo ruidoso de “Hiss Spun”, ou na névoa com tanto de convidativa como acolhedora de “She Reaches Out to She Reaches Out to She”.
Chelsea volta a encarnar a cantautora e apresenta um disco acessível. E nem é uma imersão por folk de contornos dark como em “Birth of Violence”. Folk auxilia, sim, mas “The Dark” é mesmo voltado para as canções de forte efeito. Os mais sensíveis que se cuidem agora, com esta informação e com o uso de termos tão fortes: é o seu álbum mais pop. Como isso não tem que ser uma praga, as boas-vindas são feitas com docilidade ao piano de “Cold”, antes de encontrar esse tal caminho mais pop, mas com atitude, numa “Seethe” que a faz parecer uma prima gótica da Florence Welch. É na atmosfera que entra a escuridão que não conseguimos desapegar de Wolfe. Mesmo quando se submete a uma folk acústica mais à The Weather Station na faixa-título.
Também há muito com a edge do rock alternativo dos 90s, ou assim se sente por vezes. Nem que seja pela produção. Misturado com tons góticos dá numa pegajosa “Swallower” que quase nos faz sugerir a fusão desse rock com Within Temptation, mas podemos ofender alguém com uma afirmação tão ousada. Há uma coesão e uma constante nessa atmosfera, para que quando chegue uma “Turn the Key” e pareça que voltou aquele fumarento doom, quando o solo já treme um pouco quando chega a segunda metade de “Death Is Not the End”, não se sente que a alteração tenha sido radical. Nem quando ela retoma o piano e já começa a parecer também uma sobrinha gótica da Tori Amos, como numa “I’m Not There”. No final, “The Dark” acusa-se imediatamente como um disco que manter-se-á divisório entre muitos fãs. Mas que também justifica as suas oscilações estilísticas, o seu percurso camaleónico. É porque pode e sabe como fazê-lo. E sabe como soar sempre a Chelsea Wolfe. Que até podíamos achar graça à brincadeira de a classificar como a parente gótica de muita gente, mas acaba por lhe tirar mérito conquistado.