The Polar Express

por Pedro Rolino

O filme não reduz o Natal a um estado de alma pré-fabricado, tratando-o, ao invés disso, como um problema íntimo, quase filosófico, que nasce quando a crença perde o cariz automático.

Título Português The Polar Express
Ano 2004
Realizador Robert Zemeckis
Elenco Tom Hanks, Daryl Sabara, Nona Gaye, Jimmy Bennett
País EUA
Duração 100min
Género Animação, Natal, Aventura, Famila, Fantasia
The Polar Express
7/10

Há uma razão para The Polar Express continuar a ser, para mim, mais do que um hábito de Dezembro. O filme não reduz o Natal a um estado de alma pré-fabricado, tratando-o, ao invés disso, como um problema íntimo, quase filosófico, que nasce quando a crença perde o cariz automático. O que está em causa é a nossa disponibilidade para reconhecer o maravilhoso, sobretudo quando a ingenuidade da infância já não nos serve de prova. E, nesse sentido, a palavra que o filme repete, de forma explícita e ainda mais frequente do que “Natal”, é “acreditar”.

Na sua adaptação do livro de Chris Van Allsburg, Robert Zemeckis ampliou-lhe o escopo num percurso onde cada episódio parece testar uma competência interior. O comboio aparece como instituição e como rito: há regras, hierarquias e até pequenas arbitrariedades que lembram, com desconforto produtivo, que o encantamento contemporâneo convive com logística. Ao aproveitar-se dessa ambiguidade sistemática, o realizador fá-lo sem cinismo, preferindo encenar a questão do que sobra quando a festa já está montada e o âmago, mesmo assim, hesita.

É aqui que o motivo da crença ganha forma concreta. O bilhete da viagem é um objeto banal e, precisamente por isso, tão afiado como metáfora. Passa de mão em mão, perde-se, reaparece, é carimbado, revisto e disputado. Acreditar deixa de ser um fogo espontâneo e passa a figurar algo que exige confirmação contínua. Este reflexo de burocracia é uma das grandes forças da história, porque descreve o modo como muitas pessoas atravessam o fantástico, entre a vontade de o sentir e o esquecimento de como se faz.

Mesmo a opção estética, tantas vezes discutida, serve este mesmo propósito. A tecnologia de captura de movimentos 3D procurou aproximar os corpos e os gestos de uma presença humana, num registo que pode parecer inquietante, mas encaixa com a dramaturgia da dúvida. A imagem vive num limiar, tal como o protagonista, dividido entre a memória e o pedido de explicação.

Quando o Polo Norte se revela, os cenários confirmam o que é sugerido desde o início: a magia é gigantesca, mas não necessariamente íntima. É pública, coordenada e quase industrial. No entanto, no centro da coreografia narrada surge o Pai Natal, uma figura de escala transcendente, filmada como presença luminosa que domina o espaço e clama pela atenção de todos. O filme engrandece-o além da pretensão de invulnerabilidade e aposta numa abordagem simbólica subtil. A fé pode vacilar em nós, mas o mito permanece, inteiro, à espera de ser reconhecido.


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