Sentimental Value

por Pedro Rolino

Em "Sentimental Value", Joachim Trier regressa à intimidade familiar com a mesma atenção ao detalhe comportamental que já tinha apurado em "The Worst Person in the World".

Título Português Valor Sentimental
Ano 2025
Realizador Joachim Trier
Elenco Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Lilleaas, Elle Fanning
País Noruega
Duração 126min
Género Drama
Sentimental Value
8/10

Em Sentimental Value, Joachim Trier regressa à intimidade familiar com a mesma atenção ao detalhe comportamental que já tinha apurado em The Worst Person in the World. Desta vez, porém, sente-se um recato acrescido, como se a vontade de apelar a um público mais vasto o tivesse impelido a um certo facilitismo. A premissa instala-se no funeral da mãe de Nora e Agnes, em que as duas irmãs são confrontadas com o regresso de Gustav, o pai há muito ausente, agora decidido a usar a casa de família como cenário para o seu novo filme.

O prólogo cativa de imediato pelo acompanhamento em voz alta da redação da jovem Nora: uma poética mundana, que compara a morada de família a um organismo vivo, moldado pelo que ocorre entre as suas quatro paredes. A sequência seguinte, com Renate Reinsve a interpretar Nora já adulta, confirma a capacidade da atriz para prolongar a naturalidade que a consagrou e transformá-la numa presença simultaneamente ferida e funcional, própria de quem aprendeu a existir com a memória do trauma. A protagonista é multidimensional e credível, ainda que, a certa altura, o filme pareça conduzi-la para um território demasiado reconhecível, quase como se estivesse a cumprir o destino reservado a esta figura noutras narrativas do mesmo molde. Mesmo assim, é no contacto quotidiano entre as irmãs que a história encontra um dos registos mais verdadeiro. A união de ambas, assente no humor e, sobretudo, na proteção e lealdade fraternas, oferece alguns dos momentos mais íntimos e luminosos do filme, bem à imagem da sensibilidade a que Trier já nos habituou.

Stellan Skarsgård, por seu lado, imprime em Gustav um retrato tão sagaz quanto falível. Trata-se de um homem com vocação para sentir e, ao mesmo tempo, com incapacidade prática para acolher sentimentos alheios. Em si, os papéis de artista e de pai confundem-se até se tornarem indissociáveis, e esse curto-circuito moral funciona como o pretexto para o conflito central da trama. Uma das consequências diretas consiste na ligação interrompida com Agnes (Inga Lilleaas), a filha mais nova, que emerge através do cinema, por via de uma obra antiga que, para ela, foi quase uma prova de amor e que, para ele, não passou de um capítulo fechado com a facilidade com que se encerra uma cena.

Há também um comentário ao cinema enquanto indústria em mutação, com a promessa da inovação a reordenar hierarquias e a cingir certos autores à periferia do mercado. Gustav escreve o papel principal para Nora, mas ela recusa e o projeto transita para Rachel Kemp, atriz americana popular, vivida no ecrã por Elle Fanning. É aqui que, para mim, o filme perde densidade. Rachel funciona, principalmente, como catalisador narrativo, e as cenas à sua volta carregam um carácter instrumental difícil de ignorar, como se pertencessem a um filme ligeiramente diferente.

Nesse sentido, quando Sentimental Value se concentra no essencial, a excelência impõe-se. O problema bate-se, sobremodo, com parte da costura do enredo, que se torna demasiado visível. Para um filme que, no seu melhor, percebe a complexidade das emoções que explora, o desfecho decorre algo passível de fazer esquecer, por instantes, que a felicidade ali conquistada também é merecida.


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