War Dogs

por Natália Costa

God bless Dick Cheney's America

Título Português Cães de Guerra
Ano 2016
Realizador Todd Phillips
Elenco Jonah Hill, Miles Teller, Ana De Armas
País Estados Unidos da América
Duração 114min
Género Comédia, Drama
War Dogs
8/10

A paixão pelo cinema foi-me passada pelos meus pais e o cinema sempre fez parte dos rituais em família: sinónimo dum serão bem passado. War Dogs foi a escolha do meu irmão de 20 anos e acho que estávamos todos um pouco cépticos em relação ao que o filme teria para oferecer. «Bem, é com o Bradley Cooper, por isso sempre tenho cinco minutos de deleite» – pensei eu, como qualquer cinéfila de olhos gulosos. War Dogs revelou-se muito mais divertido e interessante do que qualquer carinha laroca que por lá passe.

O filme acompanha a história de dois amigos com os seus 20 e tais que vivem em Miami. Durante o decorrer da Guerra do Iraque eles exploram uma iniciativa do Governo Americano que permite que pequenas empresas possam licitar em contratos militares do Governo Americano. Começando com pequenos quantias, o negócio torna-se cada vez maior até chegarem a um contrato de 300 milhões de dólares que se poderá revelar demasiado para uma companhia daquela dimensão. É baseado na história verídica de David Packouz e Efraim Diveroli.

Dirigido por Todd Philips, que conhecemos de comédias como The Hangover, Project X, Starsky & Hutch ou Due Date, sendo que muitos destes títulos foram também produzidos e co-escritos pelo realizador, War Dogs tem de imediato alguma expectativa a cumprir, mas – como quem não sabe é como quem não vê – esta foi uma daquelas raras ocasiões em que fui ao cinema sem ter qualquer informação prévia sobre o filme e revelou-se uma surpresa muito agradável. À semelhança do trabalho anterior, Philips não desilude, porque os seus filmes são sempre ritmados e embalados com gargalhadas no momento certo. War Dogs vai mais longe ainda devido à montagem que é original e refrescante! A divisão do filme em citações está muito divertida e a maneira como a música acompanha as imagens é soberba, dando-nos alguns dos momentos mais hilariantes do filme. As bandas-sonoras são, aliás, um dos meus elementos de cinema preferidos pela força que imprimem às imagens e pela maneira como perpetuam algumas das cenas cinematográficas na memória de quem as vê.

Outro ponto alto do filme é o piscar de olho – ou os piscares de olho – a essa obra-prima que é Scarface, sem dúvida uma referência para qualquer apaixonado de cinema, sobretudo para quem trabalhar na indústria de armamento e viver em Miami. A cena final no elevador é incrível e o mérito desta genialidade divide-se entre actores e argumento. Jonah Hill está brilhante, como tem vindo a estar em todos os seus trabalhos, nomeadamente em The Wolf Of Wall Street, em que foi – merecidamente – nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário. Hill interpreta Diveroli que nos dá alguns dos momentos mais divertidos do filme. Miles Teller tem o papel de Packouz que é também o narrador que nos acompanha ao longo da história. Teller teve uma bela interpretação em Whiplash e parece-me que será um dos grandes do futuro. Acho que ainda o vamos ver a ganhar um Óscar. Espante-se quem estiver a pensar na filmografia do actor, comédias como Get A Job, Two Night Stand, 21 & Over ou Project X ou filmes de entretenimento/fantasia como Divergent ou Fantastic Four, mas eu reconheço-lhe um talento que acho que ainda nos vai deixar boquiabertos.

Num momento em que o mundo atravessa uma fase de instabilidade e desunião, um filme como War Dogs é particularmente especial e bem-vindo. Parece que a história se repete ad eternum, sem que a Humanidade aprenda e repetindo até à exaustão um modelo económico gasto e elitista que – na sua essência – serve muito poucos. As guerras não passam de interesses económicos em que peões jogam dum lado e doutro, como se fosse um filme de acção de Hollywood. War Dogs traz uma luz a esta questão, relembrando-nos das sociedades em que vivemos e do quanto ainda temos por caminhar, sem, no entanto, sair do registo da comédia, o que o torna um filme perfeitamente enquadrado na estação.

Inesperadamente, War Dogs revelou-se um dos títulos do Verão, deixando no ar a mensagem de que os peões somos todos nós. God Bless Dick Cheney’s America, dizem eles.


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