Escrever sobre filmes que estão a ser elogiados sem parecer propositadamente um desmancha-prazeres é tanto mais difícil quanto mais se discorda da opinião maioritária. A questão é que eu queria mesmo gostar de The Invite. O conceito e os temas de partida são, sem dúvida, interessantes, a adaptação da comédia espanhola Sentimental, baseada na peça Els veïns de dalt (Os Vizinhos de Cima), de Cesc Gay, vinha também ela acompanhada de rasgados elogios, e a escolha do elenco parecia promissora. No entanto, naquilo em que Olivia Wilde, aqui também no papel de protagonista, mais peca é precisamente na necessidade de acrescentar demasiado a todos estes fatores.
De um lado, temos um casal na casa dos 40 anos, típico, com vidas tipicamente miseráveis e rancores tipicamente mascarados por detrás do afeto que parecem ter esquecido, quer entre si, quer por si mesmos. Do outro, um casal de vizinhos que parece representar a fantasia mais inalcançável, num equilíbrio perfeito entre comunicação clara, realização pessoal, intimidade, lascívia e admiração mútua. No meio, um apartamento que serve de cenário único, claro resquício do formato de peça teatral que lhe está na génese. Até aqui, tudo bem. Afinal, uma boa premissa é aquela que oferece liberdade suficiente à execução para a desenvolver. O problema surge, porém, quando esta ocupa tanto espaço com os seus apetrechos que pouco sobra para que se destrinquem os detalhes. Ou seja, tudo aquilo que poderia verdadeiramente demonstrar o apelo de ambas.
E, com apetrechos, refiro-me a uma banda sonora habitualmente intrusiva (mas nunca tu, Sade), a diálogos forçosamente quarentões, a enquadramentos de câmara forçosamente simbólicos e a uma insistência forçosamente pouco ingénua em empolar as cenas centradas na realizadora-atriz.
O melhor do filme, e seria bom mesmo sem quaisquer comparações, passa pelo desempenho do restante elenco: Seth Rogen e Edward Norton, cuja reputação distinta na vida real também se traduz num contraste ficcional cómico e bastante atrativo, e Penélope Cruz, cuja desenvoltura como intérprete há muito que combina com uma feminilidade forte e sensual. Destacam-se ainda os últimos quinze a vinte minutos do filme, momento em que a história finalmente se despe de adereços superficiais e consegue dar ao enredo a veia humana que tanto deseja e promete transmitir.
Começar com Booksmart, passar por Don’t Worry Darling e fazer estrear agora The Invite revela um potencial de traços gerais sólidos, mas com pormenores que ficam mais agarrados à inconsistência de Wilde do que propriamente à sua identidade artística. Desta feita, peço desculpa, mas o prazer fica mesmo desmanchado.