Twinless

por Pedro Rolino

Twinless confirma James Sweeney como um cineasta interessado nas fissuras dos gestos que parecem empáticos, mas escondem uma necessidade primária.

Título Português Twinless
Ano 2025
Realizador James Sweeney
Elenco Dylan O'Brien, James Sweeney
País Estados Unidos
Duração 100min
Género Comédia dramática
Twinless
7/10

Twinless confirma James Sweeney como um cineasta interessado nas fissuras dos gestos que parecem empáticos, mas escondem uma necessidade primária. Depois de Straight Up, o realizador concebe uma comédia dramática sobre perda que se foca mais na solidão do que no luto. É uma obra que recorre, de forma literal e emocional, ao conceito de “gémeos” para amplificar a ideia de dualidade e de crise identitária – um tema caro ao cinema queer. Sweeney, ele próprio membro da comunidade LGBTQIA+, realiza, escreve e interpreta com segurança, preferindo a emoção ao sentimentalismo e filmando o vazio como terreno fértil para a dependência e a manipulação.

Dennis (James Sweeney) conhece Roman (Dylan O’Brien) num grupo de apoio para gémeos enlutados. O ponto de partida é a aproximação entre ambos, mas o alicerce da narrativa vai para além da culpa do primeiro por ter estado indiretamente envolvido na morte de Rocky – o irmão do segundo, também interpretado por O’Brien. Na verdade, explora a figura de Dennis como um solitário, permitindo-nos observar como essa solidão se infiltra no seu comportamento: carente, sarcástico e inteligente o suficiente para disfarçar o desespero com humor e controlo. Neste quadro, o filme não o condena peremptoriamente, optando antes por lhe revelar as falhas com um olhar simbólico, atento à complexidade do caráter humano.

Roman serve como o contrapeso ideal. Também vulnerável, mas reprimido e em luta com o seu próprio temperamento, tenta rejeitar o estereótipo, ainda que carregue traços. Entre os dois, a relação carrega um subtexto homoafetivo não sexual, mas permeado por uma tensão de cumplicidade, ciúmes e desejo de reconhecimento que transcende o mero laço de amizade. A simplicidade de Roman confere ao filme uma ternura bem-vinda e, na breve aparição como Rocky, O’Brien acrescenta a dose necessária de carisma e a sensualidade para justificar o fascínio que desencadeia a tragédia.

Os diálogos também sobressaem. As personagens não se refugiam em bordões nem seguem a tendência de um certo cinema, comercial ou independente, que procura a todo o custo parecer inteligente e excêntrico. Sweeney revela sensibilidade e um apurado sentido de ritmo. A montagem respeita tanto a pausa quanto a fala, e o humor, em vez de aliviar, serve para expor personalidade.

Visualmente, há mais expressão do que aparenta. A fotografia de Greg Cotten aposta em tons quentes e composições calculadas para sublinhar a intimidade, mas nunca cai no polimento artificial. Há uma serenidade triste nas cores, como se tudo parecesse ordenado, mas sentido-se a inquietude no enquadramento.

E é nesse registo que o desfecho opera. A decisão de se voltarem a encontrar e a coincidência do pedido no restaurante, representam um dos poucos momentos em que o filme sucumbe à semântica previsível. Apesar disso, a cena funciona e serve como sinal de uma trégua frágil, aberta à leitura de cada espectador. Não há redenção plena nem esquecimento, só o ponto de contacto possível entre lamento e carência, dor e desejo de continuidade.

Ao sugerir que compreender a solidão é reconhecer o próprio impulso humano por ligação, mesmo quando se manifesta em erro, a mensagem de Twinless destaca-se entre as dos demais filmes sobre o luto. Muito embora pudesse beneficiar de um gesto mais arrojado, termina de forma envolvente e desperta vontade de rever.


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