A Marvel tornou quase impossível olhar para um filme sem convocar todos os outros. Chegados ao trigésimo oitavo capítulo, cada projeto continua a ser aferido pela sua qualidade, embora o lugar que ocupa dentro do conjunto tenha ganhado um peso equivalente e bem mais conveniente para o estúdio. O público habituou-se a esperar que as decisões duvidosas encontrem justificação num capítulo futuro, e dessa paciência prolongada nasceu uma lealdade rara, tanto mais notória quanto o espectador casual se vai assemelhando a uma figura em vias de extinção.
Foi nesse enquadramento que Spider-Man: Brand New Day se demorou entre negociações com a Sony, alterações de calendário e sucessivas revisões de argumento. A escrita coube a Chris McKenna e Erik Sommers, as revisões a Justin Kuritzkes, e a realização a Destin Daniel Cretton, chegado de Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings. Tom Holland e Zendaya também intervieram, numa altura em que conhecem as personagens, o público e a dimensão da responsabilidade tão bem quanto qualquer produtor sentado à mesa.
Depois do desfecho de No Way Home, havia entre os fãs de Spider-Man uma expectativa muito concreta, e o filme cumpre-a. Peter Parker está, pela primeira vez nesta encarnação, envolto da vida que sempre definiu a personagem, ou seja, sozinho em Nova Iorque, apartado de quem ama e obrigado a conciliar a sua missão heróica com uma existência de escassas garantias. Cretton olha para além das consequências do feitiço lançado por Dr. Strange e detém-se na pessoa que delas sobrou, entregue ao ofício de Spider-Man com uma dedicação onde tanto cabe a responsabilidade como uma forma pouco saudável de adiar o sofrimento.
O luto, a adaptação e o crescimento instalam-se nessa rotina, sem discursos a sublinhar aquilo que Holland já enuncia no modo como Peter se desloca, observa os antigos amigos ou se esforça por permanecer ocupado. A mudança começa também a inscrever-se no corpo e torna instável uma simbiose que, desde a picada da aranha, parecia resolvida. O filme administra a metamorfose com equilíbrio e usa-a para aproximar a entrada na idade adulta da perda de controlo, contudo, sem abdicar da afabilidade e do humor que distinguem a interpretação do protagonista.
Nova Iorque acompanha-o e assume uma importância que os capítulos anteriores raramente lhe reconheceram. Aquela montagem inicial de Homecoming, com Spider-Man a percorrer os bairros e a ocupar-se das contrariedades miúdas de quem ali vive, parece ter sido dilatada até constituir a textura inteira de Brand New Day. A cidade recupera a intimidade de um espaço habitado e deixa de servir apenas de rampa de lançamento para ameaças maiores. O humor lucra com a mesma disposição, continuando a haver piadas – algumas das melhores de toda a passagem de Holland pelo MCU – mas espoletando agora da índole das figuras e de uma ternura que dispensa o riso automático. Cretton deixa os diálogos prolongarem-se e não parece atormentado pela hipótese de uma cena séria terminar sem alguém a desfazê-la de imediato. Preserva-se, portanto, a leveza indispensável ao Aranhiço, com uma espontaneidade que boa parte das produções recentes do estúdio perdeu.
A entrada de Frank Castle é das componentes que mais beneficiam dessa segurança renovada. Jon Bernthal conserva a dureza e a agressividade acumuladas desde a série, mas encontra em Peter um interlocutor inesperadamente compatível, capaz de o confrontar sem o converter numa nova figura paternal. O seu Punisher vale mais como amigo improvável e como a imagem de uma vida inteiramente consumida pela perda, advertência quanto àquilo em que a solidão se pode transformar. A química entre ambos ultrapassa tudo quanto a relação com Tony Stark prometera, sustentada por um humor orgânico que aproveita as diferenças sem domesticar a personagem.
Também a breve passagem de Bruce Banner cumpre uma função clara neste percurso, adensando a inquietação perante um corpo que começa a desafiar o respetivo dono. Com um Banner avesso à transformação e um Hulk novamente indomável, Mark Ruffalo restitui em poucos minutos a tensão que os últimos anos foram diluindo.
MJ, por seu turno, permanece ligada àquilo que o filme tem de mais delicado. A química de Holland e Zendaya sobrevive à perda das memórias, agora sustentada por gestos em que a familiaridade antecede qualquer explicação. O argumento respeita a distância aberta em No Way Home e deixa Peter medir a diferença entre cuidar de alguém e decidir sozinho aquilo que essa pessoa deve perder.
Resta Sadie Sink, a grande surpresa da trama, cuja personagem poderia esgotar-se na revelação preparada para alimentar discussões futuras, não a dotasse a atriz de uma intensidade própria que justifica toda a confiança depositada numa carreira que há muito prometia ultrapassar os cenários de Hawkins.
As reservas concentram-se naquilo que o filme herda. Isto é, na fotografia, que corre limpa, aprazível e guiada por uma intenção vincada, ainda que sem arriscar tanto quanto a promoção fazia prever, e na revelação guardada para o que vem a seguir, que nos relembra da impossibilidade deste Peter Parker escapar às regras da casa.
Ainda assim, Spider-Man: Brand New Day é um filme mais maduro, dignamente espirituoso e nova-iorquino, com interpretações seguras e menor dependência de excessos digitais. O fato novo aproxima-se como poucos da comunhão ideal entre a página das bandas desenhadas e o grande ecrã e é, sem grande pudor crítico da minha parte, particularmente sexy.
No essencial, Cretton devolve Spider-Man ao centro sem fingir que o resto do universo não existe, e Holland encontra, por fim, a bússola que reúne o humor, a empatia, a maturidade e o poder da personagem num só registo. Muito provavelmente, Brand New Day será para o ator aquilo que Spider-Man 2 foi para Tobey Maguire.