Левиафан (Leviatã)

por Edite Queiroz

Pode um homem comum vencer uma luta inglória contra o sistema? Até que ponto resiste o orgulh? Entre a amizade e o amor, qual o valor mais alto? Pode uma esposa infeliz ser censurada por procurar afecto nos braços de outro homem?

Título Português Leviatã
Ano 2014
Realizador Andrey Zvyagintsev
Elenco Alexey Serebryakov, Elena Lyadova, Sergey Pokhodae, Vladimir Vdovitchenkov
País Rússia
Duração 141min
Género Drama
Левиафан (Leviatã)
9/10

Poderias tu pescar o leviatã com linha e anzol? Ou atar-lhe a língua com uma corda? Serias tu capaz de o prender com uma corda no nariz, ou furar-lhe as queixadas com uma escápula? Porventura iria ele pedir-te que desistisses das tuas intenções e tentar brandamente fazer-te mudar de ideias? (…) Não há nada mais tremendo, sobre a face da terra, que se lhe possa comparar. De todos os animais, é o mais altivo — é o monarca de todos eles.

A filmografia ainda curta de Andrey Zvyagintsev, muitas vezes referenciado como o herdeiro de Tarkovsky, é composta de histórias de provação que abordam temas como a justiça, a sobrevivência a moralidade e o conflito interno entre o bem e o mal. São disso exemplos os premiados O regresso (2003) ou Elena (2011), ambos exibidos nas salas portuguesas. Prevalecem no seu cinema alguns códigos do realismo geralmente suavizados no cinema contemporâneo, que comunicam de uma forma quase visceral. É um estilo fílmico incomodativo que parece observar as entranhas das personagens – e as nossas. Leviatã é, antes de mais, uma crítica pouco subtil à sociedade russa (algumas das cenas foram mesmo censuradas no país de origem), mas ultrapassa largamente as suas especificidades. É um drama humano universal, que poderia ter lugar em qualquer parte do mundo moderno.

Curiosamente, Zvyagintsev e Oleg Negin, basearam-se numa história americana para escrever a de Kolya (Alexey Serebryakov). Na Península de Kola, no Mar de Barents, um lugar de estranha beleza, Kolya vive tranquilamente a segunda esposa Lilya (Elena Lyadova) e Roma (Sergey Pokhodaev), o filho adolescente. O pacato quotidiano da família é perturbado quando o autarca Vadim se mostra interessado em tomar-lhes a casa, as terras e a pequena oficina que possuem. Ao perceber que Kolya não cede aos seus subornos, Vadim adopta estratégias mais agressivas (e menos honestas), corroboradas pelo padre local, para satisfazer o seu capricho. Para se defender, Kolya recorre Dmitriy (Vladimir Vdovitchenkov), um velho amigo que trabalha em Moscovo como advogado. Enquanto o conflito se arrasta, a relação dos dois amigos deteriora-se, enquanto Kolya se afunda em vodka e obstinação e Dmitriy se envolve com a bela e desamparada Lilya.

Leviatã produz um tremendo impacto em termos visuais. O ambiente e a fotografia (um dos aspectos mais impressionantes do filme), ao mesmo tempo que traduzem uma marca muito distinta do cinema russo, são também uma personagem da narrativa, convidando o espectador à reflexão sobre o que se discute. A direcção de Zvyagintsev é muito simples, mas eficaz nos seus propósitos: a câmara percorre, em planos abertos lentos, as paisagens lindíssimas e desoladoras da Península de Kola, ora acompanhada de longos silêncios, ora embalada pela banda-sonora de Philip Glass. Há qualquer coisa de paraíso perdido ou de inferno na Terra, que parte da das características do cenário natural e se transpõe para o comportamento humano nas suas diversas dimensões – primeiro a pública, depois a privada, depois ainda a íntima – e todo o tecido moral é posto à prova. Pode um homem comum vencer uma luta inglória contra o sistema? Até que ponto resistirá o orgulho de Kolya? Quão diminutos serão os escrúpulos de Vadim? Entre a amizade e o amor, qual o valor mais alto? Pode uma esposa infeliz ser censurada por procurar afecto nos braços de outro homem?

Em termos concretos, o filme analisa a relação entre política e o discurso religioso, a corrupção do poder, a arbitrariedade da justiça e a ambivalência perante uma situação adúltera. Mas de uma forma mais abrangente, pode dizer-se que, tal como os filmes anteriores, Leviatã é um ensaio ácido sobre a natureza humana que insiste no argumento da corruptibilidade: Em circunstâncias extremas, ninguém é moralmente incensurável. Não haveria, por isso, a necessidade de explicitar a relação simbólica entre o enredo e a parábola de Jó (embora a ligação seja, a dado momento, explanada num diálogo entre Kolia e o padre local). O cenário decadente e pós-apocalíptico, ornamentado por carcaças de barcos e baleias, sugere que os antigos monstros estão mortos – mas os de hoje são ainda mais assoladores. O Leviatã que Kolya enfrenta não é uma terrível criatura marinha, mas antes uma besta moderna banal: o Leviatã é o próprio Estado, personificado na figura detestável de Vadim, representante do poder instituído, corrupto e obscuramente aliançado com poder religioso. Kolya é comparado a Jó, o homem comum injustamente acossado.

Vencedor do Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro e prémio de melhor argumento em Cannes, o filme desesperado de Andrey Zvyagintsev é um triunfo em todos os seus predicados. Enquanto os filmes anteriores são marcados por uma tonalidade de “tragédia soviética”, este trabalho é mais expansivo, com um toque de cinismo e humor negro, elevando o seu cinema a uma espécie de oitava arte – a própria vida. Tecnicamente impecável, com desempenhos notáveis (com destaque para o protagonista, Alexey Serebryakov) e um argumento com vários níveis de análise, qual deles o mais denso e interessante, o seu único ponto fraco será o seu fatalismo intransigente – uma visão desencantada da natureza humana que às vezes chega a ser dolorosa.


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