Variações

por Edite Queiroz

Dois ou três passos para lá da nostalgia da 'persona', imaginamos, identificamos, projectamos e reconhecemos: é este o António – nosso e de cada um.

Título Português Variações
Ano 2019
Realizador João Maia
Elenco Sérgio Praia, Filipe Duarte, Victoria Guerra, Augusto Madeira, Afonso Lagarto, Teresa Madruga, Maria José Pascoal, Tomás Alves, Miguel Raposo
País Portugal
Duração 108min
Género Drama, Biopic
Variações
8/10

Um dos filmes mais aguardados do ano, Variações é já um recordista de bilheteiras. Já o era antes de o ser. Poucas figuras da música portuguesa serão tão queridas do público ou despertarão tanta saudade. Depois 35 anos sem António Joaquim Rodrigues Ribeiro, quem não gostaria de rever o cantor, o barbeiro, ícone da Lisboa do final dos anos 70?

Desenvolvido ao longo de quase duas décadas, Variações fala de António com uma atenção quase exclusiva na sua figura e personalidade, apresentando-o de forma tão calorosa que quase questionamos se, de facto, poderia existir um homem assim: simples apesar de toda a excentricidade, sonhador obstinado, autodidacta incansável, amigo leal. O amor à música, esse, todos lhe reconhecemos, está plasmado nos resultados da sua curta carreira (dois álbuns apenas), subitamente interrompida pela sua morte em 1984. É quase possível matar a saudade olhando para Sérgio Praia, que para além das semelhanças físicas, nos oferece uma interpretação de corpo e alma: A atitude, o olhar, a fisicalidade, os trejeitos vocais, os movimentos característicos, a energia e o entusiasmo de cantar – e, claro, a Amália na voz. A transformação de Sérgio Praia é quase perfeita e inesquecível.

Mas nem apenas de António se faz Variações. A caracterização, as indumentárias, a mise-en-scène fazem-nos viajar no tempo de forma imediata e sentimo-nos com ele, nessa Lisboa já tão distante: na casa excentricamente decorada onde vivia, compunha e poucos entraram, nas ruas da cidade por onde andava sempre a pé, no seu barbeiro, no frenesim da discoteca Trumps onde actuou ao vivo pela primeira vez.

Naturalmente, há falhas. O material é imenso e diverso, há vontade de mostrar tudo e não deixar escapar nenhum detalhe. Mas falta profundidade à secção dedicada à experiência internacional e seus frutos. Falta um pouco de contexto, que permitisse perceber que a extravagância da figura de Variações talvez não fosse tão consensual como o filme parece, carinhosamente, indicar (sabemos que não o era). Faltam referências importantes a quem apoiou a sua luta pelo reconhecimento. Falta o foco em momentos dramáticos que sabemos que existiram. Falta algum rigor na caracterização das origens humildes em Fiscal e dos costumes da aldeia. Mas António Variações não caberia num filme. E por isso, onde tudo isto falta, sobra reverência e respeito: a relação com a mãe (mais complexa do que a retratada), a questão sexual, a relação com Fernando Ataíde (Filipe Duarte), a família “disfuncional” que formavam com Rosa Maria (Victória Guerra, lindíssima), a maleita que o terá vitimado, tudo é tratado com delicadeza e sem cair na tentação fácil de instrumentalizar os detalhes menos felizes.  As canções, já eternas, são revisitadas nos arranjos de Armando Teixeira (dos Balla) e voz de Sérgio Praia, levando-nos num passeio pelo percurso do cantor, mais do que isso, pela pessoa – como algures no filme é dito, a música de Variações diz bem mais de António do que ele próprio. E por isso ele vive ainda, num imaginário musical que já não morre.

“E quem é que te disse que quero adaptar-me a Lisboa?

Lisboa é que tem que se adaptar a mim”

Em suma, o filme de João Maia pode não ser (e não é) uma biografia rigorosa. Exagera nas plasticidades, é omisso em questões importantes e em vários momentos desacertado. Mas dividamos objecto fílmico nas suas tantas componentes: na sua nota de intenções, não pretende ser imparcial, mas invocativo; do ponto de vista da interpretação, é não menos que fulgurante; o design de produção e guarda-roupa são belíssimos; o som e a fotografia são bons; o argumento é inteligente e ponderado, escolhendo não ser explícito quando o poderia ser e nada manipulativo tendo material de sobra para apelar à lágrima. Por fim, o filme vence-nos nos afectos, esse ingrediente sempre basilar, mas de difícil avaliação. É um filme para uma personagem, para um actor (o incrível Sérgio Praia) e para uma memória colectiva – sobretudo individual. Nele, cada um pode ler o que gostaria de ver e saber, e dois ou três passos para lá da nostalgia da persona, imagina, identifica, projecta e reconhece: é este o António – frenético, incompreendido e difuso – nosso e de cada um.


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